Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 71 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 69

 

 

FEDIR KUCHIN NÃO TINHA nada em mãos. Frustrado, andava de um lado para o outro em seu chalé de 280 metros quadrados perto de um oceano cuja temperatura nunca passava muito de 10 graus, mesmo em agosto. O humor de Kuchin estava diretamente ligado ao fracasso de Alan Rice, que comprara o acesso a dezenas de bancos de dados, porém a foto e as imagens digitalizadas dos desenhos ainda não haviam surtido resultado. Todos os outros rumos investigativos tentados também não deram em nada. Ele abria e fechava as mãos, tenso, tentando vislumbrar alguma saída.

Por fim, Kuchin vestiu uma parca e saiu. Levou consigo um rifle, uma mira telescópica e alguns cartuchos de munição. Era verão, mas, pelo clima, nem parecia. Não estava frio o suficiente para nevar, porém, o terreno o fez lembrar da sua Ucrânia natal. Talvez esse tivesse sido o motivo para ele construir uma casa ali, isolada de tudo. Havia dois guarda-costas em outro edifício, a 500 metros da casa, apesar da ausência de perigo. Sem contar o perigo de ser atacado ou pisoteado por um alce ou uma rena.

Vinham à mente de Kuchin lembranças de um garotinho seguindo o pai corpulento que saía para trabalhar pescando em um rebocador comercial no mar de Azov, uma área de 40 mil quilômetros quadrados cujo ponto mais profundo tinha menos de 15 metros. Era o mar mais raso do mundo. Por esse motivo, sua água se renovava rapidamente. No entanto, isso não a mantinha limpa. Quando Kuchin era criança, os poluentes de fábricas e da exploração de petróleo e gás eram ali despejados.

Na década de 1970, peixes mortos e mutantes se acumulavam aos milhares nas margens, vítimas das toxinas e venenos radioativos produzidos pelo homem. Nadar ali atualmente seria suicídio. Porém, todas as crianças do vilarejo de Kuchin passaram os verões naquelas águas, cuja temperatura subia para 30 graus em julho. No inverno, o mar ficava congelado por meses a fio e as crianças pegavam seus patins caseiros e apostavam corrida até serem chamadas de volta pelas mães para jantar. Kuchin até se recordava de quando ficava de bruços, lambendo o gelo, aos 7 anos.

Kuchin soubera que o mar de Azov corria o risco de se tornar um mar morto e que a pesca profissional seria proibida por vinte anos. Não era uma medida tão rígida quanto parecia. Durante quarenta anos, a renda da pesca fora reduzida a quase zero porque toda a vida marinha estava morta. Mas ele conseguia se lembrar com clareza do pai limpando com uma faca os peixes que pegara para o consumo da família, fatiando percas, esturjões e cavalas que seriam fritos pela mãe em uma grande frigideira de ferro com temperos e ingredientes secretos que as mulheres francesas pareciam conhecer naturalmente.

Ao sul do lugar onde Kuchin se encontrava, ficava o estreito de Belle Isle, em frente à região de Terra Nova. Ele havia caminhado até lá várias vezes e observado os cargueiros que atravessavam o exíguo canal. Antes de atingir a idade adulta, a vida de Kuchin esteve inextricavelmente ligada à água, ainda que poluída. Era um milagre não ter morrido de algum terrível câncer causado pelo Azov. Naquele momento, talvez houvesse tumores se desenvolvendo em seu corpo, envolvendo de maneira silenciosa, mas letal, os órgãos, destruindo vasos sanguíneos, invadindo o cérebro.

Apesar dos perigos da infância, o fato de ter crescido naquele lugar lhe proporcionara uma sede de sucesso inesgotável. Kuchin realizara tudo o que desejava, portanto a situação atual era inaceitável.

Caminhou até Belle Isle e contemplou o mar, a rota mais rápida até a Europa para os navios que vinham do canal de São Lourenço ou dos portos dos Grandes Lagos. Entretanto, o gelo que perdurava ali durante dez meses, a neblina e os vendavais tornavam aquele ponto um dos mais traiçoeiros para a navegação. De qualquer forma, o estreito também podia apresentar visões maravilhosas, como cachalotes dando saltos espetaculares e icebergs que se soltavam das geleiras da Groenlândia, sendo arrastados para o sul pela corrente de Labrador antes de começarem a se desfazer nas águas mais quentes ao largo da costa. E, é claro, o nome da região significa “Bela Ilha”. Ela ficava situada na ponta oriental do canal, mais ou menos na metade do caminho entre os territórios de Labrador e Terra Nova, que, juntos, formam a província canadense.

