Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 68 de 108

Páginas do PDF

Livrai-nos do mal

Capítulo 66

 

REGGIE CORREU OS OLHOS por seu pequeno e precário apartamento em Londres. Havia uma cama com dossel, uma velha cômoda que fora da sua mãe, um tapete quadrado esfarrapado, uma mesa com duas cadeiras de encosto reto, um fogareiro elétrico, um frigobar, uma estante de um metro de altura repleta de livros e duas janelas sujas que davam para os fundos de outro edifício encardido. Em um vaso, estava uma planta morta, vítima da onda de calor que atingira Londres enquanto ela viajava, transformando o cômodo em um forno, pois não havia ar-condicionado central. O banheiro coletivo ficava no fundo do corredor. Os vizinhos acordavam cedo, logo precisava chegar ao chuveiro às seis da manhã para não tomar uma ducha gelada.

Tenho 28 anos e ainda pareço estar na universidade.

A água estava fria, pois ela havia chegado tarde em casa. Vestiu as únicas roupas limpas que estavam no armário. Pôs as peças sujas em uma sacola com a intenção de levá-las mais tarde à lavanderia do andar inferior. Como ficara um tempo fora, a geladeira não continha nada comestível. Tomou café da manhã em um bar, consumindo sem pressa ovos, café e um croissant bem amanteigado. Ela carregara o celular e enviara uma mensagem de texto a Whit. A resposta foi imediata: todo o grupo conseguira sair da França são e salvo. Um deles até fora à mansão, recuperara os pertences de Reggie e os levara de volta à Inglaterra. Whit queria saber onde estava Shaw e escreveu: “Certifique-se de que ele não conseguirá encontrar Harrowsfield.” Reggie respondeu com um e-mail, dizendo que Shaw fora embora e que ela se certificaria de não estar sendo seguida.

Caminhando pela rua, Reggie esticou os braços e flexionou as pernas para se livrar das cãibras. A viagem havia sido terrível, o barco balançando de um lado para o outro o tempo todo. Shaw aguentou facilmente aquele suplício; não ficou enjoado em nenhum momento. Permaneceu sentado diante de uma mesa, lendo um livro e até comendo, e passava para ela toalhas e um balde quando necessário, o que acontecia com certa frequência.

Volta e meia, Reggie olhava para Shaw em busca de solidariedade, mas não era correspondida. Passou a se sentir culpada pelas tentativas. Naquele trabalho inclemente de espionagem, era necessário ser forte e não reclamar. Exatamente como Shaw. Já ela não resistia bem a travessias marítimas. Pelo menos, estava de volta à Inglaterra sã e salva, bem como toda a sua equipe. Embora não tivessem capturado Kuchin, as coisas poderiam ter sido muito piores.

Reggie foi de metrô até Knightsbridge. Ela se apresentaria em Harrowsfield, mas, antes, precisava acessar seu pequeno cofre alugado em uma empresa especializada em armazenar objetos de valor. O local era monitorado por câmaras de circuito interno e equipado com os últimos dispositivos tecnológicos de segurança, como scanners biométricos e cartões de acesso. Além disso, cada caixa estava ligada diretamente à delegacia de polícia mais próxima. Todo esse esquema custava quase 100 libras por ano e, para Reggie, valia cada penny.

Ela entrou no edifício e passou por todas as barreiras até a caixa-forte. Sozinha, acessou seu cofre particular e retirou o conteúdo. Certificando-se de ficar postada entre a câmara no teto e os itens sobre a mesa, se sentou e começou a ler informações que já sabia de cor.

Para Reggie, tratava-se de um ritual. Depois de cada missão, ela ia até ali e sempre seguia o mesmo procedimento. Em todas as outras vezes, havia sido bem-sucedida. Aquele era seu primeiro fracasso, sua primeira derrota. Mas, ainda assim, lá estava ela. Era algo importante.

Os artigos de jornal eram velhos e amarelados. Com o tempo, o papel se desintegraria por completo, mas as informações contidas em suas páginas nunca seriam apagadas da mente de Reggie. Em certos dias, ela desejava que desaparecessem.

Robert O’Donnell, 36 anos. A foto em preto e branco do homem estava desbotada, mas Reggie não tinha dificuldade em reconhecê-lo. Afinal de contas, era seu pai. Ele morrera no dia em que a filha fizera 7 anos. A manchete do Daily Mail cobria os fatos básicos e acrescentava um toque de exagero, como de costume.

Morre o mais famigerado assassino em série de Londres desde Jack, o Estripador!

Não era bem o que uma garotinha gostaria de ler sobre o pai no próprio aniversário.

