Livrai-nos do mal
Capítulo 101
KATIE E WHIT FORAM tratados pela equipe médica no avião. Ao aterrissarem em Boston, os dois foram levados às pressas para um hospital de traumatologia. Shaw, Reggie e Frank ficaram sentados na sala de espera por horas, Frank bebendo vários copos do péssimo café das máquinas automáticas e Shaw encarando o chão. Os médicos apareceram para informar que Whit estava bem e se recuperaria. Mais horas se passaram.
Um homem e uma mulher surgiram na sala de espera. Eram os pais de Katie. Shaw os reconheceu de uma foto que ela lhe mostrara uma vez. Ele era alto e magro, com cabelos predominantemente grisalhos. Ela se parecia com a filha: era esbelta e loura e tinha os mesmos olhos e o mesmo jeito de andar. Ambos pareciam exaustos e agitados e ficaram com a filha por uma hora.
– Eles nos disseram que, se não fosse por você, ela teria morrido – falou o pai, depois que saiu do quarto.
Shaw mal conseguiu levantar a cabeça para encará-lo. E não foi capaz de emitir palavra alguma. Voltou a olhar para baixo, paralisado pela culpa.
– Obrigada – agradeceu a mãe de Katie.
Shaw menteve a cabeça baixa.
Compreendendo os sentimentos dele, Frank se levantou e acompanhou o casal para fora da sala, falando em voz baixa. Depois, retornou e se sentou ao lado de Shaw.
– Coloquei-os em outra sala de espera. Eles estão ligando para o resto da família.
– Como está Katie? – perguntou Reggie.
– Ainda em perigo, ao que parece. Eles ainda não sabem a extensão dos danos.
Mais horas se passaram. Frank trouxe comida da lanchonete, mas só ele e Reggie comeram. Shaw continuava a fitar o chão. Os pais de Katie saíram da UTI.
Pela expressão nos seus rostos, as notícias eram boas. A mãe foi até Shaw. Daquela vez, ele se levantou e ela o abraçou.
– Ela vai sobreviver. Está fora de perigo – disse, aliviada.
O marido apertou a mão de Shaw.
– Não sei o que aconteceu lá, mas quero agradecer do fundo do coração por você ter ajudado a salvar a vida da minha filha.
Alguns minutos mais tarde, eles foram ligar para os irmãos de Katie e dar as boas notícias.
Shaw ficou em pé, ainda cabisbaixo.
– Você ajudou a salvá-la, Shaw – afirmou Frank.
Shaw fez um gesto de desdém com a mão.
– Shaw, você precisa ir vê-la – falou Reggie.
Ele balançou a cabeça.
– Não.
– Por que não?
– Não tenho esse direito – murmurou Shaw entre os dentes e fechou e abriu os punhos como se quisesse socar a parede. – Ela quase morreu por minha causa. E os pais dela me agradeceram por ter salvado a sua vida. Isso não está certo. Nada disso está certo.
Reggie segurou o rosto dele e o virou para si mesma.
– Você precisa ir vê-la.
– Por quê? – perguntou ele ferozmente.
– Porque é o que ela merece.
Os dois sustentaram o olhar um do outro pelo que pareceu uma eternidade. Reggie o soltou aos poucos e recuou.
Shaw passou em silêncio por ela e deixou a sala de espera. Ele se pôs ao lado do leito de Katie. Tubos a cobriam, máquinas a circundavam. A enfermeira disse que ele só tinha um minuto e se afastou, deixando-os a sós. Shaw pegou a mão de Katie e a segurou com delicadeza.
– Sinto muito. Por várias coisas.
Shaw sabia que ela estava inconsciente, tomada por analgésicos, mas ele precisava falar tudo aquilo. Senão, explodiria.
– Eu não devia tê-la abandonado em Zurique. Devia ter ido atrás de você em Paris. Eu... – Ele fez uma pausa. – Gosto de verdade de você. E...
As lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto e ele deu um suspiro entrecortado, sentindo-se enjoado. Curvou-se e beijou a mão de Katie. Os dedos dela se fecharam em torno da mão de Shaw. Ela ainda não estava consciente, mas havia apertado sua mão.
Ele percebeu que a enfermeira o observava da soleira.
– Tchau, Katie – despediu-se, soltando-a finalmente.