Livrai-nos do mal
Capítulo 100
KUCHIN HAVIA ESCOLHIDO O terreno, mas era um local que ninguém esperava, nem mesmo Pascal. Um lugar alto era quase sempre uma vantagem em um conflito. Quase sempre. Ele apontou o rifle, olhando através da mira, e tirou um pouco de sujeira do vidro. Puxou a luva para cima e consultou o relógio. Depois, se recostou e ficou à espera, contando os segundos para ficar alerta.
Quando ouviu os primeiros sons, não se mexeu. Apreendeu o ritmo dos passos e foi se movendo de acordo com eles, para que seus próprios ruídos pudessem ser encobertos. Levantou o cano e aproximou da mira o olho direito, dominante. A retícula fez seu trabalho. Alvo focado; não havia motivo para esperar. Kuchin atirou.
– Merda! – gritou Whit, segurando a própria perna e caindo no chão logo atrás de Shaw.
– Abaixem-se todos! – berrou Shaw.
Todos se jogaram no chão. Reggie se arrastou até Whit para avaliar a gravidade do ferimento. Ele já estava rasgando o agasalho para tentar conter o sangramento.
– A bala atravessou – grunhiu ele. – Acho que não atingiu o osso, mas dói demais.
– Vamos tirar você desta – prometeu Reggie.
Whit balançou a cabeça, o rosto empalidecendo.
– Foi a mesma coisa que aconteceu com Rice. O canalha tem um método, Reg. Perna primeiro, tronco depois. – Ele gemeu em agonia, seu corpo convulsionando de dor. Com os lábios trêmulos, acrescentou: – Para terminar, os malditos cães.
– Não vou deixar que isso aconteça.
Ele a agarrou com o braço livre e pôs a faca em sua mão.
– Se você ouvir os cães se aproximando, me mate antes que eles me alcancem. Prometa! – Ela o encarou, impotente. Whit a sacudiu. – Reggie, prometa! Não deixe que eles façam comigo o que fizeram com Rice.
Ela baixou a cabeça e observou a faca; seus olhos estavam marejados.
– Whit, não sou capaz. Não posso fazer isso.
Ele reuniu forças para suplicar mais uma vez.
– Se você não fizer isso, Kuchin vencerá. E não podemos deixar que esse monstro vença, Reg, não é mesmo? – Ele voltou a se deitar, ofegando.
Reggie apertou o cabo da faca e enxugou as lágrimas.
– Tudo bem, eu faço. Se for obrigada.
Do ponto onde estava, agachado, Shaw perscrutava a paisagem adiante. A neblina se adensava. As formas das coisas eram alteradas, enganando a vista. Pela direção de onde viera o tiro, Shaw deduziu que Kuchin se encontrava em algum lugar à frente, mas, ainda assim, era uma área muito extensa. Talvez eles só tivessem uma chance. Falou a Katie para ficar onde estava e se arrastou até Reggie e Whit. Depois de examinar o rapaz ferido, entregou a arma a Reggie. Ela o encarou, intrigada.
– Esta é nossa última chance, Reggie – explicou Shaw. – O único jeito de sairmos desta é localizá-lo.
– Como?
– Pela centelha do cano da arma. Não a vimos ainda, mas está escuro o bastante para que consigamos enxergar um clarão.
– Como você pretende fazer isso?
– Fazendo com que ele atire.
– Eu sei, mas como?
– Vou correr em linha reta bem na sua frente, da direita para a esquerda. Fique olhando para lá. O clarão virá daquela direção. Ele está próximo. Pude perceber pelo som do tiro. O disparo não veio de longe.
– Shaw, você...
Ele olhou para Whit, que continuava a gemer no chão.
– Quando a centelha aparecer...
– Shaw, não posso...
Ele deu-lhe um tapa tão forte no rosto que sua bochecha ficou vermelha.
– Não diga que não consegue fazer. Você vai fazer isto.
Reggie ficou atônita, mas não tão abalada. Seu olhar se endureceu. Shaw percebeu e abrandou um pouco a voz.
– Você consegue, Reggie. Já vi você fazer a mesma coisa no estande de tiro. Quinze centímetros abaixo da centelha do cano. Três tiros bem próximos. Ele não está usando proteção porque não sabe que temos uma arma. Assim que tudo estiver terminado, você e Katie ajudam Whit a voltar até a costa. – Shaw lhe entregou o celular. – Fique ligando para ver onde Frank está, assim ele poderá se conectar ao GPS do telefone.
Reggie passou a língua nos lábios.
– Shaw...
– Faça o que estou dizendo, Reggie. Ponha um fim nesta história. Por mim.
Ela enfim assentiu e Shaw logo lhe deu as costas e permaneceu abaixado.
– Shaw! – gritou Katie, se levantando e indo na sua direção. – Cuidado!
Shaw olhou para a esquerda. O filho da puta tinha dado um jeito de mudar de posição tão silenciosamente quanto um fantasma. Sua aparência também era fantasmagórica, coberta pela névoa. Kuchin já apontava o rifle. Com uma arma daquelas, era como atirar à queima-roupa. Não havia como errar.