Beleza no meio do nada, pensou Kuchin. Ele acreditou, mesmo que por um breve momento, ter descoberto beleza na Provence. Uma mulher que o intrigara, o enfeitiçara e que talvez Kuchin fosse gostar de entreter durante mais do que uma única noite sem deixar um rastro sangrento. No entanto, a beleza quase o havia matado. Embora a mulher não lhe devesse lealdade alguma, ele se sentia traído e, assim, sua raiva se intensificava.

Kuchin caminhou até o topo de um pequeno outeiro com o estreito às suas costas e a terra à sua frente, plana até onde a vista conseguia alcançar. Terra Nova era conhecida como “A Rocha”. Sua região leste fizera parte do norte da África. A última glaciação havia desbastado quase toda a terra da costa meridional, deixando-a com mais pedra do que qualquer outra coisa, por isso o apelido. Labrador, a parte mais a leste do Escudo Canadense, tem aproximadamente o triplo do tamanho de Terra Nova, mas apenas cinco por cento de sua população. O clima é classificado como tundra polar. De fato, ursos-polares rondam as áreas costeiras e a proporção é de vinte renas para cada ser humano. Ali, Kuchin podia escalar grandes montanhas, pescar em baías isoladas, esquiar em tundras áridas e apreciar fiordes. Muitas vezes os desfiladeiros eram íngremes e a correnteza, enganadoramente rápida.

Kuchin ergueu o rifle, olhando através da mira fabricada pela Zeiss, a mesma empresa que fornecera equipamentos para o Terceiro Reich. O aparelho tinha tudo o que um atirador experiente podia esperar de um dispositivo de alta qualidade daquele tipo, inclusive anéis de vedação e selagem a nitrogênio antineblina, tudo em um objeto leve com um campo de visão aprimorado.

Para caçar animais grandes, o consenso geral era de que pelo menos 1.400 joules eram necessários à bala. Para os animais ainda maiores, como alces, o número aumentava para cerca de 2.400. Kuchin estava usando projéteis alongados com culote tronco-cônico capazes de derrubar qualquer ser humano e praticamente qualquer quadrúpede.

Kuchin havia mandado construir aquele rifle de acordo com as suas especificações. A arma era leve para facilitar o transporte e o manuseio. Lutando contra o próprio ego, optara por menos poder de fogo, logo coice mais fraco e maior precisão. O ucraniano não poupara gastos no cano, afinal aquele era um elemento fundamental para a única coisa que importava: atingir ou não o alvo.

O pequeno coiote caminhava a quase 200 metros de distância, deslocando-se rapidamente pelo terreno plano. Ainda era cedo para o animal estar procurando alimento, pensou Kuchin, mas, naquele lugar, nunca dava para ter certeza. “Mate quando puder” era um bom lema para um local tão desolado como aquele. Devia ser uma fêmea, notou, examinando através da lente o pequeno peito e a constituição física do bicho.

Kuchin ficou deitado de bruços no chão, sustentando o peso da arma com os cotovelos. Estabilizou-se, empunhando-a pelo cabo e pela parte inferior do cano, mas diminuindo a tensão dos músculos. Aquela era a receita mágica do franco-atirador de sucesso e do caçador de longo alcance: firme, mas relaxado, com pulsação e respiração tranquilas, sem tremor e sem pressa. A coronha se mantinha estável contra o bíceps; o indicador, encostado sobre o guarda-mato e o gatilho. Com um puxão, a bala dispararia pelo cano alongado, sulcos e ranhuras marcados em sua cápsula metálica pela força da rápida expulsão. O projétil de um quarto de grama cobriria a distância entre o homem e o animal a uma velocidade aproximadamente seis vezes maior que a de um jato comercial.

Kuchin mirou o coiote, mas não puxou o gatilho. Apenas baixou a arma. Sem saber que estivera tão perto da aniquilação, o animal continuou andando devagar até estar quase fora do campo de visão. O magnata percorreu a passos lentos os quilômetros solitários de volta até seu chalé. Ele nunca gostara de matar animais. Também não se interessava muito por pesca, apesar de ter sido o ofício do seu pai.

Apenas os seres humanos motivavam Fedir Kuchin a puxar o gatilho, a acender o fósforo em poços cheios de gás, a chutar o banco que dava apoio à vítima pendurada por uma corda ou a enfiar a faca no peito de alguém. Ele era assim, ponto final.

Kuchin voltou para o chalé, pendurou a parca em um gancho ao lado da porta, trancou o rifle no armário de armas e voltou à sua escrivaninha. Havia uma luz piscando em seu telefone. A mensagem na gravação dissipou todos os pensamentos ruins que ele tivera durante a maior parte do dia.

Era Alan Rice.

– Nós o encontramos.