Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 51 de 108

Páginas do PDF

Livrai-nos do mal

Capítulo 49

 

– HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ trabalha com Evan? – perguntou Reggie.

Estava no terraço da mansão de Waller, na companhia de Alan Rice, contemplando o pôr do sol. Ele tomava uma taça de vinho, trajando calças cáqui e uma camisa larga com um lenço vermelho em volta do pescoço. Se queria parecer distinto, errara a mão, pensou Reggie, bebendo seu gim-tônica. Ela havia escolhido uma saia que chegava até os joelhos, uma blusa e sapatos de salto baixo. Os cabelos estavam úmidos e soltos sobre os ombros. O passeio a Roussillon fora relativamente sossegado e Waller se mostrara delicado e atencioso, tratando-a como uma princesa. Dava para entender como uma mulher desavisada podia ser enganada. No entanto, toda vez que olhava para aquele homem, só conseguia visualizar as vítimas indefesas de sua mente doentia. Só que era preciso sorrir e ser brincalhona e até sedutora.

– Quase quatro anos – respondeu Rice, pondo a taça sobre uma mesa e apoiando os braços na mureta de pedra que circundava o terraço e se erguia até a altura do seu peito. – Ele é um empresário brilhante.

– Ele parece ser muito talentoso em tudo. Muito experiente.

– Esta é a palavra exata: experiente.

– Como vocês dois se conheceram?

– Eu trabalhava em uma empresa em Nova York. Ele esteve lá a negócios e me encantou, como faz com todos. Uma coisa levou à outra. E vim trabalhar para ele.

– Presumo que seja desafiador.

– Sem dúvida. O Sr. Waller não suporta tolos. A pressão por um bom desempenho é grande. Mas você aprende muito.

– Bem, então você provavelmente precisava de umas férias. Vejo que você está mancando. Algum ferimento?

– Caí no chuveiro e machuquei o joelho um tempo atrás. Está sarando.

Pouco depois, Waller apareceu e Rice logo desapareceu, voltando para dentro da casa. Ele tomou um gole do coquetel e comentou:

– Acredito que Rice estivesse sendo uma boa companhia.

– Sim. Ele adora trabalhar para você.

– Tenho sorte por tê-lo comigo – falou Waller, sentando-se no sofá. Ele gesticulou para que Reggie fizesse o mesmo.

Ela obedeceu, ficando tão próxima dele que seus joelhos quase se tocavam.

– Qual é seu ramo de negócios?

– O ramo que dá dinheiro.

– Acho que você é movido pelo lucro – disse ela com frieza.

– Quando você cresce sem dinheiro, o lucro pode ser uma força motivadora.

– Mas você veio para a Provence na infância. Sua situação não devia ser tão desesperadora assim. Viajar do Canadá até aqui não devia ser barato, nem mesmo naquela época.

Waller lhe lançou um olhar impenetrável, mas, por um momento terrível, Reggie achou que tivesse ido longe demais.

– Obviamente, isso não é da minha conta – acrescentou ela às pressas.

– Não, não tem problema. Como eu disse, minha mãe era francesa, assim não precisávamos pagar hospedagem. Tínhamos o chalé da família. E, naquela época, vínhamos de barco, terceira classe. E, depois, uma viagem de trem, também em terceira classe. Era muito barato, mas não muito confortável.

– Entendo.

– Uma vez na Provence, a forma como chegamos aqui se torna irrelevante.

Waller se levantou e contemplou a vista deslumbrante do vale do Luberon.

– É glorioso.

Reggie se juntou a ele.

– É, sim. Minha mãe teria dito que Deus estava em boa forma quando criou a Provence.

– Uma mulher religiosa, suponho.

– Católica, como eu.

– No leito de morte, minha mãe me disse: “Nunca renuncie à sua fé em Deus. Ela o amparará nos bons momentos, mas em especial nos maus.” Uma sábia mulher.

– E a fé o amparou nos bons e maus momentos?

– Não há vida sem dores. Agora, sou rico, mas nem sempre foi assim. Eu já... – Ele se interrompeu e sorriu. – Acho que o jantar está pronto. Você se sentará ao meu lado. Alan nos acompanhará. Pergunte a ele sobre sua teoria a respeito dos vinhos franceses e californianos. É muito interessante, mesmo que totalmente equivocada. Porém, ainda assim, vale a pena ouvir.

Os dois foram para a sala de jantar.

Após a refeição, tomaram mais alguns drinques e a sobremesa foi servida no pátio inferior, ao lado da piscina. Rice permaneceu por poucos minutos, retirando-se de repente. Reggie não sabia se aquilo fora combinado. Waller fitava a água.

– Você tem uma piscina na sua mansão, certo?

Reggie assentiu.

– Eu nado. Aliás, eu deveria nadar alguns quilômetros para queimar as calorias da comida.

Ele fez um gesto de desdém com a mão.

– Ridículo. Você está em excelente forma.

– Você também não tem muita gordura.

– Faço o que posso – disse ele com modéstia. – Os americanos comem muita porcaria, mas você não caiu nessa armadilha.

– O fato de ser rica me proporciona certas vantagens de que muitos americanos não dispõem. Posso me dar ao luxo de comer corretamente e, quando tenho tempo, me exercitar.

– Aqui, um camponês pode ir à feira e comprar ingredientes frescos por poucos euros. E eles vão andando, ou seja, se exercitam. – Ele fez uma pausa e acrescentou: – Mas não julgo ninguém.

Ao ouvir essa declaração, Reggie sentiu o rosto corar. Felizmente, Waller não a estava olhando. Você só julgou centenas de milhares de pessoas e as mandou para a morte.

Ela se levantou.

– Obrigada por este dia maravilhoso.

– Você não vai embora.

Reggie estremeceu, sem saber se aquilo fora uma pergunta ou uma ordem.

– O dia foi longo.

– Mas ainda é cedo.

– Talvez para você.

– Eu gostaria muito que você ficasse.

– Tenho certeza de que vou encontrá-lo em breve. E nem sempre as pessoas conseguem o que querem.

Ele ficou de pé.

– Não vai reconsiderar? Eu gostaria de conhecê-la melhor.

– Preciso nadar.

– Você pode nadar aqui.

– Boa noite, Evan. Eu sei onde fica a saída.

– Poucas pessoas se arriscariam a discordar de mim.

– Não estou discordando de você.

– Mas...

Ela ficou na ponta dos pés e deu um beijo rápido em seu rosto.

– Na verdade, tudo se resume ao momento oportuno.

Depois de fechar a porta da mansão, Reggie cuspiu no chão e esfregou a boca.