Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 19 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 17

 

FEDIR KUCHIN ERA UM homem muito inteligente, mais inteligente do que todos eles haviam imaginado. Não apenas fora mais esperto do que o professor Mallory, mas também levara a melhor sobre Reggie e sua equipe na Provence. O fracasso teria um alto preço. Reggie olhou para os corpos de Whit e Dominic. Whit estava decapitado, Dominic não tinha mais rosto.

Reggie fora forçada a se ajoelhar no centro da sala gelada enquanto Kuchin e seus seguranças a cercavam. Não havia escapatória daquela vez. Levantou a cabeça e olhou para o rosto comprido e cruel enquanto ele acariciava seu queixo com uma das mãos. Ela o teria atacado, mas suas mãos e pernas estavam amarradas. Concentrou-se nos corpos de seus colegas mortos para não sentir o toque do monstro em sua pele.

Kuchin emitiu um riso satisfeito e profundo que pareceu durar minutos.

– Você achava que seria tão fácil? – perguntou. – Achava mesmo? Depois de todos esses anos me escondendo, você acreditou que alguém como você poderia me pegar? Você é uma amadora que foi enviada para fazer o trabalho de um profissional.

A carícia se transformou em um tapa forte e Reggie caiu de costas, batendo com a cabeça no chão de concreto. Ele a levantou pelos cabelos e aproximou o rosto do dela, quase o tocando.

– Diga-me o seu nome. Seu nome de verdade.

– Por quê? – murmurou ela.

– Porque gosto de saber essas coisas.

– Não, não vou dizer.

Kuchin a golpeou na boca com a arma, deixando dois dentes frouxos e quebrando um terceiro. Ela sentiu o gosto de sangue e engoliu parte do molar estilhaçado.

– Não.

Ele a acertou na barriga e Reggie se dobrou. Pisou em sua mão direita, quebrando dois dedos. Esmagou seu joelho esquerdo com outro golpe.

– Agora!

– Reggie – balbuciou ela enquanto o sangue escorria pelo rosto.

– Reggie do quê?

– Reggie Campion.

– Muito bem, Reggie Campion, agora você vai saber.

– Saber o quê?

– Como é morrer na bela Provence.

Kuchin fez um sinal para um dos seus homens, que avançou com um recipiente plástico nas mãos. Reggie pôde sentir o gosto da gasolina que era despejada em cima dela, congestionando as narinas e irritando os olhos.

Ela queria ser corajosa, mas não conseguiu se conter:

– Não, por favor! Não!

Como uma criança. Patética. Fraca.

Kuchin sorriu, pegou o fósforo do bolso, riscou-o no salto do sapato e o ergueu para que ela o visse.

– Não! Não! – gritou ela.

– Eu achava que você seria uma adversária mais digna, Reggie – disse Kuchin.

– Não, por favor, não me mate!

– Desta vez o monstro vence, Reggie Campion.

Kuchin soltou o fósforo sobre a cabeça de Reggie, que foi tomada pelas chamas.

 

Com um grito abafado apenas pelas cobertas sobre o rosto, Reggie pulou da cama e aterrissou no chão. Ela se debatia para combater as chamas imaginárias. Depois, voltando a si, ficou imóvel por vários minutos. Conseguiu se arrastar até o banheiro para vomitar no vaso e, então, tombou de costas nos ladrilhos frios.

Reggie permaneceu caída ali, arquejando, esperando que o enjoo diminuísse. Por fim, levantou-se com esforço, cambaleou até a janela e observou o terreno de Harrowsfield. Quando a hora de partir em missão se aproximava, ela preferia passar mais tempo em seu próprio apartamento a ficar na propriedade, mas o casal ativo no andar de cima ainda não havia se saciado. Então, ela fora para a velha mansão.

Porém, ao se afastar de Londres, tinha sentido uma ponta de inveja. Quando fiz sexo pela última vez? Não consigo nem me lembrar... Patético.

A chuva havia passado, mas o ar ainda estava frio. Reggie levantou a janela e se debruçou para fora, respirando fundo enquanto o efeito nauseante do pesadelo ia diminuindo.

Estou tendo pesadelos com um sujeito que ainda nem enfrentei. Isso não é nada bom, Reggie. Nada bom.

A pior parte tinha sido a visão de Whit e Dominic mortos. Seus medos não significavam que aquilo se tornaria realidade. Ela precisava pôr a cabeça no lugar.

Reggie colocou jeans, tênis e uma blusa de moletom esfarrapada com capuz onde se lia “Oxford” e saiu pela porta dos fundos da cozinha. Não sabia ao certo se Whit havia voltado para casa ou dormido na mansão. Não queria que ele, nem qualquer outra pessoa, a visse daquele jeito. Em poucos minutos, ela chegou ao cemitério e, mesmo no escuro, levou apenas alguns segundos para localizar a lápide de Laura R. Campion. Parou na frente do túmulo com as mãos nos bolsos.

Como não tinha nenhum parente vivo, Reggie começou a pensar naquele lugar como uma espécie de refúgio em momentos de estresse e incerteza. Mesmo sabendo ser loucura, ela achava que, para tentar fugir do terror que sentia, era necessário ir até o cemitério no meio da noite e ficar olhando o túmulo de uma mulher morta havia mais de duzentos anos com a qual, aparentemente, não tinha ligação alguma.

– Eu devo ser mesmo um pouco louca – disse baixinho – para fazer o que faço.

Mas era bastante compreensível, falou a si mesma, ter medo de um homem como Fedir Kuchin, que queimava crianças vivas sem pensar duas vezes. Um homem que matava milhares de pessoas de uma vez só usando métodos terríveis. Seria loucura não ter medo.

Do outro lado do cemitério, ficava uma pequena capela arruinada. Suas paredes de blocos de pedra estavam enegrecidas pelo tempo, o teto, parcialmente desabado e as grossas portas de madeira em arco haviam se tornado frágeis devido à ação dos cupins e da deterioração.

Reggie entrou e caminhou em direção ao altar. De vez em quando ia até ali para tirar o trabalho da mente e para ouvir os pássaros que tinham feito ninho nas velhas traves da estrutura. Não havia vitrais, apenas janelas simples que foram quebradas ou que apenas se desintegraram. Através daquelas aberturas, entravam os sons do bosque em volta.

Ao contrário de Fedir Kuchin, havia muito tempo que ela deixara de acreditar em um poder superior que guiava a todos. Aquilo acontecera por um simples motivo: um deus onisciente, todo-poderoso e benevolente nunca permitiria que monstros caminhassem sobre a Terra matando quem eles quisessem. Então, para ela, a mera presença daquelas pessoas no mundo eliminava qualquer possibilidade de um ser supremo benigno. Muitas pessoas a contestaram. Reggie ouvia pacientemente as afirmações ponderadas e, em seguida, discordava de suas conclusões.

Eles tinham mais dois dias para finalizar tudo e, depois, ela partiria para a Provence. Antes que aquilo acontecesse, ela e o professor resolveriam como proceder. A vida ou a morte de Fedir Kuchin dependeria do fato de eles tomarem ou não a decisão certa.

Percebendo tudo o que estava em jogo, e apesar de sua descrença, Reggie se ajoelhou no altar, uniu as mãos e começou a rezar para que, mais uma vez, o bem derrotasse o mal.

Não custava tentar.