Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 13 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 11

 

EQUILIBRANDO UMA XÍCARA DE chá quente em uma das mãos, Reggie carregava na outra um prato com linguiças fritas, uma maçã fatiada e torradas com manteiga. Quando entrou na biblioteca, o professor Mallory levantou os olhos de um livro grande escrito em polonês, pegou o cachimbo e sorriu.

– Acho que ouvi você chegar ontem à noite. Seu carro faz um barulho diferente.

– Chama-se escapamento escangalhado.

Reggie sentou-se ao lado do professor, fez uma espécie de sanduíche com as torradas e as linguiças, deu uma mordida e tomou o chá.

– Onde está Whit?

– Acho que ele ainda não chegou. Mas espero que esteja aqui em breve.

– Quero conversar com o senhor a respeito do pessoal para a missão Kuchin.

Mallory pôs o livro de lado. Sua gravata-borboleta ainda estava torta, mas, naquela manhã, as pontas do colarinho da camisa apontavam para onde deveriam e, ao que parecia, ele havia penteado os cabelos.

– Alguma ideia? – perguntou ele.

– Acho que Whit deveria desempenhar um papel de destaque.

– Ele pediu que você falasse comigo?

– Não exatamente.

– Eu sei que é difícil para você. E para ele.

– Como assim?

– Bem, você o superou na liderança em campo, Regina.

O professor era o único do grupo que se referia a ela pelo nome.

– Não vejo as coisas dessa forma.

– Mas elas são dessa forma.

– Sabe, professor, para ser sincera, o senhor poderia ter mais tato.

Ele sorriu por causa daquela leve repreensão.

– Se você tentar maquiar a verdade ou atenuar os fatos, apenas aumentará as chances de chegar a uma conclusão errada.

– Whit é de grande valia para o grupo.

– Concordo plenamente com você. Se fôssemos no encalço de mulheres, talvez ele fosse o líder. Só que nossos alvos em geral são homens com tendências heterossexuais.

– Ele já caçou homens. Com êxito.

– Êxito no sentido de que os alvos foram eliminados. Mas gostamos de atuar em segredo. Por exemplo, se deixássemos provas do motivo pelo qual pusemos fim à vida daquelas pessoas e essas provas se tornassem públicas, você sabe o que aconteceria?

– Seria ainda mais difícil encontrar os alvos restantes. Porém, não há mais nazistas.

– Isso não invalida o argumento. E permita-me corrigi-la: não há mais nazistas dos quais temos conhecimento. Novos dados podem gerar mais trabalho nesse campo. Mas veja o caso de Kuchin: se dermos cabo dele e a informação vazar, outros carniceiros do Leste Europeu disfarçados... e há pelo menos uma dúzia deles... ficariam em estado de alerta.

– Mas não divulgamos o motivo das mortes. Essa informação nunca se torna pública.

– Só que essa não é a única maneira de avisar alguém.

– Não estou entendendo o que o senhor quer dizer.

– Seu primeiro alvo como líder foi o velho austríaco que se casou cinco vezes. Você o amarrou e fez seu trabalho, mas revirou a casa e forçou uma tranca para parecer que havia sido um assalto. Além disso, você não deu no pé, mas ficou na casa durante as investigações para que ninguém suspeitasse de você. Agora, vamos falar de Whit. Antes de você entrar no grupo, em uma missão como líder, ele matou um ex-chefe da Gestapo com um tiro na genitália. Ele deveria ter injetado no sujeito um veneno que se dissolve no corpo em dois minutos e não pode ser detectado. Whit afirma que o frasco do veneno quebrou. Não é necessário ser um gênio para calcular que disparar uma bala nas partes íntimas de um homem e deixá-lo sangrar até a morte é algo típico de uma vingança. Na verdade, isso poderia ter posto em risco alvos futuros.

– Talvez o frasco tenha realmente quebrado. Nem tudo corre como previsto em campo.

O olhar afável sumiu do rosto de Mallory.

– Ah, desculpe, me esqueci de uma informação crucial: Whit pintou uma suástica na testa do homem e teve a petulância de me perguntar se eu achava que era sutil demais.

Reggie conteve um sorriso.

– Ah.

– A imprensa internacional se esbaldou e tornou nosso trabalho seguinte muito mais difícil. O Sr. Beckham e eu tivemos uma discussão a respeito.

– Imagino.

– No caso de Huber, já sabemos que eles acham que ele morreu depois de tentar fazer sexo com a bela Barbara e que ela fugiu com medo de uma represália. Ninguém está investigando, pois o velho tinha 96 anos e, ao que parece, morreu extremamente feliz. – O professor não conseguiu deixar de sorrir.

– Mas temos uma vantagem neste caso. O mundo não faz ideia de que Evan Waller é Fedir Kuchin. Mesmo que ele seja assassinado em circunstâncias misteriosas, outras pessoas como Kuchin nem devem notar.

O professor negou com a cabeça.

– Não, não. Não podemos contar com isso. Haverá a imprensa. Haverá investigações. Alguém talvez reconheça o homem. Ele tem sido muito discreto há décadas. Mesmo em seu trabalho supostamente filantrópico, ninguém o vê. É tudo feito através de intermediários. De qualquer forma, não podemos atrair atenção indesejada para o assunto.

– Bem, não posso fingir que fiz sexo com o homem e, depois, constatar que ele morreu, como aconteceu com Huber. Há limites para o que posso fazer. Talvez um empresário como ele tenha outros inimigos em quem possamos jogar a culpa. O que sabemos sobre outras transações dele?

Mallory deu de ombros.

– Não muito. Nosso pessoal tinha outras prioridades. Estavam procurando Kuchin, e não um empresário possivelmente desonesto. Acredito que ele tenha outros interesses que satisfaçam sua natureza malvada, mas não sei quais são e não temos tempo para investigá-los agora.

Reggie se recostou na cadeira.

– Ainda acho que Whit deveria participar dessa missão. Kuchin parece capaz de tomar conta de si mesmo. Não vou conseguir subjugá-lo sozinha. No final das contas, terá que ser um trabalho de equipe.

– É verdade, nossas presas estão ficando mais jovens e fortes, não é? – O professor cofiou a barba. – Concordo em grande parte com você. Vamos precisar de força nesse caso. E, embora tenha alguns pontos fracos, Whit sem dúvida tem músculos. Pode dizer isso a ele.

– Por que o senhor mesmo não diz? – perguntou Reggie, irritada.

Mallory pareceu confuso por um instante.

– Não nos damos tão bem assim. Bom, vamos analisar alguns detalhes antes que a reunião comece oficialmente.

– Por que o senhor faz isto, professor? – indagou ela de repente.

– O quê? Você está falando do meu hábito de fumar este cachimbo fedorento?

– O senhor não é judeu. Nunca mencionou nenhum ente querido que tenha sofrido nas mãos de alguma dessas vis criaturas. Então, por quê?

Ele olhou para Reggie, impassível.

– Um homem precisa de um motivo para buscar justiça?

– Satisfaça minha curiosidade.

– Hoje, não. Talvez outro dia. Posso é dizer uma coisa: você vai gostar da sua pequena morada na Provence.

– É mesmo? Por quê?

– Trata-se de uma mansão de cinco andares com uma vista extraordinária do vale do Luberon, e você pode ir andando até o pacato vilarejo de Gordes em menos de cinco minutos. Terrivelmente cara. O aluguel é mais caro que o do meu chalé. E esta não é a melhor parte.

– Qual é, então?

– Fica bem ao lado de onde Fedir Kuchin vai se alojar.