Livrai-nos do mal
Capítulo 92
PASSARAM-SE ALGUMAS HORAS. Com as mãos algemadas, os pés acorrentados, a boca amordaçada e a cabeça encapuzada, eles foram amontoados em um utilitário com janelas de vidro fumê que percorreu um longo caminho. Shaw estava contando os segundos em sua mente. Embora não estivessem em grandes rodovias – pelo menos isso ele conseguiu perceber –, a velocidade era bastante estável, no mínimo 100 quilômetros por hora. Dava para deduzir pelo som do motor e pela intensidade do vento do lado de fora do carro.
Quando o veículo enfim parou, ele tinha uma medida aproximada. Nove horas. Não dava para saber a direção, mas não era provável que fosse o oeste, rumo a Montreal, ou o sul, rumo aos Estados Unidos. A segurança entre os EUA e o Canadá não era tão rígida, mas quatro figuras encapuzadas e agrupadas em um automóvel teriam suscitado, ao menos, curiosidade. Caso contrário o controle das fronteiras estaria desacreditado.
Portanto, tinham seguido para o norte ou o leste. Nove horas rumo ao leste a 100 quilômetros por hora e eles atravessariam o Maine, nos Estados Unidos, para chegar até New Brunswick ou, ainda mais além, até Nova Scotia. Quando a Yukon foi desligada, a cidade grande mais próxima era Québec. De lá até Halifax, em Nova Scotia, a distância era muito maior do que a supostamente percorrida. Por isso, Shaw concluiu que haviam seguido mais para norte do que para leste, margeando a fronteira com os Estados Unidos. Fora permitida uma parada para fazerem suas necessidades e, em seguida, partiram.
Mais tarde, as portas do veículo se abriram e eles foram forçados a ficar de bruços, quase uns por cima dos outros. Por um terrível instante, Shaw achou que fosse o fim. A hora da execução. Os outros respiravam em ritmo acelerado e deviam estar pensando o mesmo.
Uma lona pesada foi jogada em cima deles e uma voz ameaçou:
– Um ruído e sua amiga morre.
As portas do veículo se fecharam e ele seguiu em frente. Depois, parou. Mais uma vez, as portas foram abertas. Som de conversa. Portas fechadas. O automóvel avançou vacilante e parou. Shaw percebeu que o terreno não era firme. Embora o motor estivesse desligado, a picape se movia, para cima e para baixo, de um lado para o outro. Ou estava em cima de algo que fazia esses movimentos.
Alguns minutos se passaram e Shaw ouviu mais barulhos, como o toque de um sino e passos apressados. Houve uma oscilação rápida e a sensação de algo deslizando para longe, como um trem deixando a plataforma da estação. O primeiro solavanco desvendou o mistério.
Estamos em um barco. Provavelmente em uma balsa que transporta carros.
A água agitada aumentava o desconforto da situação. Shaw ouviu Reggie gemendo ao lado e achou que ela fosse enjoar de novo, como havia acontecido na travessia de Amsterdã até a Inglaterra. E, então, a viagem acabou. Seguiram por terra durante mais algumas horas e houve outra parada. Eles foram puxados para fora do veículo e tiveram que marchar, ainda encapuzados e acorrentados, em fila indiana. Foram conduzidos aos empurrões até assentos em um espaço confinado. Shaw bateu com a cabeça no teto. Quando o motor foi acionado, o som do deslocamento de ar e o repuxo no estômago fizeram Shaw deduzir que estavam em um helicóptero.
Ele continuou a contar os segundos e, ao mesmo tempo, calcular a velocidade. Transcorreram pelo menos dezoito mil segundos, ou cinco horas. Se estivessem viajando a mais de 200 nós, teriam percorrido mais de mil quilômetros, indo parar ou em New Brusnwick ou em Nova Scotia, caso o rumo fosse o norte, ou no Atlântico, caso fosse o leste. Porém, Shaw não acreditava na última opção, pois haviam pegado a balsa.
Na picape, vindo de Montreal e passando por Québec, eles permaneceram na extremidade sul da faixa de água que corta aquela parte do Canadá e usaram o serviço da balsa para atravessá-la. Shaw sabia disso porque já tinha estado em uma delas. Ninguém se daria o trabalho de pegar um barco em direção ao norte para depois voltar a atravessar de helicóptero para o sul ou o leste. Se o destino final fosse New Bruswick ou Nova Scotia, teriam pegado o helicóptero já na extremidade sul, em vez de usar a embarcação. Ela era utilizada por quem queria ir para o norte, em direção à baía de Hudson ou até mesmo ao Círculo Ártico, ou para o leste, rumo a Terra Nova ou Labrador.
Quando o helicóptero aterrissou e eles saltaram, Shaw já tinha certeza de que não estavam no Círculo Ártico; o voo não havia sido longo o suficiente e a aeronave não fora reabastecida. Ele não sabia que tipo de helicóptero era aquele, mas, para a maioria dos modelos, cinco horas de voo com tal número de pessoas a bordo representava quase o limite da autonomia. E estava quente demais. Shaw apostava que se achavam mais a leste do que a norte. O motor silenciou e pôde-se ouvir o barulho do oceano batendo contra a costa, ou seja, se tratava do litoral de Terra Nova ou Labrador. Um vasto território. De qualquer forma, essa informação não os ajudaria muito.
Os capuzes e as mordaças foram finalmente removidos e os quatro observaram a paisagem, os olhos se ajustando aos novos níveis de luminosidade. Eles haviam saído de Montreal no fim da tarde e naquele local o crepúsculo já se rendia à escuridão. Mais de um dia inteiro se passara, calculou Shaw. E o ronco no seu estômago confirmou.
Eles foram postos em uma picape e transportados para longe.
– Alguma ideia de onde estamos? – sussurrou Reggie para Shaw.
– Cale-se! – ordenou o homem ao lado do motorista.
Dez minutos mais tarde, luzes surgiram no campo de visão.
A casa era feita de sólidos troncos e tinha uma varanda coberta e um telhado de placas de cedro. Picapes estavam paradas à sua frente. A centenas de metros, Shaw viu outra construção, às escuras. Ao longe, conseguiu divisar vultos de montanhas. A extremidade setentrional dos Apalaches, imaginou. Ele estivera naquela região algumas vezes no passado, como parte do seu trabalho. Era soturna, desolada. Não havia nenhum policial por ali. A lei era o que determinasse alguém com uma arma, ou pelo menos com alguma superioridade.
O carro estacionou. Eles foram desembarcados e andaram até a casa, ainda acorrentados e algemados. O primeiro homem que viram foi Pascal, com um sorriso de orelha a orelha. O segundo foi Alan Rice. O terceiro era o motivo para todos estarem ali.
Fedir Kuchin entrou na sala. Estava vestido de maneira casual, com jeans e uma camisa de veludo cotelê, e calçava coturnos. Não sorria triunfante nem parecia irritado. Seus sentimentos eram impenetráveis. Aquilo deixou Shaw mais nervoso do que se o homem tivesse começado a atacá-lo. Era uma demonstração de autocontrole e preparação meticulosa. Mas para quê?
A pessoa que ele viu em seguida o fez esquecer de Fedir Kuchin.
Uma Katie James abatida lhe deu um sorriso fraco.