Shaw abriu os braços uma fração de segundos antes do tiro e sentiu a bala passar de raspão, queimando a pele. Ele não entendeu como Kuchin fora capaz de errar daquela distância, de forma tão grosseira. Então, como uma avalanche, a verdade desabou sobre Shaw.
– Katie!
Ele se virou a tempo de vê-la tombando de costas devido à força do projétil que acabara de atravessá-la. Mechas louras voaram quando a bala saiu por suas costas e se estilhaçou em uma pedra. Katie caiu no chão e ficou imóvel.
Kuchin estava a pouco mais de 10 metros de distância. Ele fitou a mulher desfalecida e, depois, Shaw, que não conseguia desviar o olhar de Katie.
– Eu falei que, se você seguisse minhas instruções ao pé da letra, ela seria libertada ilesa – falou Kuchin. – Mas você me desobedeceu. Voltou à casa e a resgatou. Quebrou nosso pacto. Ela morreu por sua causa, meu amigo.
Shaw encarou Kuchin. Pela expressão do ucraniano, ele percebeu que tudo aquilo fora planejado. Nenhum guarda na casa, Katie sozinha. Uma picape chegando no fim e uma saraivada de tiros para disfarçar. Não havia sido uma emboscada planejada. Ele queria que Shaw resgatasse Katie. Rompesse o acordo. E Shaw caiu direto na armadilha, como um idiota.
Com uma fúria que ele só sentira uma vez na vida, Shaw disparou para a frente e, em quatro segundos, percorrera quase toda a distância até Kuchin com a faca em posição de ataque. Mas Kuchin tinha demorado menos ainda para levantar o rifle e mirar cuidadosamente. O cérebro de Shaw estava focado na retícula da arma que nunca havia errado um alvo. Pouco antes que Kuchin disparasse, a névoa o encobriu completamente.
Um tiro foi disparado. Depois, outro. E, para terminar, mais um.
O rifle caiu no chão enquanto Shaw ainda saltava. O sangue começou a jorrar dos três orifícios no peito do ucraniano. Os tiros haviam sido tão próximos que as três balas lhe dilaceraram o coração.
Reggie baixou a pistola. O estande de tiro enfumaçado havia se mostrado útil. Ela memorizara a posição de Kuchin através da neblina. E, daquela vez, o alvo não se mexera.
O homem caiu de joelhos, com os olhos esbugalhados, sem conseguir acreditar no que acabara de acontecer, embora já estivesse clinicamente morto. Os cientistas às vezes se referem a esse fenômeno como a “alma técnica”, a última conexão sináptica de um cérebro morto que deixava algum rastro de razão apesar de a vida física já ter chegado ao fim.
Shaw se chocou com Kuchin e enfiou a faca em seu crânio com tanta força que acabou quebrando o cabo. O monstro caiu de costas com Shaw por cima desferindo socos cada vez mais rápidos, atingindo o cadáver até que não houvesse mais rosto, apenas uma massa disforme, fazendo seus dedos estalarem e cobrindo suas mãos de sangue.
– Shaw, ele está morto! Está morto.
Reggie tentou puxá-lo, mas ele a derrubou. Então, Shaw voltou à realidade e correu até Katie. Tentou verificar sua pulsação, mas não a encontrou. Montou nela e, repetidamente, massageou seu peito e fez respiração boca a boca. Os pulmões se recusavam a se expandir. Por fim, com um gemido, o corpo de Katie estremeceu e ela inspirou fundo.
Shaw olhou para Reggie, que estava ao seu lado.
– Me ajude. Por favor.
Enquanto Shaw acomodava a cabeça de Katie em seus braços, Reggie abriu a blusa da jornalista e inspecionou o ferimento.
– A bala a atravessou. Passou muito perto do coração.
Fez um curativo improvisado e estancou o sangramento da melhor maneira possível. Shaw ligou para Frank e contou o que havia acontecido. O chefe lhe disse que estava levando uma equipe médica.
Katie respirava lentamente. Reggie se agachou e observou Whit, que estava deitado segurando a própria perna e gemendo baixinho. Desviou o olhar para o corpo massacrado de Kuchin e se lembrou de uma coisa.
– Que Deus entenda por que fiz isto – murmurou Reggie, e fez o sinal da cruz.
Quando notou que o braço de Shaw estava sangrando, Reggie arregaçou a manga do agasalho dele e viu a marca da bala.
– Você desviou o tiro dele.
– O quê? – perguntou Shaw.
– O tiro bateu no seu braço antes de atingi-la. Você atrapalhou a trajetória. Ele devia estar mirando na cabeça de Katie. Kuchin achava que seria um tiro mortal.
Shaw não mostrou interesse algum por aquela observação.
– Ela foi baleada por minha causa.
– Você salvou a vida dela.
– Ainda não. – Shaw soluçou. – Ainda não.
Ele abraçou Katie com toda a força, como se pudesse impedir que a vida a abandonasse. Como se pudesse evitar perdê-la.