Livrai-nos do mal
Capítulo 48
– PRECISO MIJAR! – GRITOU Shaw na escuridão. – Agora!
Um minuto se passou e ele achou que ninguém fosse responder. Mas a porta se abriu e o mesmo homem de antes apareceu.
– Falei sobre a privada ali no canto.
– Acho que não a consigo acertar daqui.
O carcereiro deu um passo à frente.
– Então, acho que vou ter que desamarrar você.
– Acho que sim.
– Linha de tiro – relembrou o homem.
– Certo, entendi.
Shaw manteve o olhar fixo nele, com os músculos retesados, a mente avaliando cada ângulo e ponto de ataque possível aos dois alvos. Colocaria o carcereiro entre si e o atirador e daria um jeito de sair dali. Era o plano mais sólido que conseguia conceber naquelas circunstâncias.
Porém, ele não teve chance de executá-lo.
O homem espetou a seringa em seu braço, por cima da camisa.
Quando acordou, Shaw estava no chão com os braços embaixo do corpo. Levantou-se devagar, flexionando os membros, tentando fazer com que o sangue circulasse. Usou o vaso sanitário e olhou ao redor. No cômodo, só havia mais a cadeira e um colchão em um canto. Mediu o espaço com passos: 2,5 x 2,5. Cerca de 6 metros quadrados e um teto não muito mais alto do que Shaw. As paredes eram de pedra, sólidas, sem fendas na argamassa; o chão, uma laje única. Ele levantou a mão e constatou que o teto era de gesso.
Um rangido às suas costas fez com que Shaw se virasse e visse uma bandeja de comida sendo introduzida por uma portinhola que ele não havia notado antes. Levou-a até o colchão, sentou-se e comeu, bebendo toda a água com dois longos goles. Não havia talheres nem pontas afiadas. O prato era de isopor, a garrafa, de plástico.
Alguns minutos mais tarde, ele ouviu uma voz atrás da porta:
– Empurre para cá.
Ficou de pé e passou a bandeja pela portinhola. A fresta mal chegava a 8 centímetros e foi preciso deitar a garrafa d’água. Em seguida, voltou a andar pelo cubículo, examinando cada centímetro. Seu olhar se deteve no vaso sanitário. Levantou a tampa da caixa de descarga e pôs a mão dentro. Em um minuto, soltou um longo pedaço de metal. Caminhou até a porta e examinou a fechadura.
Modelo de segurança. Era uma complicação, mas não um impedimento.
Jogando-se na cadeira, Shaw começou a moldar com o metal o instrumento necessário para o serviço. Bem, na verdade dois instrumentos, já que se tratava de uma fechadura de segurança. Não fazia ideia da hora, se era dia ou noite. Seu relógio fora confiscado e ele começara a contar os segundos em sua cabeça. Trabalharia com a noção de que a refeição servida era almoço ou jantar e contaria o tempo a partir dela. Não era um método perfeito, mas melhor do que nada.
Partiu o metal ao meio, modelou os pedaços pressionando-os contra as paredes e foi em silêncio até a porta. Ficou na escuta por um instante, o ouvido direito encostado nos 5 centímetros de espessura da madeira – medida que calculou com base na portinhola. As dobradiças dela ficavam na parte externa e não lhe serviam de nada. O embate era apenas entre ele e a fechadura.
Shaw ficou de quatro e abriu uma pequena fresta. Procurou ouvir sons de respiração, de movimento, de um coração batendo rápido demais.
Escutou um pé se arrastando pelo chão. Shaw recuou para a cadeira, continuando a contar os segundos. Precisava sair dali, depressa. Mas, obviamente, isso não ia acontecer.
Desacelere, vá com calma. A pressa provoca falhas.
O único problema com essa filosofia era que Janie talvez não tivesse muito tempo. Mesmo que não fosse o mandante do seu sequestro, Waller estava livre para fazer o que quisesse com ela. E Shaw sentia o estômago embrulhar só de pensar nas intenções daquele sujeito.
Paciência, Shaw. Paciência.
Ele passou os dedos nos pedaços de metal e manteve a contagem dos segundos.