Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 70 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 68

 

 

REGGIE NÃO QUIS BUSCAR refúgio no estande de tiro subterrâneo, sobretudo porque não acreditava que seu estômago pudesse aguentar o fedor do local. Entretanto, não queria permanecer na casa, em meio àquela atmosfera fria, e decidiu caminhar pela propriedade, indo parar, é claro, no cemitério, diante da lápide de Laura R. Campion. Ela visitara os túmulos da mãe e do irmão apenas uma vez, anos antes, e nunca fora até o do pai. Porém, lá estava de novo em frente à cova de uma desconhecida.

Você está ficando louca, Reg? Esta é a sensação?... Foi isto que aconteceu com meu... pai?

Havia muito tempo, ela se convencera de que o pai tinha enlouquecido, pois essa era a única explicação para o que ele fizera. Mas, no fundo, sabia que isso não era verdadeiro e ficava aterrorizada.

– Você enlouquece? – perguntou-se ela em voz alta. – Ou será que já nasce mau? Ou mata porque lhe dão essa chance?

– Todas as três coisas – respondeu uma voz.

Reggie quase tropeçou ao se virar, sua mente reconhecendo a voz, mas sem entender como a ouvira ali.

Shaw estava ao lado de uma sebe de teixos próxima ao cemitério.

– Como...? – começou a falar, mas ele pôs um dedo sobre os próprios lábios e avançou.

Shaw parou perto dela.

– É bom ver você de novo também.

– Como diabos você chegou aqui?

– O telefone que devolvi para você. GPS.

– Impossível. Desabilitamos todos os chips de GPS nos telefones quando estamos em missão para evitar esse tipo de coisa.

– Eu sei. Por isso tive que colocar outro durante a viagem de barco.

Reggie gemeu e levou a mão à testa.

– Não acredito que fui tão idiota.

– Você não é idiota; é excelente. Mas eu também sou.

Reggie olhou ao redor, nervosa.

– E se eles o encontrarem aqui?

– O quê? Vão me matar?

– Não fazemos isso – retrucou ela, séria.

– É mesmo?

Ele tirou do bolso a seringa tomada de Niles no chalé.

– O que você está fazendo com isso? – perguntou ela, sem entender.

– Eles iam me matar com isto, Reggie.

– Impossível. Nunca falamos a ninguém...

– O cara que eu nocauteei disse que a ordem veio de outra pessoa. – Ele voltou os olhos para a mansão. – Talvez alguém no casarão?

– Shaw, isso é impossível.

– Vocês carregam isto com vocês?

– Esse veneno era para Kuchin. Mas já tínhamos uma seringa conosco.

– Então, por que uma segunda?

– Caso alguma coisa acontecesse com a primeira, imagino – respondeu ela sem muita convicção.

– Ou caso alguém atrapalhasse. Como eu.

– Isso é absurdo. Ele disse que alguém tinha dado ordens para matar você?

– Não tenho o hábito de inventar coisas desse tipo. Para que eu faria isso?

Reggie se afastou dele e se jogou em um desgastado banco de pedra no canto do cemitério. Shaw uniu-se a ela, levantando o colarinho para se proteger do ar frio que havia voltado com toda a força à Inglaterra, como se quisesse compensar os raros dias de calor.

– O plano era deixar você ir embora assim que acabássemos com Kuchin.

– Os planos mudam se essa for a vontade da pessoa certa. Quem aqui tem esse tipo de poder?

Involuntariamente, Reggie lançou um olhar para a mansão.

– Então eu tinha razão. Eles estão lá. Você tem um nome?

– Por quê? Você vai entrar lá e prendê-lo?

– Certo, é um homem. O problema é que não tenho autoridade para prender ninguém.

– O que vai fazer? Matá-lo? Se for atrás dele, você também terá que matar muitas outras pessoas.

– Inclusive você.

– Sim – confirmou ela sem hesitar.

– Logo, minhas opções são limitadas. – Ele deu a Reggie a seringa. – Apenas se certifique de que a pessoa que você vai espetar com isso deve morrer. Porque não há como voltar atrás.

– Por que você veio até aqui?

– Acho que queria ver a concorrência com meus próprios olhos. Belas instalações. Meu escritório sempre fica a 40 mil pés de altitude ou em terra firme, em um local bem movimentado.

– Só por isso?

– Ah, tinha mais um motivo. Eu queria ter certeza de que você não continuava botando os bofes para fora. Sinto-me um pouco responsável por isso. E acho que não fui tão solidário com você quanto deveria quando estávamos atravessando o mar.

Reggie deu um sorriso tímido.

– Bem, para dizer a verdade, ainda estou meio tonta, mas voltando ao normal. – Ela fez uma pausa para guardar a seringa. – Seu chefe sabe que você está aqui?

– Nem sempre estamos em sintonia.

Ela olhou mais uma vez na direção da casa.

– Eu entendo você. Quanto tempo você vai ficar na Inglaterra?

– Depende.

– Do quê?

– De você aceitar ou não jantar comigo hoje. Se você aceitar, ficarei aqui pelo menos mais um dia. Se não, caio fora agora mesmo.

Reggie desviou o olhar.

– Sair é um problema?

– Na verdade, todos nós ganhamos uma pequena folga. Mas se alguém vir você... Whit ou...

– Ninguém vai me ver. Vou sair pelo mesmo caminho que usei para chegar. Ganho a vida me esgueirando por aí. Mas, por segurança, vamos nos encontrar em Londres por volta das oito hoje à noite. – Ele lhe deu o nome de uma ruela nos arredores de Trafalgar Square. – Depois, podemos decidir aonde ir.

– Tenho que responder agora?

– Sim, senão vou pegar um avião hoje à noite. E duvido que eu vá voltar, Reggie.

– Você não dá muito tempo para que uma garota se decida.

– Não, não mesmo.

– Tudo bem. Mas sobre o que vamos conversar durante o jantar?

– Ah, tenho certeza de que vai haver um assunto de interesse mútuo. E talvez até seja divertido. – Ele passou os olhos pelo cemitério. – Quem sabe você se alegra um pouco. Parece que está precisando.

– Você deve achar estranho eu ficar olhando túmulos.

– Não.

– Por que não?

– Eu faço a mesma coisa.