Livrai-nos do mal
Capítulo 85
OITO HORAS MAIS TARDE, Shaw e Reggie estavam em um jato particular rumo a Montreal. A 39 mil pés de altitude, ele pegou alguns documentos, os espalhou sobre a mesa e fez um sinal para que ela se acomodasse à sua frente.
Ambos usavam roupas informais: Reggie, jeans e uma camiseta de manga comprida; Shaw, calças cáqui e uma camisa escura de manga curta.
– Bela maneira de viajar – comentou ela, admirando o interior do Gulfstream V.
– Temos muito trabalho a fazer e pouco tempo, portanto mãos à obra – replicou ele em um tom que só poderia ser descrito como um latido.
Reggie se sentou.
– Qual é o seu problema?
– No momento, a lista é longa demais. Vamos nos concentrar neste aqui.
Ele indicou a planta baixa.
– A cobertura de Kuchin no centro de Montreal.
– Vamos arrombá-la?– perguntou ela, brincando.
– Alguma objeção?
Reggie o encarou, incrédula.
– Achei que fôssemos encontrar Alan Rice e pressioná-lo para descobrir se ele é o informante. E, depois, usá-lo para chegar até Kuchin.
– Essa é uma possibilidade. Mas... e se ele não for o informante? O que vamos fazer?
– Mas só pode ser ele.
– Nada disso. Se elaborarmos todos os nossos planos com base nessa hipótese, somos idiotas. Idiotas mortos. Bem, também temos o endereço de Rice. O problema é que, se o procurarmos primeiro e ele não for o cara, Kuchin ficará de sobreaviso.
– Ele já não está de sobreaviso? Achei que o encontro nas catacumbas tivesse sido suficiente para deixar o homem alerta para o resto da vida.
– Você está analisando o quadro superficialmente, Reggie – criticou Shaw, em um tom condescendente.
– Então, professor, por que você não explica tudo para mim, já que meu pobre cérebro não consegue?
– O fato de a Interpol ainda não ter batido à porta de Kuchin indica que vocês não eram de uma organização oficial. Ele deve achar o mesmo de mim. A Interpol e o FBI chegam com distintivos e uma força esmagadora. Nós não tínhamos nada disso. Por enquanto, ele não considera que sua liberdade está em risco, apenas sua vida. Isso vai impactar seu modo de agir daqui em diante. Ele vai se esconder, mas não tanto quanto se estivesse sendo perseguido pelo FBI ou por outra organização oficial.
– Certo, entendo.
– Muito bem. Ainda assim, temos que ser cautelosos. Enquanto trama contra nós, ele deve deduzir que estamos no seu encalço.
– Você acha mesmo?
– Um sujeito como ele não sobreviveu na KGB todos aqueles anos sem saber como antecipar as próximas jogadas dos adversários. Na União Soviética, era muito mais provável que você fosse eliminado não pelo Ocidente, mas por alguém do próprio escritório de olho no seu trabalho, apartamento ou carro, mesmo que ele estivesse sempre quebrando. Portanto, Kuchin sem dúvida está se preparando para uma segunda investida por parte de vocês.
Reggie analisou os documentos.
– O que vamos fazer?
– Ataque em duas frentes; Kuchin primeiro.
– Como?
– Entramos na cobertura dele, revistamos o lugar e, com sorte, conseguimos obter alguma informação sobre o seu paradeiro atual.
– Como saber que ele não está na cobertura?
– Temos pessoas que a estão vigiando. Ele não aparece por lá desde que partiu para a França.
– Espere um pouco: se vocês sabiam onde ele estava o tempo todo, por que não o pegaram em Montreal? Por que ir atrás dele em Gordes?
– Isso é confidencial.
– Besteira. Você fala de confiança, mas, ao que parece, não se trata de uma via de mão dupla.
Shaw se recostou. A exigência dela, vistas as circunstâncias, não era estapafúrdia.
– Ele tinha mais guardas em Montreal. E não seria bom um tiroteio na rua. Também tivemos alguns problemas com os canadenses anteriormente; eles não são nossos melhores amigos. As férias na Provence eram uma opção muito melhor: podíamos pegá-lo em uma caverna.
Satisfeita, Reggie observou os desenhos.
– Ele deve ter um sistema de segurança sofisticado em casa.
– Tem mesmo, mas já penetramos em sistemas melhores.
– E qual é o meu papel?
– Fazer o que eu mandar.
– Tudo bem, vou ficar na traseira do avião. Me avise quando quiser me dar outra bronca. Virei correndo como um cachorrinho.
Shaw segurou o braço de Reggie, que se preparou para lhe desferir um soco.
– Sinto muito – desculpou-se ele.
Reggie abaixou a mão.
– Tudo bem. – Seu tom era mais de perplexidade do que de conciliação.
Shaw adivinhou o que ela estava pensando.
– Escute, eu não queria que você viesse. Achei que fosse perigoso demais. Kuchin quase pegou você uma vez.
– Eu me ofereci como voluntária. Mas, se você não queria que eu viesse, por que estou aqui?
– Você ouviu Mallory. Se você não viesse, ele revelava tudo.
– Pare com isso, é impossível que você tenha acreditado nessa ameaça. Ele estava blefando. – Ela se aproximou. – E você sabia disso, não é? Você só não queria que eu me machucasse.
– As pessoas à minha volta tendem a se machucar, Reggie.
– Mais uma vez, por que estou aqui?
– Acho que Frank levou a ameaça a sério. Ele insistiu para que você viesse.
Reggie examinou os planos sobre a mesa.
– Não serei um peso morto, Shaw. Farei todo o possível para ajudar.
– Eu agradeço, mas...
– Também não quero que você se machuque.
– Minha segurança não deve ser uma preocupação para você.
– Mas é. Estou dando cobertura para você. Você vai fazer o mesmo por mim?
– Claro.
– Se tivermos que escolher entre a minha sobrevivência ou a morte de Kuchin, diga ao monstro que me encontrarei com ele no inferno. Não o deixe escapar, Shaw. Mesmo que isso signifique que eu não vá voltar. Você promete isso para mim?
Shaw não respondeu.