Livrai-nos do mal
Capítulo 14
O PLANO DE EXTRAÇÃO ESTAVA pronto. As cavernas haviam sido meticulosamente inspecionadas. Shaw também as visitaria quando chegasse lá. Antes disso, ele estudou plantas detalhadas das partes externas e internas do local até memorizá-las. Waller iria lá menos de uma semana após sua chegada à Provence; seu tour particular começava às dez da manhã em ponto.
Depois de cada longo dia de trabalho, que incluía a escolha dos integrantes da equipe e a preparação deles, Shaw voltava para o hotel, se trocava, dava sua corrida e, em seguida, caminhava sozinho pelas ruas de Paris até a escuridão ficar mais densa e sua energia esmorecer. Uma noite, ele resolveu comer em um café em frente ao Jardim de Luxemburgo, um lugar que Anna Schmidt adorava. Eles costumavam passear pelos jardins de mãos dadas, observando as crianças que brincavam com seus barquinhos de madeira na grande fonte central, e depois sentavam-se para olhar as pessoas que passavam. Shaw não podia mais voltar àquele local porque, para ele, era solo sagrado, que não podia ser pisado de novo. Mas ele havia se aventurado perto o suficiente para ver à distância algumas das flores. Foi o mais longe que ele conseguiu ir antes de sentir um aperto no peito e seus olhos marejarem.
Ele acabara de pedir a comida quando examinou o restaurante, inspecionando cada mesa. Um hábito que se repetia havia décadas, tão natural para ele quanto respirar. Perdeu o fôlego por um instante quando a viu em pé perto da porta que dividia os dois salões.
Katie James não parecia tão magra quanto da última vez que ele a vira, o que era um bom sinal, pois ela precisava ganhar um pouco de peso. Seus cabelos naturalmente louros, antes arrepiados e escuros, haviam crescido e quase tocavam seus ombros. Ela estava usando uma saia branca, sapatos com 5 centímetros de salto sem meias e uma blusa de manga comprida azul-escura. Ela nunca vestia blusa sem manga por causa da ferida de bala no antebraço esquerdo.
Enquanto ela ia em sua direção, ele percebeu que a maquiagem não cobria totalmente suas olheiras. Ela era uma mulher bonita e muitos homens no salão se viraram para olhá-la. Mesmo suscitando a ira das mulheres com quem estavam jantando, valia a pena poder admirar Katie.
Ela sentou-se à sua frente, sem esperar um convite.
– Você parece bem – comentou e olhou para os cabelos dele. – Um pouco grisalho?
– Um pouco. Você voltou à forma. Mas eu até que gostava do penteado escuro e arrepiado. – Shaw fez uma pausa. – Como você sabia onde eu estava? – Ele mesmo respondeu: – Frank. Qual é o interesse dele? Não sabia que ele se importava com a minha vida pessoal.
– Acho que ele nunca se importou até Anna ser assassinada.
– Ele me disse que você telefonou.
– Eu não teria telefonado para ele se você tivesse retornado minhas ligações.
– Desculpe por ter sumido.
– Não havia nenhum compromisso. Somos donos dos nossos narizes. Meu único problema foi não ter certeza de que você estivesse vivo. Por isso liguei para Frank. Para me certificar de que você estava bem.
Shaw se sentiu ainda mais culpado.
– Estou bem. Voltei a trabalhar. Está tudo certo. Eu disse isso para você ao telefone.
– Eu queria ver com meus próprios olhos.
Ele baixou o olhar para a mesa.
– Você já jantou?
– Não estou com fome.
A recusa de Katie surpreendeu Shaw.
– Katie.
Ela se levantou. Os dois se encararam por um instante.
– Boa sorte, Shaw.
Katie esperou que ele dissesse algo. Porém, Shaw permaneceu em silêncio.
Ela se virou e foi embora.
Shaw ficou sentado por um bom tempo, debatendo o que fazer. Por fim, ele jogou alguns euros sobre a mesa, saiu às pressas do restaurante e perscrutou a movimentada rua.
Mas Katie já havia sumido de vista.