Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 49 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 47

 

– VOCÊ PARECE PREOCUPADA.

Reggie encarou Waller durante o passeio pelas ruas de Roussillon. Haviam ido até lá em carros separados; ela seguira a caravana de veículos do empresário. Roussillon tinha todo o charme de um típico vilarejo provençal, só que a maioria dos edifícios apresentava mais tons de ocre.

– Só estou cansada. Não dormi muito na noite passada.

– Espero que nenhuma perturbação esteja tirando seu sono.

Ele estava usando uma calça jeans, uma camisa branca de algodão para fora da calça e sandálias de couro. Um chapéu-panamá cobria sua cabeça calva, protegendo a pele pálida. Era um visual elegante e despojado que, por algum motivo, incomodou Reggie.

– Provavelmente, só jet lag tardio. Este vilarejo é mesmo lindo. As cores são muito diferentes de tudo o que já vi.

– Minha mãe nasceu aqui – falou ele com orgulho. – A Provence me recorda a infância.

Reggie parou em frente a uma janela, como se examinasse sua pintura, mas, na verdade, tentava imaginar como Fedir Kuchin conseguira escapar da Cortina de Ferro e ir para aquele lugar quando criança, ou melhor, como seus pais conseguiram e o levaram. As viagens eram muito restritas naquela época. Seu pai devia ser do alto escalão do Partido Comunista para ter tanta liberdade. Ela também se perguntava como uma francesa de uma aldeia rural da Provence havia se casado com um comunista ucraniano. Talvez Kuchin estivesse mentindo. Era mais provável.

– Gostou da pintura? – perguntou Waller.

Reggie continuou a observar a tranquila cena de porto retratada ali.

– É muito mais agradável do que as obras do Señor Goya.

– Ah, mas esse pintor nunca terá a reputação de Goya. Ele, sim, prestou um importante serviço ao mundo.

Ela se virou para Waller.

– Como assim?

– Ele viveu em tempos difíceis. Guerra, pobreza, crueldade. Por isso, pintou pesadelos. Como eu disse, ele lembrou ao mundo que o mal existe. Essa é uma lição importante que nunca devemos esquecer, mas que esquecemos o tempo todo.

– Você vivenciou essas coisas?

– Li a respeito e acho que devem ser evitadas, se possível.

– Mas às vezes não é possível.

– Você é americana, logo é de se esperar que diga isso. Vocês são uma superpotência, podem fazer o que quiserem.

Reggie teve a impressão de ver uma centelha de inveja nos olhos de Kuchin, mas devia ser só sua imaginação. Ele lhe deu o braço.

– Soube que o caro Bill nos deixou.

Por pouco, Reggie não retirou o braço.

– Ele teve que voltar para casa. Algum problema de família.

– Então, farei o que puder para preencher qualquer lacuna.

Ela lhe lançou um olhar penetrante e forçou um sorriso.

– Não faça promessas que não podem ser cumpridas.

– Eu nunca faço isso.

– Bem, onde você e sua família ficavam quando estavam aqui?

– Vou lhe mostrar.

Continuaram a caminhar e atravessaram o centro da cidade. A cerca de 250 metros dali, Waller a levou por uma escadaria antiga e parou diante de um pequeno chalé com uma porta de madeira e duas janelas na fachada.

– Aqui.

– É muito singela.

– Meu pai morreu nesse chalé.

– Meu Deus, sinto muito.

– Tenho certeza de que ele também sentiu.

Waller voltou a lhe dar o braço.

– Agora, vamos almoçar. Por aqui. Está tudo planejado. Precisamos comer algo leve porque o jantar será substancioso.

– Vejo que você gosta de ficar no controle.

– Existem líderes e seguidores. É a ordem natural das coisas. Você quer que um seguidor lidere ou que um líder siga?

– Acho que depende de aonde você quer chegar.

– Você é uma jovem exótica.

– Já ouvi coisas piores.

– Foi um elogio.

Waller segurou o braço dela com mais força. Durante o passeio, Reggie se viu consumida pela preocupação. Será que Kuchin havia feito algum mal a Bill? Nesse caso, matar o monstro não seria suficiente. Nada seria, se um homem inocente tivesse morrido por sua causa.