Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 58 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 56

 

NILES JANSEN VERIFICOU O pente da Glock 17, no qual cabiam 19 balas. Já havia trabalhado como apoio em três missões com Whit e Reggie, mas nunca recebera ordens para fazer algo como aquilo. Estava nervoso, mas determinado. Introduziu uma bala na arma e tirou do bolso uma seringa marcada com uma etiqueta de veneno. Como se encontrava sozinho, o plano era algemar o prisioneiro à cadeira para que o líquido fosse administrado. O homem pensaria ser apenas outra solução narcótica. Seria fácil.

Jansen começou a atravessar o corredor, mas, então, estacou, incapaz de acreditar no que via. Estava vazando água por baixo da porta trancada e pela portinhola.

Ele saiu correndo, aos berros:

– O que diabos aconteceu?

– O cano do vaso sanitário quebrou e esta merda de quarto está inundando. Estou com água pela cintura – gritou Shaw em resposta. – Onde fica o registro?

– Afaste-se da porta.

– Como? Não posso me mover. O edifício inteiro vai desmoronar. Estou gritando há uma hora.

Jansen foi até a porta e sacou suas chaves. O plano era abrir a porta e ir rapidamente para o lado enquanto a água jorrava.

De repente, a porta foi arrombada e aterrissou em cima de Jansen. Shaw soltou o pesado vaso sanitário que havia usado para abrir caminho à força, pegou a arma do homem e o pôs de pé com um puxão. Quando a seringa caiu no chão, inclinou-se e a pegou, encarando Jansen.

– Isto seria usado em mim?

Não houve resposta. Shaw sacudiu o homem.

– Estou prestes a mandar um balaço na sua cabeça. Isto seria usado em mim? – Ele encostou o cano da arma na testa de Jansen. – Responda agora!

– Eu estava apenas seguindo ordens.

– De quem? De um dos outros caras daqui? Da mulher?

– Não. Eles não sabem.

Shaw deixou o homem inconsciente com um soco de esquerda, extravasando toda a raiva que sentia naquele momento. Em seguida, o jogou no chão e pôs a seringa no bolso. Voltou para a cela, fechou a água e saiu correndo. Obviamente, a água não chegara até a cintura, mas subira o suficiente para atingir o nível da portinhola e começar a vazar. Shaw havia usado uma garrafa plástica para tapar o buraco que surgira quando ele retirara o vaso usando suas ferramentas improvisadas.

Carregou Jansen no ombro com a arma em riste à sua frente, para caso mais alguém aparecesse. Usou o fio de uma luminária para amarrá-lo, pegou seu celular e as chaves do carro, abriu a porta da frente com um chute, pulou o pequeno lance de escada e entrou em um carro cinza estacionado na frente da casa.

Dez segundos mais tarde, estava voando pela estrada. Digitou o destino às pressas no GPS do automóvel.

Gordes.

Shaw verificou o relógio do painel, que também indicava a data.

Dia de feira.

Talvez ainda desse tempo. Ele acelerou e chegou a uma estrada principal. Teclou um número no telefone. Frank atendeu. Ao ouvir Shaw, começou a gritar.

– Cale a boca, Frank, e escute.

– Eu é que devo escutar? Shaw, vou acabar com...

– Eles vão matar Waller.

– O quê? Quem?

Shaw informou a Frank tudo o que havia acontecido.

– Tenho quase certeza de que vai acontecer hoje. Preciso de reforços.

– Não temos ninguém. Evacuamos todo o nosso pessoal.

– Não temos ninguém?

– Passei o tempo inteiro tentando livrar sua cara. Os superiores acham que você surtou por causa da garota. Estão furiosos.

– Não posso fazer isto sozinho. Preciso de ajuda. Waller tem muitos homens.

Frank ficou em silêncio.

– Ei! – gritou Shaw. – Fale comigo!

– Temos uma pessoa na área.

– Quem?

– Eu.

– Por que você ainda está aqui?

– Esqueça, o que importa é que estou.

– Por quê, Frank?

– Porque eu estava procurando você. Está satisfeito agora? Então, como você quer agir?

– Da seguinte maneira...

Shaw explicou rapidamente.

– Você confia mesmo nessa mulher? – questionou Frank.

– Até certo ponto, sim. Como confio em qualquer outra pessoa.

– Bem, espero que você esteja certo.

Shaw desligou e pisou fundo no acelerador. O motor gemeu em protesto enquanto o carro disparava pelos campos da Provence.

Ao chegar à entrada de Gordes e ver o trânsito, largou o carro e subiu correndo a estrada sinuosa. Alcançou a rua lateral que levava até as duas mansões e notou que não havia nenhum segurança em frente à casa de Waller, um indício de que ele não estava ali. Shaw olhou para a fila de carros e furgões cheios de mercadorias que se encaminhavam para a feira. Aproximando-se de uma picape que transportava araras de roupas e chapéus, tirou do bolso alguns euros e comprou um colorido poncho e um chapéu de tecido com abas alargas, ganhando um par de óculos escuros do próprio motorista.

Já disfarçado, Shaw subiu na traseira do automóvel e pegou carona até a cidade. Lá, ele se deslocou rapidamente em meio à multidão, abaixando-se para que sua altura não desse na vista. Correu os olhos por todos os cantos à procura de Reggie, Waller ou qualquer outra pessoa conhecida. Por fim, ao passar por uma ruela lateral, ele avistou o que procurava e recuou. Esperou por um tempo, pegou o celular e ligou para Frank, dizendo-lhe o que fazer.

Em seguida, verificou a arma que roubara. Nunca se entrava em combate sem fazer algo tão básico. A Glock 17 fora concebida na década de 1980 por Gaston Glock, um austríaco que nunca havia construído uma arma, mas que tinha muito conhecimento acerca de polímeros sintéticos avançados. Assim foi criada, digamos, a primeira pistola de plástico do mundo, que venceu a H&K, a SIG Sauer, a Beretta, a Browning e a sofisticada Steyr na concorrência para armar o Exército da Áustria. O sucesso mundial foi imediato e avassalador. Setenta por cento dos policiais nos Estados Unidos a carregavam em seu coldre. No entanto, a Glock 17, assim como todas as armas, não era infalível. Shaw ficou surpreso por não ter percebido aquilo antes.

O cano estava rachado, provavelmente por causa da colisão com a porta e o vaso. A sorte é que ele não precisara dispará-la, pois a pistola explodiria nas suas mãos. Uma Glock podia funcionar mesmo molhada, mas nenhuma arma avariada é segura. Frank estava a pelo menos trinta minutos de distância, mas Shaw não podia esperar.

A única opção era seguir em frente. E foi o que ele fez.