Livrai-nos do mal
Capítulo 68
REGGIE NÃO QUIS BUSCAR refúgio no estande de tiro subterrâneo, sobretudo porque não acreditava que seu estômago pudesse aguentar o fedor do local. Entretanto, não queria permanecer na casa, em meio àquela atmosfera fria, e decidiu caminhar pela propriedade, indo parar, é claro, no cemitério, diante da lápide de Laura R. Campion. Ela visitara os túmulos da mãe e do irmão apenas uma vez, anos antes, e nunca fora até o do pai. Porém, lá estava de novo em frente à cova de uma desconhecida.
Você está ficando louca, Reg? Esta é a sensação?... Foi isto que aconteceu com meu... pai?
Havia muito tempo, ela se convencera de que o pai tinha enlouquecido, pois essa era a única explicação para o que ele fizera. Mas, no fundo, sabia que isso não era verdadeiro e ficava aterrorizada.
– Você enlouquece? – perguntou-se ela em voz alta. – Ou será que já nasce mau? Ou mata porque lhe dão essa chance?
– Todas as três coisas – respondeu uma voz.
Reggie quase tropeçou ao se virar, sua mente reconhecendo a voz, mas sem entender como a ouvira ali.
Shaw estava ao lado de uma sebe de teixos próxima ao cemitério.
– Como...? – começou a falar, mas ele pôs um dedo sobre os próprios lábios e avançou.
Shaw parou perto dela.
– É bom ver você de novo também.
– Como diabos você chegou aqui?
– O telefone que devolvi para você. GPS.
– Impossível. Desabilitamos todos os chips de GPS nos telefones quando estamos em missão para evitar esse tipo de coisa.
– Eu sei. Por isso tive que colocar outro durante a viagem de barco.
Reggie gemeu e levou a mão à testa.
– Não acredito que fui tão idiota.
– Você não é idiota; é excelente. Mas eu também sou.
Reggie olhou ao redor, nervosa.
– E se eles o encontrarem aqui?
– O quê? Vão me matar?
– Não fazemos isso – retrucou ela, séria.
– É mesmo?
Ele tirou do bolso a seringa tomada de Niles no chalé.
– O que você está fazendo com isso? – perguntou ela, sem entender.
– Eles iam me matar com isto, Reggie.
– Impossível. Nunca falamos a ninguém...
– O cara que eu nocauteei disse que a ordem veio de outra pessoa. – Ele voltou os olhos para a mansão. – Talvez alguém no casarão?
– Shaw, isso é impossível.
– Vocês carregam isto com vocês?
– Esse veneno era para Kuchin. Mas já tínhamos uma seringa conosco.
– Então, por que uma segunda?
– Caso alguma coisa acontecesse com a primeira, imagino – respondeu ela sem muita convicção.
– Ou caso alguém atrapalhasse. Como eu.
– Isso é absurdo. Ele disse que alguém tinha dado ordens para matar você?
– Não tenho o hábito de inventar coisas desse tipo. Para que eu faria isso?
Reggie se afastou dele e se jogou em um desgastado banco de pedra no canto do cemitério. Shaw uniu-se a ela, levantando o colarinho para se proteger do ar frio que havia voltado com toda a força à Inglaterra, como se quisesse compensar os raros dias de calor.
– O plano era deixar você ir embora assim que acabássemos com Kuchin.
– Os planos mudam se essa for a vontade da pessoa certa. Quem aqui tem esse tipo de poder?
Involuntariamente, Reggie lançou um olhar para a mansão.
– Então eu tinha razão. Eles estão lá. Você tem um nome?
– Por quê? Você vai entrar lá e prendê-lo?
– Certo, é um homem. O problema é que não tenho autoridade para prender ninguém.
– O que vai fazer? Matá-lo? Se for atrás dele, você também terá que matar muitas outras pessoas.
– Inclusive você.
– Sim – confirmou ela sem hesitar.
– Logo, minhas opções são limitadas. – Ele deu a Reggie a seringa. – Apenas se certifique de que a pessoa que você vai espetar com isso deve morrer. Porque não há como voltar atrás.
– Por que você veio até aqui?
– Acho que queria ver a concorrência com meus próprios olhos. Belas instalações. Meu escritório sempre fica a 40 mil pés de altitude ou em terra firme, em um local bem movimentado.
– Só por isso?
– Ah, tinha mais um motivo. Eu queria ter certeza de que você não continuava botando os bofes para fora. Sinto-me um pouco responsável por isso. E acho que não fui tão solidário com você quanto deveria quando estávamos atravessando o mar.
Reggie deu um sorriso tímido.
– Bem, para dizer a verdade, ainda estou meio tonta, mas voltando ao normal. – Ela fez uma pausa para guardar a seringa. – Seu chefe sabe que você está aqui?
– Nem sempre estamos em sintonia.
Ela olhou mais uma vez na direção da casa.
– Eu entendo você. Quanto tempo você vai ficar na Inglaterra?
– Depende.
– Do quê?
– De você aceitar ou não jantar comigo hoje. Se você aceitar, ficarei aqui pelo menos mais um dia. Se não, caio fora agora mesmo.
Reggie desviou o olhar.
– Sair é um problema?
– Na verdade, todos nós ganhamos uma pequena folga. Mas se alguém vir você... Whit ou...
– Ninguém vai me ver. Vou sair pelo mesmo caminho que usei para chegar. Ganho a vida me esgueirando por aí. Mas, por segurança, vamos nos encontrar em Londres por volta das oito hoje à noite. – Ele lhe deu o nome de uma ruela nos arredores de Trafalgar Square. – Depois, podemos decidir aonde ir.
– Tenho que responder agora?
– Sim, senão vou pegar um avião hoje à noite. E duvido que eu vá voltar, Reggie.
– Você não dá muito tempo para que uma garota se decida.
– Não, não mesmo.
– Tudo bem. Mas sobre o que vamos conversar durante o jantar?
– Ah, tenho certeza de que vai haver um assunto de interesse mútuo. E talvez até seja divertido. – Ele passou os olhos pelo cemitério. – Quem sabe você se alegra um pouco. Parece que está precisando.
– Você deve achar estranho eu ficar olhando túmulos.
– Não.
– Por que não?
– Eu faço a mesma coisa.