Livrai-nos do mal
Capítulo 81
– FALE-ME DO AMIGO DE Kuchin – pediu Shaw.
– Que amigo? – perguntou Reggie.
– O magrelo de cabelo branco que atirou no braço de Dominic.
Era tarde da noite e eles conversavam em um cômodo pequeno no segundo andar em Harrowsfield, uma espécie de escritório que Reggie dividia com Whit. Era apertado e entulhado. Reggie estava sentada na única cadeira disponível e Shaw empoleirava-se desconfortavelmente sobre uma pequena caixa de papelão. Lá fora, chuviscava.
– Alan Rice. É sócio de Kuchin.
– O que mais?
– Só falei com ele umas poucas vezes. Mas teve uma coisa esquisita.
Shaw se endireitou.
– Diga palavra por palavra.
– Bem, não consigo me lembrar das frases exatas, mas foi um alerta. Sobre Kuchin. Obviamente, ele usou o nome Evan Waller.
– Mas como foi esse alerta?
– Ele disse que o chefe podia se alterar um pouco na presença de mulheres, que isso já havia acontecido antes. Kuchin se tornava obcecado. Ou seja, Rice queria que eu desse o fora, para o meu próprio bem.
– Então, ele estava preocupado com a sua segurança?
– Aparentemente, sim, embora ele tenha dito que era para proteger o chefe.
– Interessante.
– Por quê?
– Porque acho que Rice tentou matar o chefe nas catacumbas em Gordes.
Reggie o encarou, chocada.
– O quê? Por que você acha isso?
– Em uma situação crítica, você dispara contra ameaças primárias, Reggie, e não contra alvos secundários.
– Não entendi.
– Rice apontou para Whit, que não estava perto de Kuchin. Por outro lado, Dominic se encontrava uns 30 centímetros à direita de Kuchin. Quando acertei o primeiro cara, Rice se virou e me viu. Um segundo depois, acertei o segundo cara, o menor. Ele poderia ter me matado ali mesmo, pois estava a apenas 1,5 metro de distância, com uma linha de tiro desimpedida. Em vez disso, ele girou e atirou no chefe.
– Mas ele acertou Dominic.
– Provavelmente porque não é um bom atirador. É muito mais difícil do que parece acertar alguém a 3 metros. Mas aquela bala não pegou no cérebro de Kuchin por um triz. Ele não me eliminou quando pôde e tentou matar o próprio chefe.
– Mas isso não faz sentido. Por que ele tentaria matar Kuchin? Ele estava lá para salvá-lo.
– Ou para que os outros assim pensassem.
– Que importância teriam os outros se Kuchin acabasse morrendo?
– Pense bem. Os homens de Kuchin ainda estariam vivos. Talvez não aceitassem muito bem que o ator coadjuvante matasse o protagonista na frente deles. Tinha que parecer um acidente. E se Kuchin sobrevivesse aos disparos?
– Você acha que ele sabia da sua presença? E que você tentaria impedir que Kuchin nos matasse?
– Duvido muito. Ele pode ter entrado pensando que fosse de fato salvar o chefe. Talvez viu você saindo da igreja uma noite e ficou desconfiado. Ao me ver surgir, ele arquiteta um segundo plano em uma questão de segundos. Em meio à confusão, ele dispara, todo mundo se agita, há uma troca de tiros e Kuchin/Waller acaba morto. Em seguida, Rice herda os negócios.
– É possível.
– Vocês rastrearam Kuchin. Como?
– Este prédio está cheio de pessoas que fazem isso. Pesquisadores, linguistas, acadêmicos.
– Não, não estou falando de descobrir que Evan Waller era Fedir Kuchin. Como vocês souberam que ele estaria em Gordes naquele período?
– Nosso pessoal obteve esses detalhes e os passou a nós para organizarmos a missão. É assim que operamos. Não sei como eles obtêm essas informações. Uma fonte interna, talvez?
– Alan Rice poderia ser o informante de vocês?
– Já disse: não sei como conseguimos esses dados. Como vocês sabiam que ele estaria em Gordes? Vocês têm algum agente infiltrado?
– Não. Todas as nossas informações vieram de satélites que monitoram ligações telefônicas, dos recibos de cartões de crédito e de outros equipamentos de alta tecnologia.
Reggie sentiu inveja.
– Deve ser legal.
– Só é legal se funciona. Será que Mallory sabe quem é a fonte interna?
Reggie hesitou.
– Talvez, mas acho que ele não a revelaria a você. Ele gosta de manter as coisas em segredo.
– Talvez ele tenha que revelá-las se quiser continuar a fazer seu trabalho.
– Você iria fechar nossas portas, nos mandar para os tribunais?
– Só estou me referindo mais uma vez ao meu argumento inicial: se não o pegarmos primeiro, Kuchin vai pegar todos vocês.
– Então, por que não vamos perguntar ao professor?
Shaw consultou o relógio.
– É quase uma da madrugada. Você acha que ele está acordado?
– O professor dorme menos até do que eu. Provavelmente, vamos encontrá-lo na biblioteca.
– Ele sofre de insônia?
– Não, na verdade ele tem próstata aumentada.
Shaw apenas balançou a cabeça.