Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 14 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 12

 

 

EVAN WALLER RECLINOU-SE NA cadeira e leu a planilha pela quinta vez. Ele adorava números: sua mente ágil entendia suas complexidades, transformando dados em conclusões precisas. Ele tomou sua decisão, levantou-se, serviu-se uma dose pequena de Macallan’s e a bebeu. Pôs o copo sobre a mesa, pegou uma pistola e encarou o homem amarrado à cadeira.

– Anwar, o que devo fazer com você? Diga.

Sua voz era profunda, culta, com traços do Leste Europeu. O tom era o de um pai decepcionado com o filho malcriado.

Anwar era um homem baixo com um corpo volumoso e flácido esparramado na cadeira, braços e pernas bem amarrados. O rosto redondo normalmente apresentava uma coloração marrom-clara, mas agora hematomas amarelos e arroxeados se agrupavam em suas bochechas, testa e maxilar. Um corte à faca ia da bochecha esquerda até sua narina partida. O sangue ali havia coagulado e enegrecido. Os cabelos escuros estavam emplastrados na cabeça apenas com o suor causado pelo medo.

– Por favor, Sr. Waller, por favor. Isso nunca mais vai acontecer, senhor. Eu juro.

– Mas como posso confiar em você agora? Diga. Gosto dos seus serviços, mas preciso saber como retomar a confiança.

– Foi ela. Ela me incentivou.

– Ela? Conte.

Anwar deixou que uma gota de sangue escorresse da boca e caísse sobre as calças antes de responder:

– Minha mulher. A vadia gasta dinheiro como se fosse água. O senhor me paga bem, mas nunca é suficiente para ela. Nunca!

Waller se sentou em uma cadeira em frente ao prisioneiro. Depositou a arma sobre a mesa e fez uma expressão de curiosidade.

– Então, foi Gisele que o incentivou a me roubar para cobrir os gastos dela? – perguntou Waller e bateu as mãos. O som foi como o de um tiro e Anwar se encolheu. – Desde o início, eu tinha minhas dúvidas a respeito dela, Anwar. Eu falei para você, não falei?

– Eu sei, senhor. Eu sei. E, como sempre, o senhor tinha razão. Se não fosse por ela, eu nunca teria feito essa coisa horrível. Aquilo me deixou enojado. Porque o senhor tem sido muito bom para mim. Como um pai. Melhor do que um pai.

– Mas você é um homem. E muçulmano. Deveria ser capaz de controlar sua mulher. Faz parte da sua cultura. Da sua fé.

– Mas ela é um demônio! Uma vadia cruel. Ninguém pode controlá-la. Eu tentei, mas ela bate em mim! O senhor mesmo já viu as marcas.

Waller anuiu.

– Bem, de fato, ela é muito maior do que você. Mesmo assim, você é um homem, e eu desprezo homens fracos.

– E ela me trai com outros homens. E mulheres!

– Que nojento – disse Waller com tom de indiferença. – Você sabe onde ela está?

Anwar balançou a cabeça.

– Não a vejo há uma semana.

Waller se recostou e abriu as mãos.

– Se a encontrarmos, o que você sugere?

Anwar cuspiu no chão de concreto.

– Que o senhor a mate.

– Então, você troca a vida dela pela sua, é isso?

– Eu juro, Sr. Waller, eu nunca teria pensado em trair o senhor. Foi aquela vadia. Ela me obrigou. Ela me enlouqueceu. O senhor precisa acreditar em mim. Precisa!

– Eu acredito, Anwar, eu acredito.

Waller se levantou, deu alguns passos, fechou o punho e o enfiou na cara já inchada de Anwar. O homem caiu para o lado e seu peso morto se manteve sobre a cadeira graças apenas às amarras. Waller o suspendeu pelo cabelo ensebado.

– Agora você foi bem punido. Você é valioso para mim. Muito valioso. Não posso me dar ao luxo de perdê-lo. Mas essa será a última vez que irei perdoá-lo, entendeu?

Anwar, com o sangue gotejando da boca, murmurou:

– Entendi. Juro que entendi. Obrigado. Não mereço tanta piedade. – Em seguida, começou a soluçar.

