Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 46 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 44

 

REGGIE TOMOU BANHO, esfregando-se com tanta força que parecia que iria arrancar a pele. Em seguida, vestiu uma calça jeans e uma camiseta, desceu rapidamente a escada, pegou a cesta de feira e subiu a colina até a cidade. Saiu por uma porta dos fundos que dava para a trilha de pedras para não encontrar com o vizinho.

Uma hora mais tarde, voltou com a cesta cheia de ingredientes para o jantar. Depois, arrumou a cozinha, lavou as mãos, pôs uma saia branca e uma regata azul leve. Permaneceu descalça, pois gostava de sentir o frescor dos ladrilhos. Demorou-se embelezando os cabelos e o rosto diante do espelho do banheiro e levou cinco minutos para escolher a pulseira e os brincos.

Enquanto se aprontava, ela parou de súbito, observando o rosto maquiado, os olhos aumentados pelo delineador e pelo rímel.

É para provocar ciúme. Jogar um contra o outro. Nada mais do que isso.

A voz de Whit ressoou em sua mente: “Então, tudo isso está ligado à missão?”

Reggie continuou a encarar seu reflexo. Tudo está sempre ligado à missão. Mais um monstro eliminado. Era tudo o que ela queria. E não importava como chegaria lá.

O som da campainha a sobressaltou. Ela consultou o relógio. Oito horas em ponto. Terminou de se arrumar, desceu correndo a escada em caracol e abriu a porta da frente. Shaw segurava duas garrafas.

– O vendedor de vinhos da cidade jurou que estes eram os dois melhores tintos que ele tinha, levando-se em conta que eu queria impressionar uma mulher requintada e rica.

Reggie pegou uma das garrafas e olhou o rótulo.

– Ele tinha razão. Estou impressionada. Devem ter custado uma pequena fortuna, mesmo na Provence.

– Nunca deixei que o dinheiro atrapalhasse a diversão. E, como lobista, estou acostumado a barganhar.

Ela ficou na ponta dos pés e lhe beijou a bochecha. Shaw a seguiu até a cozinha, observando o movimento de seus quadris.

– Você sente falta do trabalho? – perguntou ela.

– Na verdade, não. Eu só recebia uma quantidade exorbitante de dinheiro para ganhar ainda mais dinheiro para pessoas que já tinham dinheiro demais.

– Já organizei tudo. Seus instrumentos estão à espera. – Ela apontou para uma faca serrilhada e uma tábua de corte ao lado de uma pilha de legumes e tomates.

– Tudo bem, mas antes algo para matar a sede.

Ele pegou o saca-rolha na bancada, abriu uma das garrafas, serviu duas taças e entregou uma a Reggie. Os dois brindaram e tomaram um gole. Shaw deixou o copo de lado e segurou a faca.

– O que vamos ter hoje? – perguntou, começando a cortar a comida.

– O prato principal é um cozido de galinha, tomates e legumes com alguns temperos secretos. E um prato de queijos, torradas e azeitonas recheadas para beliscarmos antes. Depois, salada, pão e azeite, e uma pequena sobremesa cremosa que comprei na padaria porque não sou boa de forno. O café, é claro, será feito em uma cafeteira francesa.

– Parece incrível.

– Sabe, por mais que Goya seja deprimente, me diverti muito hoje.

Shaw observou-a mexendo o cozido.

– Eu também. Deve ter sido a companhia.

Reggie franziu a testa.

– Certo. Para ser franca com você, Evan me pediu para ir com ele a Roussillon amanhã.

Shaw terminou de cortar um tomate em cubinhos e passou para o aipo.

– Você vai?

– Eu disse que iria, mas acho que vou sozinha no meu carro.

– Certo.

– Você não parece estar muito bem.

– Se dependesse de mim, você não se meteria com esse sujeito.

– Mas não depende de você.

– Eu sei.

– Você acha mesmo que ele não é confiável?

– Digamos que não quero que você sofra as consequências caso eu tenha razão.

Ela sorriu.

– Bem, vou me consolar pensando que você estará aqui para me proteger.

Os movimentos de Shaw ao cortar os vegetais se tornaram tão ferozes que Reggie perguntou:

– Algum problema?

Ele soltou a faca e enxugou as mãos em um pano de prato.

– Tive uma mudança de planos. Tenho... tenho que ir embora amanhã. Voltar para casa.

