Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 84 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 82

 

MALLORY ESTAVA EM SEU escritório, vestido formalmente, e parecia seguro de si, com as pontas dos dedos unidas sobre a escrivaninha. Seu olhar ficou passando de Reggie para Shaw quando o homem fez a pergunta.

– Desconheço a identidade dessa pessoa – respondeu, secamente.

– Mas foi um informante? – insistiu Shaw.

– Sim. Às vezes os usamos.

– Mas, se o senhor não sabia quem era, como podia confiar na tal fonte?

– Eu me senti confiante para seguir em frente. Talvez fosse nossa única oportunidade de chegar até Kuchin.

– Confiante? – exclamou Reggie. – Para arriscar nossas vidas caso o senhor estivesse enganado?

– Eu disse que isso acabaria causando problemas para você, Miles.

Todos se viraram e viram Liza na soleira, de calças e suéter comprido. Ela também não tinha ido se deitar. Lançou um olhar duro para o professor e se sentou em uma cadeira diante dele, passando a encarar Shaw e Reggie.

– Miles e eu discutimos esse assunto algumas vezes, não foi?

– Você expressou sua opinião com toda a clareza – observou ele diplomaticamente.

– Minha opinião era que não devíamos mandar uma equipe com base em informações de uma fonte anônima.

– Mas essa fonte nos deu informações corretas sobre as movimentações de Fedir Kuchin – ressaltou Mallory. – Ele de fato viajou até Gordes, até aquela mansão, e com a equipe de segurança que nos foi relatada.

– Mas, ainda assim, confiar nessa pessoa...

– Que motivo ela teria para nos enganar? – interrompeu o professor.

– Que tal matar vocês quando descobrisse que queriam eliminar o chefe dela? – sugeriu Shaw.

– Não foi assim que as coisas aconteceram. A pessoa nos procurou.

– Como ele sabia a maneira de chegar até nós? – questionou Reggie.

– Existem algumas maneiras – respondeu Mallory.

– Viabilizadas por quem? – perguntou Shaw.

– Por mim.

– E o senhor nunca pensou em nos falar dessas vias? – Reggie quis saber.

– Não parecia relevante. Até agora, nunca deu errado. Trabalhamos com o modelo que produz resultados. E descobrir a história de alguém é apenas uma parte da equação. Ainda precisamos chegar até essa pessoa. Para isso, precisamos de informações.

– Bem, depois do que aconteceu em Gordes, parece que o modelo deu errado, Miles – comentou Liza.

– Não existem provas concretas disso – rebateu ele.

– Alguém sabia que nós estaríamos nas catacumbas com Kuchin.

– Se você bem se lembra, Regina, essa foi uma sugestão que você fez para mim por causa da fé de Kuchin. Mas a escolha das catacumbas foi feita já em Gordes. Nossa fonte anônima não teria como saber.

– Mas poderia ter nos seguido até lá se soubessem que estávamos atrás de Kuchin e quisessem nos deter.

– Não entendo por que uma pessoa nos ajudaria a chegar até Kuchin para, no último minuto, tentar nos deter.

– Talvez não tenha sido nada disso – interveio Shaw.

Todos se voltaram para ele, surpresos.

– Explique-se – disse Mallory.

– Alan Rice poderia ser sua fonte. Ele quer que Kuchin morra, mas por um motivo pessoal: assumir o império criminoso do ucraniano. Talvez tenha tentado matar o chefe no momento em que apareci, mudando seu plano anterior. Mas, agora, não estou tão seguro disso.

– Se essa era sua intenção, por que ele não nos deixou matar Kuchin? – questionou Liza, curiosa. – Por que tentar nos impedir?

– Se alguém mata Kuchin e o joga em uma cripta, ninguém sabe o que aconteceu. Isso cria incerteza. Os empreendimentos não podem seguir adiante com uma nova liderança porque todos esperam que o chefe volte. Ou outras pessoas podem querer tomar o poder. Não fica claro. Estando lá e tentando salvar o chefe, Rice ganha muito crédito junto às tropas. E o rei está morto. Rice desponta como sucessor lógico.

– Isso não parece muito lógico – desdenhou Mallory.

– Eu estava naquelas catacumbas – continuou Shaw. – Vi Rice tentar acertar Kuchin. Ele tentou matar o chefe.

– É possível que seu informante seja Rice? – perguntou Reggie.

O professor deu de ombros.

– Acho que sim. Como eu disse, ele permaneceu anônimo.

– Se o que você está dizendo é verdade, Shaw – indagou Liza –, como isso nos ajuda na caça a Kuchin?

– Se Rice é o informante, podemos usar esse dado contra ele para chegar até seu chefe. Ele já deve estar um pouco nervoso, afinal Kuchin está vivo. – Shaw olhou para Reggie. – Vocês disseram o nome verdadeiro dele naquela noite. Rice deve ter escutado. Duvido que Kuchin esteja muito feliz com isso. Rice talvez pense que está com os dias contados.

– Mas como podemos chegar até Alan Rice?

– Kuchin tem uma série de negócios legítimos. Rice deve ajudá-lo na administração. A sede do império de Kuchin fica em Montreal. Ele tem uma cobertura no centro da cidade. Posso ir ao Canadá e começar a mexer alguns pauzinhos.

– Você? – perguntou Reggie.

– Sim, eu.

Reggie encarou o professor.

– O que o senhor acha?

– Que tal se Whit também for? – sugeriu Mallory, mas Shaw negou.

– Não trabalhamos muito bem juntos. E ele é esquentado; não seguiria minhas ordens.

– Eu vou – afirmou Reggie.

– Não é uma boa ideia – rebateu Shaw.

– Por quê?

– Porque não, acredite.

– Discordo – opinou Mallory. – Acho que ela deve ir.

– Não é o senhor que está no comando. Eu estou.

– É do nosso interesse organizar tudo isso – alegou Mallory. – E, sobretudo, tenha em mente que, se você pode nos destruir, o inverso também é verdadeiro.

– Como assim?

– Ao que parece, você também trabalha para uma organização secreta. Se a nossa existência vier à tona, garanto que o mesmo acontecerá a vocês.

Shaw refletiu a respeito, escondendo seus verdadeiros sentimentos atrás de uma máscara imperscrutável.

– Vou pensar no assunto.

– Não demore muito. Como você mesmo disse, Kuchin está vindo atrás de nós.

 

Shaw e Reggie voltaram de carro para Londres. Ela o deixou no Savoy.

– Quer que eu suba? – perguntou. – Só para conversar – acrescentou depressa.

– Hoje, não. Tenho muito em que pensar. Talvez outra noite.

Claramente desapontada, ela foi embora.

Shaw tomou o elevador até o quarto. Abriu a porta. Acendeu a luz.

– Como vai, Shaw?

Frank estava sentado à escrivaninha. Dava para ver que, por baixo da camisa, bandagens envolviam sua cintura.

Shaw não ficou surpreso em ver o chefe. Tirou a jaqueta e a pôs sobre a cama.

– Acho que estamos ferrados, Frank.

– As coisas não estão saindo de acordo com o nosso plano?

Shaw se jogou no colchão.

– Não mesmo.