Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 57 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 55

 

REGGIE SE LEVANTOU CEDO e nadou na piscina antes da alvorada. Em geral, fazia algo prazeroso no fim da missão, pois talvez fosse o último dia da sua vida. A água estava fria e ela avançava contando as braçadas e regulando a respiração. Não se deu o trabalho de verificar se alguém a espiava. Isso não era mais importante.

Reggie encerrou a atividade, entrou em casa, subiu a escada em caracol até o banheiro e tirou o biquíni. Virou-se rapidamente para olhar o canto oposto do cômodo, certa de que ouvira algo, vira um vulto... Mas não havia nada.

Trancou a porta e tomou banho, deixando que a água quente escorresse pelo corpo na esperança de que sobrepujasse os calafrios. Ficava sempre nervosa com a proximidade do momento em que a pessoa que ela planejava matar descobria sua verdadeira identidade.

Bill Young veio à sua mente. Reggie sabia que não devia ter ido vê-lo. Porém, algo dentro dela, em um lugar inexplorado havia muito tempo, a forçara a agir daquela maneira. Enfim, nada daquilo teria relevância alguma depois daquele dia, nem os sentimentos dela, nem os dele. Eles nunca mais se veriam. Reggie se olhou no espelho, recordando a centelha entre os dois quando suas mãos se tocaram. O modo como ele a olhara. Todo o autocontrole a que ela precisava recorrer apenas por estar perto de Bill.

Pare, Reggie. Pare agora mesmo.

Secou os cabelos e pôs calças, uma camisa larga por cima de uma regata e um lenço na cabeça. Escolheu calçar tênis porque a ajudariam caso tivesse que correr. O lenço podia ser usado como um garrote. Porém, se ela precisasse usar esse recurso, suas chances de sobrevivência seriam muito pequenas. As imagens das vítimas de Fedir Kuchin desfilaram em sua mente.

O dia de hoje é por todos vocês.

Reggie olhou pela janela para a trilha com calçamento de pedras lá embaixo. Algumas pessoas já começavam a subir a colina para a feira. Pareciam alegres, ansiosas, animadas. Ela também se sentia assim; bom, talvez ainda não alegre. Pequenos carros e furgões passavam devagar, entulhados de mercadorias. Em seguida, surgiram Whit e Dom, separados, carregando grandes bolsas. Nenhum deles ergueu o olhar em sua direção. Os dois logo saíram do seu campo de visão. O elemento que Whit acrescentara ao plano era brilhante, pensou. Tudo o que ela precisava fazer era executá-lo da forma adequada.

Fechou a janela, desceu a escada e preparou o café da manhã. Ficou imóvel diante da xícara, da torrada e dos ovos fritos, respirando ritmadamente para afastar o nervosismo, revisando o plano várias vezes a fim de minimizar quaisquer erros. Reggie se encontrara mais uma vez com Whit e Dom e analisara cada detalhe da missão. O equipamento que Dom havia comprado em Avignon era perfeito. Tudo estava pronto para ser transportado. Os dois a parabenizaram pela ideia. “É um show bem adequado para o velho Kuchin”, dissera Whit.

– Um show adequado – repetiu Reggie, lavando a xícara e os pratos e os colocando de volta no armário.

Caminhou até o terraço e contemplou o nascer do sol, incendiando o céu. A cadeia de montanhas e a planície foram ganhando vida. O nervosismo de Reggie se atenuou, a respiração voltou ao normal e as feições se tornaram resolutas. Estava na hora.

Se aquele era seu último dia, também seria o último de Fedir Kuchin, Reggie jurou a si mesma. Algumas coias valiam o preço a ser pago.

 

Em Harrowsfield, Miles Mallory estava ao telefone. A chamada provinha de um local a poucos quilômetros de Gordes e havia sido feita por Niles Jansen, que lhe dava informações desagradáveis.

– Ela foi mesmo ver esse homem? – perguntou Mallory, indignado. – Ele sabe que estamos atrás de Kuchin? – Jansen respondeu. – E ele faz parte de alguma agência de espionagem? – O professor ouviu por um instante. – Espere meu telefonema. Preciso pensar um pouco.

Desligou e se recostou na cadeira. Whit havia sido incrivelmente insensato ao contar a Reggie que Bill Young estava sob a custódia deles. O plano era libertar o homem após o término da missão. Mas Mallory não sabia mais se aquela ainda era uma opção válida. Se alguém descobrisse o que eles faziam... Pegou o cachimbo do bolso, fitou-o e, em seguida, o atirou para o outro lado da sala, onde o cabo se partiu ao se chocar contra a lareira.

Telefonou de volta para Jansen. Sua mensagem foi seca:

– Seja qual for o resultado da missão, ele não pode permanecer vivo. Aja agora.

Encerrou a ligação, inclinou-se para a frente e pôs o rosto nas mãos.

– Miles.

Ele ergueu o olhar e viu Liza o observando.

– O que há de errado? – perguntou ela.

Mallory balançou a cabeça, fez menção de falar, mas, por fim, baixou os olhos e encarou o chão, as mãos inertes pendendo à sua frente, como se tivesse acabado de sofrer um derrame.

– Miles!

– Agora não, Liza. Por favor, agora não.