Vinte e quatro vítimas, todas mulheres entre 13 e 30 anos, tinham sido mortas pelo sádico pai de Reggie. Essas eram as vítimas conhecidas. Ele foi comparado ao serial killer americano Ted Bundy, executado mais ou menos naquela época. Um homem charmoso e bonito que atraía mulheres para a morte. Só que Bundy não era casado e não tinha filhos. Era um solitário. O’Donnell tinha um bom emprego, uma esposa amorosa, um casal de filhos. No entanto, ao longo dos anos, ele matara pelo menos vinte pessoas com tal ferocidade e depravação que policiais veteranos que encontraram alguns dos corpos precisaram fazer terapia para superar os horrores testemunhados.

Mesmo depois de as investigações não deixarem margem para dúvidas sobre os fatos, Reggie ainda não conseguia aceitar que o homem que a criara era o mesmo daquelas terríveis matérias. Ela olhou para outro recorte, um artigo escrito no quarto aniversário de morte do seu pai. Havia uma foto de página inteira dele em seus últimos dias. Sua expressão era de uma criatura inumana. Mas Reggie também via no rosto do pai algo que a aterrorizava ainda mais.

Meus olhos. Meu nariz. Minha boca. Meu queixo.

Fisicamente, ela era muito mais parecida com o pai do que com a mãe. Mas apenas fisicamente.

O fim da violenta vida do pai havia sido arrasadora, pois também marcou o final de outras duas vidas, das pessoas mais importantes para Reggie: a mãe e o amado irmão mais velho.

O irmão é que fora o herói. Aos 12 anos, tendo descoberto o que o pai fizera, Lionel O’Donnell procurou a polícia. De início, os oficiais não acreditaram nas elucubrações de uma criança. Tinham recebido diversas pistas, a maioria falsa, e estavam bastante pressionados.

Foi só mais tarde que eles perceberam que o garoto tinha razão. Àquela altura, era tarde demais. Toda a família morreu em um único dia. O pai, furioso, descobriu a traição do filho e também matou a esposa. Reggie teria o mesmo fim, mas os policiais chegaram a tempo. Ela ainda tinha pesadelos. Aparentemente, eles nunca acabariam.

Reggie passou para outro artigo e começou a tremer assim que viu a foto. A menina estava de maria-chiquinha. Os olhos eram inexpressivos e a boca pequena formava uma linha fina, sem demonstrar emoção alguma. Mais de vinte anos depois, Reggie se esforçava para lembrar o que sentira ao ser fotografada naquele dia. Onde ela estava, quais eram seus pensamentos.

Seu olhar seguiu para a legenda: Única sobrevivente da família, Jane Regina O’Donnell, 7 anos.

As semanas, meses e até anos seguintes foram um turbilhão de eventos. A família da mãe a acolheu. Eles deixaram o país. Novas vidas foram estabelecidas. Nunca se disse nada sobre o passado, nada sobre a mãe nem o irmão e, sobretudo, nada a respeito do monstruoso pai. No entanto, Reggie, usando o sobrenome de solteira da mãe, acabou voltando para a cidade na qual foram cometidas as atrocidades. Sua identidade havia sido enterrada bem fundo. Ela não era mais uma garota de 7 anos com olhar inexpressivo. Era Reggie Campion, uma mulher feita, com a missão de reconstruir uma vida a partir das catastróficas ruínas do passado.

Porém, Reggie se perguntava naquele momento – não pela primeira vez – se Mallory sabia quem ela de fato era. E se ele a tivesse abordado por causa disso? Apesar de nunca ter dado sinal algum de que conhecia a verdadeira história, o professor era o tipo de homem que não demonstraria aquilo.

Havia outros itens na caixa, mas ela decidiu ver apenas mais dois. Um era uma foto da sua mãe, uma mulher miúda e loura, simplória, não muito inteligente nem curiosa, que amava incondicionalmente os filhos. O segundo item era um retrato do irmão, Lionel, que procurara a polícia e pusera fim ao reinado do monstro em Londres, embora isso tivesse lhe custado a própria vida. Mesmo aos 12 anos, era alto, mas não tanto quanto o pai, que media 1,93 metro e pesava mais de 90 quilos. Ele havia puxado as feições da mãe: cabelos claros, olhos azul-escuros, a boca em geral curvada em um sorriso. Mas não naquela fotografia. Ali, Lionel estava no caixão. Reggie não sabia de onde aquela imagem havia saído, mas a descobrira anos antes e agora não conseguia jogá-la fora. Era doentia, macabra; ela sabia disso. Mas também era uma lembrança do sacrifício do irmão para livrar todos eles do mal.

Reggie recolocou os itens no lugar, trancou o cofre e o pôs de volta na parede da caixa-forte. Voltou ao apartamento, fez a mala e partiu para Harrowsfield em seu carro.

No caminho, ela só pensava em como pegar Fedir Kuchin. Bem, não exatamente. Outro homem alto de cabelos escuros também continuava a se intrometer em seus pensamentos.

Onde será que Shaw estava?