Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 47 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 45

 

REGGIE SE LEVANTOU CEDO; o dia ainda começava a alvorecer. Abriu a janela do quarto e olhou para fora. Por hábito, observou a mansão ao lado, mas não viu atividade alguma. Mesmo assim, tinha certeza de que os seguranças de Evan estariam de guarda do lado de fora. Roussillon de dia e jantar na casa dele à noite... Ela detestava tudo aquilo, mas podia ser um auxílio incomensurável para a missão. Não via a hora de pôr fim à vida de Kuchin.

Após tomar banho, vestiu-se e saiu da mansão pela porta lateral. Havia algo que ela queria fazer. Não, era algo que precisava fazer. Subiu a colina até Gordes. Algumas poucas pessoas já circulavam, inclusive o homem que limpava as ruas com uma mangueira. Ele acenou com a cabeça ao vê-la passar. Reggie atravessou a praça da cidade e fez a curva da estrada; o hotel se localizava à esquerda. Cruzou as portas de vidro e cumprimentou um funcionário de aspecto sonolento na recepção.

– Pode ligar para o quarto de Bill Young, por favor? – indagou em francês. – Diga que é Janie Collins.

O homem, idoso e magro, com cabelos brancos cheios e bochechas flácidas, parecia um pouco mal-humorado e até desconfiado.

– É muito cedo, minha jovem. Duvido que ele já tenha acordado.

– Ele está me esperando – mentiu.

– A esta hora?

– Vamos tomar o café da manhã juntos.

O recepcionista não parecia convencido, mas ligou para o quarto.

– Ninguém atende – informou ele, desligando.

– Talvez ele esteja no banho.

– Talvez – replicou o homem, cético.

– Poderia ligar de novo daqui a alguns minutos?

– Suponho que sim, se for necessário.

– É necessário – afirmou Reggie com educação, mas de maneira firme.

O funcionário voltou a tentar cinco minutos mais tarde.

– Ainda nenhuma resposta – disse ele em um tom que indicava que a conversa havia chegado ao fim.

– O senhor o viu sair?

– Não.

Reggie teve um estalo.

– Ele ainda não fechou a conta do quarto, certo?

– Por que ele faria isso se ia tomar o café da manhã com a senhorita?

– Os planos às vezes mudam.

– Ele não fechou a conta. Pelo menos, não durante o meu expediente.

– Pode verificar o registro anterior ao seu expediente?

O homem suspirou, mas obedeceu.

– Não, ele não fechou a conta.

– Então, o senhor poderia ir até o quarto dele?

– Por quê?

– Para ver se ele está bem. Talvez esteja doente ou tenha sofrido uma queda.

– Duvido muito...

– Americanos costumam abrir processos por qualquer coisa. Se ele estiver se sentindo mal e o senhor não for checar, apesar de eu ter pedido, o hotel poderá ter um grande prejuízo.

Suas palavras surtiram o efeito desejado. O recepcionista pegou uma chave e subiu a escada. Reggie começou a segui-lo.

– Aonde a senhorita acha que vai? – perguntou ele.

– Tenho prática em medicina. Se ele estiver machucado, posso ajudar.

Eles subiram às pressas. O funcionário bateu à porta e chamou algumas vezes.

– Abra a porta! – mandou Reggie.

– Isso iria contra as normas do hotel.

– Ah, deixa disso! – exclamou ela, pegando a chave e o empurrando para o lado.

Reggie abriu a porta e entrou no quarto com o homem logo atrás. O quarto estava vazio, mas ainda com todos os pertences de Shaw.

– A cama não foi desfeita – observou ela, lançando um olhar acusatório para o recepcionista.

– Não é minha responsabilidade determinar se todos os hóspedes estão no hotel – retrucou ele com indignação.

Reggie pensou rápido. O funcionário chegara à meia-noite e Bill havia deixado a mansão por volta das onze. Era uma caminhada de cinco minutos. E se ele nunca tivesse chegado até ali? Mas ela se certificara de que o segurança de Waller soubesse da partida de Bill. Não haveria motivo para...

– Com licença – falou o recepcionista.

Distraída, Reggie demorou a perceber que o homem estava com a mão estendida para pegar a chave. Ela a entregou.

– O senhor deve avisar a polícia – aconselhou.

– Acho que não é necessário. Talvez ele não tenha voltado ao hotel na noite passada porque tinha algo melhor a fazer – replicou, encarando-a com malícia. – Afinal, estamos na Provence.

– Posso revistar o quarto para tentar descobrir o paradeiro dele?

– Se a senhorita fizer isso, pode ter certeza de que vou chamar a polícia.

Exasperada, Reggie passou por ele, desceu a escada e deixou o prédio. Já ia retornar para a mansão quando ouviu pneus cantando. Ao se virar, notou que um carro havia parado na frente do hotel. Escondeu-se nas sombras e observou três homens saírem do veículo, um deles com um chapéu antiquado, e entrarem correndo na recepção. Não se atreveu a se aproximar porque o motorista tinha ficado no automóvel.

Alguns minutos mais tarde, os homens voltaram, um deles carregando algo. Reggie logo reconheceu a mala do quarto de Bill Young. O carro passou perto e ela pôde ver, pela janela do carona, o homem de chapéu ao telefone, falando rápido, parecendo descontente.

Reggie entrou no hotel. O funcionário estava sentado atrás do balcão, mudo.

– Vi aqueles homens entrarem – disse ela.

– Esta é a pior manhã da minha vida – resmungou o velho.

– O que eles queriam?

O homem se levantou.

– O que eles queriam? O que eles queriam? A mesma coisa que você. Quem é o homem que todos vocês procuram?

– Eles falaram alguma coisa para o senhor?

– Não.

– Então, por que o senhor deixou que eles levassem aquela mala?

Com voz trêmula, o funcionário respondeu:

– Porque eles estavam armados. Agora, saia!