Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 23 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 21

 

– VOCÊ ACREDITA EM DEUS? – perguntou Waller a Alan Rice.

Eles haviam acabado de descer do avião depois de um longo voo e agora viajavam no banco traseiro de um Escalade alugado, a caminho de uma reunião. Rice estava olhando para a tela do laptop, na qual números passavam em grande velocidade. Se ficou surpreso com a pergunta do patrão, não demonstrou.

– Na verdade, não penso nisso desde criança.

Waller pareceu interessado.

– E se pensasse a respeito agora?

– Eu diria que, em todo caso, é melhor se garantir, embora eu deva admitir que não tenho feito isso muito bem.

Waller se mostrou decepcionado.

– É mesmo?

– Mas com a ressalva de que devemos contar com os esforços individuais para conseguir o que queremos na vida em vez de ficar rezando para alguma coisa que não podemos ver.

Waller pareceu ter gostado da resposta.

– Pelo que me consta, você não é praticante de nenhuma crença, certo, Evan?

– Pelo contrário. Rezo de manhã e à noite e vou à igreja toda semana. Acredito em Deus de todo o meu coração, assim como minha mãe e minha avó acreditavam. Os franceses adoram a boa vida, mas são muito pios, sabe.

– Mas não entendo...

Waller o interrompeu com um aceno.

– Não condeno os outros por não acreditar em Deus ou, como você diz, por “se garantir”. Em algum momento, eles vão precisar encarar Deus. – Ele olhou para Alan. – Você vai precisar encarar Deus em algum momento.

Rice voltou o olhar para a tela do computador antes que soltasse uma frase infeliz ou fizesse uma expressão facial reveladora. Então você também precisa encarar Deus. E acho que rezar duas vezes por dia e ir à igreja não vai livrá-lo do inferno. Essas palavras teriam custado sua vida.

– Então, e hoje à noite? – perguntou ele.

Waller balançou lentamente a cabeça e baixou um pouco a janela para deixar entrar um pouco de ar.

– Outra opressão religiosa, na verdade. Os homens com quem vamos nos encontrar acreditam que todas as pessoas que eles matam na vida vão servi-los na morte e que virgens os aguardam no paraíso. Apenas por causa desse conceito, esperava que mais homens se convertessem ao islamismo.

– Talvez se convertessem, se as mulheres não mandassem nos maridos.

– Alan, você está afiado como nunca esta noite.

Rice disse em tom sério:

– Essa é uma atividade muito diferente para você. Lidar com terroristas islâmicos?

– Você não está cansado das putas asiáticas? Quantas unidades são necessárias para satisfazer as virilhas da civilização ocidental masculina?

– Aparentemente, mais do que podemos obter. Mas o montante de dinheiro é colossal e constante. É o que move o fluxo de caixa de todas as nossas outras empreitadas.

– Um homem precisa de novos desafios.

– Mas urânio enriquecido? Para fazer um dispositivo nuclear? Ele pode explodir tanto em Montreal quanto em Nova York. Eu não confiaria muito na pontaria deles.

– O mundo precisa de uma sacudida, você não acha? Anda parado demais. Previsível demais. As mesmas pessoas ocupando cargos no poder há tanto tempo...

– Eu não sabia que você se interessava por geopolítica.

– Tem muitas coisas a meu respeito que você desconhece. Mas acho que chegamos.

Rice olhou pela janela e viu o edifício assomar no seu campo de visão. A viagem de avião fora muito turbulenta nos vinte minutos finais, pois eles haviam aterrissado em meio a uma tempestade e o percurso de 50 quilômetros na área rural não diminuíra seu enjoo. As pessoas com as quais eles se encontrariam estavam embrulhando seu estômago por outro motivo. Seu chefe, é claro, não se deixava abalar por nada.

Qualquer pessoa que procurasse peças para uma arma nuclear para poder detoná-la e matar o maior número possível de pessoas obviamente era louca. Rice podia aceitar que seu patrão fosse em parte maluco, mas havia aprendido a sobreviver perto do homem. As pessoas no encontro daquela noite eram uma entidade desconhecida. Ele gostaria que Waller não tivesse insistido para que o acompanhasse.

Quando Rice tentou recusar o pedido, Waller deu uma resposta curta e grossa como sempre.

– O braço direito não pode selecionar seus encontros. E os medrosos não podem ser braços direitos. Infelizmente, não tenho serventia alguma para as outras partes do seu corpo, Alan.

As palavras eram jocosas; o tom em que foram ditas, não. Então, Rice entrou no avião e cruzou vários fusos horários para ajudar seu patrão a negociar a morte de milhares de pessoas.

– Como você quer começar a reunião? – perguntou Rice.

– Vamos cumprimentá-los e sorrir. Se eles quiserem, comemos e bebemos. Depois, negociamos. A propósito, não mostre a sola dos sapatos para eles: é um grande insulto.

– Mais alguma coisa que eu deva saber?

– Sim, a mais importante de todas.

Rice olhou para Waller, na expectativa.

– Se for necessário sair correndo, trate de correr muito.

Rice pareceu abalado.

– Você acha que isso pode acontecer?

– Não sei. Mas não confio em homens do deserto que usam hattahs e querem explodir o mundo.

– Então por que estamos aqui?

– Eu falei que um homem precisa de desafios.

– Você acha mesmo que vamos precisar sair correndo?

– Talvez. Se isso vier a acontecer, certifique-se de que eu esteja na sua frente.

– E se você não estiver?

– Vou atirar em você e passar por cima do seu cadáver.