– Chorar não é coisa de homem, Anwar. Pare imediatamente.

Anwar sufocou o último soluço e levantou a cabeça. Seu olho direito estava inchado; o esquerdo, quase fechado.

Waller sorriu.

– Preciso fazer uma revelação. Você vai achá-la interessante, tenho certeza. Localizamos sua mulher. Gisele está em nosso poder.

– Vocês estão com ela? – perguntou Anwar, estupefato.

– E concordo com você, ela é um demônio. Uma mulher concebida por Deus para enlouquecer os homens. Você quer vê-la e dizer o que acha dela antes de nós a matarmos?

– Seria um grande prazer para mim – murmurou Anwar sem entusiasmo.

– Ou talvez você quisesse ter essa honra? Uma bala no cérebro da megera? Talvez faça muito bem a você. Uma catarse. Algo que fortalece o caráter.

Anwar vacilou.

– Sou um contador. Não tenho coragem.

– Tudo bem, tudo bem. Só pensei em fazer a oferta. – Waller virou-se para um de seus seguranças. – Pascal, traga a mulher para que ela encare o marido enganado.

Pascal, um homem na casa dos 30 anos, pequeno e em forma, saiu por outra porta. Pouco depois, a porta se entreabriu e Anwar pôde ver a cabeça de sua mulher surgir na abertura. Sua pele normalmente escura agora estava muito pálida, seus olhos arregalados de terror.

– Sua vadia desgraçada! Demônio! Veja o que você aprontou. Você... você...

Anwar hesitou à medida que a porta foi se abrindo mais e Pascal entrou segurando pelos cabelos escuros a cabeça cortada. O guarda-costas não sorriu ao ver o horror no rosto do homem. Apenas agarrou a parte traseira da cabeça e a levantou, de acordo com as instruções recebidas antes do patrão.

– Meu Deus. Meu Deus. Não, não pode ser! – Anwar olhou para Waller e, em seguida, voltou a fitar a cabeça da esposa. – Não pode ser.

– É isso mesmo, Anwar. É isso mesmo. Mas, agora, você pode voltar a trabalhar feliz.

Anwar soluçou por mais alguns instantes antes de levantar a cabeça e soltar um suspiro angustiado, mas de alívio.

– Obrigado, Sr. Waller. Alá agradece ao senhor.

– Não preciso das bênçãos do seu Alá, Anwar.

Waller levantou a pistola e a apontou para a cabeça do homem, fixando o olhar primeiro na mira da arma e, depois, no alvo.

Anwar se retraiu.

– Mas o senhor disse...

– Eu menti.

A bala atingiu o cérebro de Anwar como um torpedo. Waller relaxou e, em seguida, disparou outro tiro, que penetrou na pele um pouco à esquerda do primeiro ferimento. Pôs a arma sobre a mesa e se serviu com calma mais uma dose de uísque. Bebendo lentamente enquanto atravessava a sala, ele se virou e encarou dois de seus empregados.

– Lembrem-se desta vez que o corpo de um homem de 100 quilos precisa do dobro do próprio peso para permanecer debaixo d’água – avisou.

– Sim, Sr. Waller – disse um dos homens com nervosismo.

– E derretam a maldita arma.

– Agora mesmo, senhor.

– E, Pascal, livre-se disso – acrescentou o chefe, apontando para a cabeça da mulher. – Até mais.

Waller saiu da sala e se acomodou em um Hummer preto blindado que partiu depressa no momento em que ele afivelou o cinto de segurança. Um Escalade o seguia e outro Hummer ia à frente.

Ele havia descoberto que o contador “de confiança” estava desviando parte do seu substancial fluxo de caixa. Era um desfalque de pouca importância, menos de 0,1 por cento, e não causara danos financeiros a Waller, mas, de qualquer forma, era algo imperdoável. Fazer vista grossa seria um sinal de fraqueza. No ramo de Waller, os concorrentes e empregados sempre procuravam sinais de fragilidade. Se encontrassem, seu risco de vida se agigantava. Ele entendia muito bem aquela lição porque fora dessa maneira que começara a fazer negócios anos antes. Seu mentor deixara passar um pequeno deslize. Três meses mais tarde, estava sendo devorado por lobos na costa noroeste do Pacífico e Waller assumira o comando. Nas duas décadas seguintes, sempre houve consequências quando alguém o traiu. Ele não queria ser devorado por lobos. Preferia ser o predador.