– Ir embora? Por quê? – indagou ela, pálida

– Um problema com o meu filho.

– Meu Deus, sinto muito. É grave?

– Ele não está doente nem nada do gênero. É mais emocional do que físico, porém sou o pai e é algo importante o suficiente para que eu interrompa os momentos maravilhosos que estou vivendo aqui.

– Por isso gosto de você: dá prioridade às coisas certas.

Shaw desviou o olhar, envergonhado por aquele elogio imerecido.

– Portanto, não vou estar aqui para proteger você.

– Eu só estava brincando. Não é seu trabalho me proteger.

Ao olhar de novo para Reggie, Shaw notou que ela voltara a atenção para o fogão. E havia algo diferente em sua expressão. Será que era alívio? Será que estava feliz por ele ir embora?

 

Eles conversaram sobre amenidades durante o jantar e não se demoraram muito no café e na sobremesa.

– Espero que tudo fique bem com seu filho – desejou ela enquanto os dois tiravam a mesa.

– Também espero que tudo fique bem com você.

– Pare de se preocupar tanto. Vou ficar bem – replicou ela, pensando “E, agora, você também vai ficar numa boa”.

Depois, já à porta, Reggie disse:

– Bem, acho que é isso.

– Cuide-se. – Ele fez uma pausa. – O tempo que passamos juntos significou para mim mais do que você pode imaginar.

– Na verdade, tenho uma ótima imaginação.

Shaw pensou que ela fosse parar por ali, mas, então, Reggie o envolveu com os braços e ele retribuiu. O abraço dela parecia um pouco forte e demorado demais. Talvez o dele também.

Reggie o beijou perto dos lábios e Shaw tentou alcançar sua boca na tentativa seguinte. Os dois ouviram alguém pigarrear e viram um dos seguranças de Waller fitando-os.

Reggie falou em um tom suficientemente alto para que o homem ouvisse:

– Mais uma vez, lamento que você tenha que ir embora amanhã, Bill. Boa viagem de volta aos Estados Unidos.

Então, fechou a porta. Shaw olhou para a aldrava de latão em forma de cabeça de leão por um bom tempo. Por que diabos ela dissera aquilo? Olhou ao redor e viu o sorriso triunfante do segurança. A notícia de sua partida iminente sem dúvida chegaria logo aos ouvidos do chefe.

– Bela noite – observou o homem.

Shaw subiu a trilha escura até Gordes. Pegou um atalho e subiu os velhos degraus de dois em dois. O avião partia de Avignon às oito da manhã. Como a cidade ficava a uns cinquenta minutos de carro, ele teria que partir de manhã cedo. E Janie Collins iria a Roussillon com um homem que ganhava uma fortuna traficando garotas e que queria vender material nuclear para fanáticos.

Podia optar por não ir, mas os subordinados de Frank viriam no seu encalço e ele precisaria fugir, logo não poderia ajudar Janie. Não conseguia ver saída para aquele dilema. Mas, na verdade, como Frank havia salientado, Shaw não era o guarda-costas da moça. Estava ali por causa de uma missão. A missão fora cancelada e ele seria utilizado em outro lugar. Já dera as costas a Katie James, uma mulher que arriscara a vida por sua causa. Então, por que sentia vontade de ficar e defender a honra, e talvez a vida, de uma mulher que mal conhecia? Era um comportamento irracional, e Shaw sempre fora conhecido por ser uma pessoa lógica. Mas também não podia ignorar seus sentimentos.

Então, em um rompante de extrema lucidez, tudo fez sentido. A mansão vizinha, a arma, o golpe nos rins e o fato de ela continuar a nadar sabendo que era vigiada. Por fim, a estratégia de jogá-lo contra Waller. Por algum motivo, ela estava armando para aquele sujeito. Mas, ao mesmo tempo, fez com que o segurança de Waller soubesse que Shaw iria embora. Para garantir que Kuchin não lhe fizesse nenhum mal. Ela o estava protegendo.

Absorto nesses pensamentos perturbadores, nem teve tempo de bloquear o golpe que acertou em cheio sua nuca. Caiu no chão, cortando os joelhos e cotovelos nas pedras. Ainda tentou se levantar, mas foi derrubado de novo, dando de cara no chão. Sentiu que o amarravam, suspendiam e jogavam em um pequeno compartimento.

Depois, tudo ficou escuro.