Livrai-nos do mal
Capítulo 87
KUCHIN ESTAVA SENTADO EM uma cadeira em seu quarto de hotel. Sua estratégia não funcionara. Seus subordinados tinham esquadrinhado todo o perímetro e não havia sinal de Katie James. Todos eles ainda se encontravam em posição, mas o último comunicado de Pascal fora desanimador. Eles não tinham mais onde procurar. Ou aquela mulher se escondera em algum lugar da cidade ou partira. Nenhuma dessas possibilidades agradava ao ucraniano.
Pegou um pequeno estojo que continha uma seringa com sua mistura especial e a injetou. Normalmente, sentiria pelo menos uma descarga momentânea de euforia, de invencibilidade. Aquilo também parecia fazê-lo pensar com mais clareza, algo de que precisava naquele momento, com todas as suas forças.
Porém, nada aconteceu. Kuchin ficou ainda mais deprimido e jogou a seringa vazia do outro lado do quarto, que bateu na parede e se quebrou. A última vez que sofrera uma derrota havia sido na Ucrânia, quando fora obrigado a forjar a própria morte e fugir da sua pátria antes que as massas se vingassem dos anos de terror. Pelo menos, era assim que denominavam aquele período. Ele considerava um dever, um trabalho. Talvez o destino.
Embora tivesse a boa vida de um capitalista ocidental de sucesso, na qual as liberdades pessoais eram muito prezadas, Kuchin, no fundo do coração, sempre acreditaria que apenas uma minoria seleta deveria governar todos os outros. E a maneira de pôr isso em prática era através de um poder usado seletivamente e com eficácia. As pessoas, em sua maioria, só eram capazes de ser seguidoras. Mesmo no Ocidente, só uma pequena minoria enriquecia e alcançava posições de liderança. No comando na Ucrânia, Kuchin podia identificar, em cinco minutos, quais dos seus subalternos seriam para sempre ovelhas e quais seriam os poucos pastores. E ele nunca se enganara.
Sim, o Ocidente era a parte do mundo na qual havia oportunidade para todos. Kuchin ria com sarcasmo dessa ideia. Ele fora um líder em sua terra natal e se tornara um líder no Ocidente. Um seguidor lá também seria um seguidor aqui. Ovelhas não mudavam porque lhes eram oferecidas oportunidades.
E, agora, você vai ser derrotado de novo?
Ele não podia ficar ali indefinidamente. Não podia manter seus funcionários ali por tempo indeterminado, suscitando suspeitas. Washington talvez fosse a cidade mais vigiada do mundo. Havia policiais, espiões, agentes federais, olhos que sondavam e investigavam por toda parte. Se estavam procurando Kuchin, ele talvez estivesse se mostrando demais. No entanto, se fosse embora sem Katie James, não teria nada. Seria vencido.
Kuchin pegou o controle remoto e ligou a TV. Passava o noticiário e a matéria principal era sobre as dificuldades dos americanos e seus aliados no Afeganistão. Ele sorriu, mas também teve lembranças amargas da devastadora derrota do seu país naquela terra distante.
A repórter tinha por volta de 50 anos. Não era uma daquelas jovens oxigenadas de pernas compridas que liam o teleprompter sem nunca ter chegado perto das zonas de guerra. As frases daquela mulher eram sucintas e bem embasadas e ela dava a impressão de saber do que estava falando. Kuchin deduziu que Katie James, embora fosse mais jovem e bonita, tinha os mesmos atributos. Pelo que pesquisara, ela estivera em todos os focos de conflito mundo afora nos últimos quinze anos. Sem teleprompter.
Kuchin voltou a se concentrar na TV. Estava ansioso para descobrir que tipo de problema os americanos enfrentavam. Pelo menos aquilo o faria esquecer as suas próprias preocupações por um tempo.
– Sou Roberta McCormick, falando ao vivo de Cabul – disse a repórter, finalizando o segmento.
O nome ficou congelado por um instante na mente de Kuchin.
Roberta McCormick?
Ele pulou da cadeira e atravessou correndo o quarto até a escrivaninha, onde estava sua pasta. Abriu-a e achou a lista.
Lá estavam os nomes e endereços das pessoas que moravam em Washington e eram colegas de Katie James. Kuchin postou alguns homens vigiando duas das residências porque os donos haviam saído do país. Os outros dois supostamente estavam na cidade, portanto, não designara vigilância alguma. Correu os olhos até o último nome.
Roberta McCormick. Ela estava em Cabul, a milhares de quilômetros de distância. Morava em Georgetown, perto da Rua R, que ficava logo além do perímetro estabelecido por Kuchin. O marido de McCormick havia morrido, seus filhos eram crescidos. Ela morava sozinha.
Mas talvez sua casa não estivesse vazia naquele momento.