Livrai-nos do mal
Capítulo 99
NÃO HAVIA NADA. NENHUM navio visível, mas também nenhuma luz na água que indicasse a proximidade de um. E, para complicar ainda mais, estava se formando uma neblina. Shaw olhou para os outros e para as pedras lá embaixo.
– Podemos descer por aqui e nos esconder até que algo apareça.
Os demais o fitaram, esgotados.
– Adiar o inevitável? – questionou Whit.
– Prefiro pensar que é a conquista de uma posição defensiva. Assim, ele terá que descer e tentar nos pegar.
– Ou ficar aqui em cima e nos acertar um por um – replicou Reggie. – Nem vimos de onde ele atirou em Rice. Mas foi de muito longe.
– Você tem uma ideia melhor? – perguntou Katie.
Reggie encarou o chão, passando o tênis sobre uma rocha.
– Na verdade, não.
Shaw olhou para trás.
– No que você está pensando? – indagou Reggie.
– Ele previu nossas ações. Eu gostaria de retribuir.
– Como? Ele tem todas as vantagens táticas e estratégicas.
– E ele tem armas e cachorros que fariam o cão dos Baskervilles parecer um pequinês – acrescentou Whit.
Shaw agachou e pensou a respeito. Observou o céu que ia clareando.
– A neblina pode nos ajudar a nos esconder.
Reggie concordou.
– É possível, mas é bem provável que o sol a dissipe e fiquemos expostos. Podemos até descer por essas rochas, mas acho difícil depois subir de volta. E não há muita cobertura lá embaixo. Poderíamos estar no meio do caminho e ele, daqui, nos acertaria.
– O único aspecto positivo – comentou Whit – é que os cães não vão conseguir ir até lá embaixo para fazer uma bela refeição.
Katie se levantou.
– Meu Deus, Shaw está tentando pensar em uma maneira para nos tirar daqui e tudo o que vocês conseguem fazer é...
Shaw pôs a mão sobre a boca de Katie e olhou ao redor. Todos eles ouviram algo se mexendo à direita, em cima deles. Shaw gesticulou para que os outros o seguissem. Foram para a esquerda, afastando-se do barulho.
– Veja, Shaw! – exclamou Reggie, apontando para trás.
Todos eles estacaram, vendo um saco descer pelo promontório pendurado por uma corda até o chão.
– Peguem – ordenou uma voz.
Todos ergueram os olhos.
Pascal estava em pé no topo da elevação.
Shaw e Whit automaticamente levantaram suas facas.
Pascal sorriu e sacudiu a cabeça. A neblina ficava cada vez mais densa, quase o encobrindo.
– Peguem. Isso vai ajudá-los.
Observando-o com cautela, Shaw foi até o saco. Quando viu o que havia dentro, ficou boquiaberto: uma arma e um celular.
– O telefone está totalmente carregado. O sinal também é muito bom. O Sr. Waller mandou instalar uma torre a cerca de um quilômetro daqui. Liguem para quem quiserem. E o chip de GPS está ativado.
– Por que você está fazendo isso? – perguntou Shaw.
– Ele quer que eu os leve naquela direção – respondeu Pascal, apontando para o caminho que eles haviam percorrido. – A aproximadamente 1,5 quilômetro daqui, as duas trilhas convergem. A oeste, fica um terreno mais alto. Aposto que o Sr. Waller estará lá esperando.
– Você não respondeu a minha pergunta – insistiu Shaw, verificando se todos os componentes da arma estavam em ordem.
Pascal encarou Reggie e Whit.
– Eu queria que vocês o tivessem matado em Gordes. Achei que as informações que passei para os seus colegas fossem suficientes. Mas Rice se intrometeu. Ele seguiu você até a igreja. – Ele indicou Reggie.
– Você era o nosso contato? – perguntou Reggie, atônita.
– Surreal! – exclamou Whit incrédulo.
– Só fui saber dos planos de Rice quando já era tarde demais. Fui com ele até a igreja achando que poderia ajudá-los de alguma maneira. – Pascal olhou para Shaw. – Aí, ele apareceu e vocês não precisaram mais de mim.
– Você queria que Waller morresse? – indagou Reggie.
– Ele se chamava Fedir Kuchin quando minha mãe o conheceu. Sou grego e ele foi nos visitar na Grécia uma vez. Eu era pequeno.
– Você o conheceu na infância? – perguntou Katie.
– Ele é meu pai, embora nunca tenha se comportado como tal. Deixou minha mãe morrer sem nada. Nós, gregos, não perdoamos nem esquecemos algo assim. Kuchin acha que eu não sei quem ele é. Acha que não sou inteligente o bastante para deduzir. Kuchin acredita que, para mim, ele simplesmente foi à Grécia e resgatou um órfão. É verdade que ele me deu comida e abrigo, além de me treinar. Mas minha mãe morreu por causa dele e nada pode compensar isso.
Shaw fitou a arma.
– Para que isto?
– Para que vocês tenham uma chance.
– Por que você mesmo não o mata? – falou Whit.
– Tenho meus motivos. E ele é meu pai. Vou cuidar dos outros. E dos cães também. Vocês cuidam dele. Boa sorte – completou secamente, e sumiu.
Todos se entreolharam.
– O que você acha? – perguntou Katie. – Acredita nisso tudo?
– Sim, claro. Ele nos deu uma arma de verdade e uma linha de comunicação. Vamos seguir em frente. – Digitou um número e Frank atendeu, com voz sonolenta. – Tenho um minuto para falar, Frank, e preciso que você se mexa como nunca na sua vida.
Shaw explicou a situação a Frank e desligou. Passou os dedos pela arma e instruiu Katie:
– Você e Reggie ficam aqui com Whit. Vou levar a arma e matá-lo. Depois, volto para pegar vocês.
– Ele não está sozinho, Shaw – interveio Reggie. – Talvez você precise de ajuda.
– Você ouviu Pascal: ele vai cuidar dos outros.
Whit balançou a cabeça.
– Sim, mas ele está sozinho. Talvez o matem. E tem também os malditos cachorros. Vou com você. As mulheres podem ficar aqui e nos esperar.
– Estivemos juntos o tempo todo – argumentou Reggie. – Não vejo motivo para nos separarmos agora.
– Concordo – disse Katie. – Todos ou ninguém.
– Isso não faz sentido – retrucou Shaw. – Se estivermos juntos, vamos facilitar muito o trabalho dele.
– Ou dificultar – rebateu Reggie. – Depende do ponto de vista.
– Tudo bem, por que não podemos ficar aqui e aguardar Kuchin? – indagou Whit.
– Porque, se fizermos isso, ele nos pegará. Mesmo de avião ou helicóptero, Frank vai demorar um tempo até chegar aqui.
– Podemos armar uma emboscada.
– O terreno aqui não é propício. Somos alvos fáceis. Pascal, por exemplo, nos surpreendeu. Se eu voltar para o lugar onde Kuchin está nos esperando, mas me aproximar por um ângulo diferente, talvez consiga pegá-lo desprevenido. E ele não sabe que tenho uma arma.
– Não vamos ficar para trás, Shaw – afirmou Katie. – Enfim nos encontramos e não vou deixar que você escape assim tão fácil.
– Eu também vou – acrescentou Reggie.
Shaw encarou Whit, à procura de apoio, mas o irlandês apenas deu de ombros.
– Nunca ganhei uma discussão com uma mulher na minha vida. Não vai ser desta vez que conseguirei.
Shaw suspirou fundo e, com a arma em riste, partiu. Os outros o seguiram.