Waller olhou para a pessoa sentada ao seu lado. Alan Rice tinha 39 anos, formara-se em uma prestigiosa universidade na Inglaterra e deixara os corredores da academia para ajudar Waller a administrar seu império. Alguns homens eram atraídos pelo lado negro só porque era ali que eles podiam prosperar.

Rice era esbelto e tinha cabelos brancos precoces. Embora suas feições fossem delicadas, sua mente era vigorosa, brilhante. Homens como Rice não costumavam se contentar em ser o segundo na linha de comando. Mas ele também havia ajudado a triplicar os negócios em pouco tempo e recebera mais responsabilidades proporcionais ao seu talento. Waller era a única figura indispensável na empresa, mas Rice já vinha se tornando imprescindível também para a administração.

Waller flexionou a mão enluvada.

– O coice da pistola machucou? – perguntou Rice, notando o movimento.

– Não. Eu só estava pensando na última vez que havia matado alguém.

– Albert Clements – disse Rice de pronto. – Seu representante australiano.

– Exatamente. É algo que me intriga. Pago muito bem a eles, mas, ainda assim, nunca parece suficiente.

– Quando se tem milhares, se quer centenas de milhares. Quando se tem milhões, se quer dezenas de milhões.

– E eles devem achar que sou um idiota que vai deixá-los impunes.

– Não. Apenas acham que são mais espertos.

– Você se acha mais esperto do que eu, Alan?

Rice se virou para trás e olhou para o prédio que eles haviam acabado de deixar.

– Sou mais inteligente do que o homem que você acabou de matar, porque não tenho desejo algum de morrer nas suas mãos. E isso aconteceria se eu tentasse enganá-lo.

Waller assentiu, mas ele não ficara muito convencido.

Rice pigarreou e prosseguiu:

– Soube que a Provence é linda nesta época do ano.

– Raramente a Provence não é linda.

– Passou muito tempo lá?

– Minha mãe era francesa, de uma cidadezinha chamada Roussillon, onde estão alguns dos maiores depósitos de ocre do mundo. Muitos pintores famosos, como Van Gogh, foram até lá para obter os pigmentos terrosos para suas paletas. E, ao contrário de muitos outros vilarejos da Provence, as construções ali não são de pedra branca nem cinza, mas em tons fortes de vermelho, laranja, marrom e amarelo. Se eu fosse pintor, me mudaria para Roussillon para captar aquelas imagens usando apenas suas cores. Eu e minha mãe passamos momentos felizes lá.

– Já esteve lá depois de adulto?

– Em Roussillon, não.

– Por que não?

– Meu pai morreu lá quando eu tinha 12 anos.

– O que aconteceu?

– Ele caiu de uma escada e quebrou o pescoço.

– Um acidente?

– É o que acham.

Rice pareceu surpreso.

– Não foi um acidente?

– Tudo é possível.

– Então, sua mãe...

Waller pôs sua mão grande no ombro estreito de Rice e o apertou de leve.

– Eu não disse que foi minha mãe, disse? Ela era meiga e boa. Algo do gênero teria sido impensável para sua alma pura.

– Certamente. Entendo.

As órbitas dos olhos de Waller pareceram ficar mais profundas.

– Entendeu mesmo, Alan? – Ele retirou a mão e puxou um bilhete do bolso. – Vi que uma jovem americana está alugando a mansão ao lado da minha.

– Acabamos de descobrir. No entanto, duvido que ela represente uma ameaça.

– Não, não, Alan. Ainda não sabemos o que ela representa. A proximidade em si já é suficiente para levantar suspeitas, não é mesmo?

– Você tem razão. Vou descobrir tudo o que puder – garantiu Rice. – Você vai visitar Roussillon? Fica longe?

– Nada na Provence é longe.

– Então você vai?

– Talvez.

– Só não se torne vítima de um acidente.

– Por favor, não se preocupe comigo. Meu pai era desleixado e fraco. O filho dele não é.