Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 11 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 9

 

 

DOMINIC BAIXOU O COPO de cerveja e deu um tapinha no braço de Reggie.

– Desculpe, Dom, o que você estava dizendo? – perguntou ela, envergonhada.

Eles estavam em um restaurante a alguns quarteirões do apartamento dela em Londres e Reggie começou a pensar em outras coisas enquanto ele falava.

– Sei que Whit falou com você sobre a próxima operação.

– Ele me parou do lado de fora do estande de tiro. Ele disse a você que ia falar comigo?

– Na verdade, eu sugeri que ele a procurasse.

– Por que eu? Ele poderia ter ido falar com o professor.

– Ele e Whit nem sempre se dão bem.

Reggie franziu atesta.

– Nenhum de nós se dá bem com todo mundo o tempo inteiro. É a nossa natureza.

Ela tomou um gole de chá e brincou com um biscoito em seu prato. Fora, o dia era cinzento; chuviscava e um vento forte golpeava a janela, como se tentasse entrar. Na frente deles, um fogo fraco crepitava na lareira coberta de fuligem. Reggie sabia que, se o tempo continuasse daquele jeito ao longo do verão, metade de Londres tentaria suicídio e a outra metade pensaria seriamente a respeito. Em circunstâncias normais, uma viagem para a quente e ensolarada Provence seria uma dádiva. Em circunstâncias normais.

– Você sabe que ele queria uma posição de destaque na missão contra Huber e o professor se opôs?

Reggie se inclinou para a frente e falou em voz baixa:

– Estamos falando de Huber. Whit e suas armas não iriam funcionar naquela situação. O velho nazista queria peitos e bunda, não um irlandês irritadiço com tatuagens e uma Glock.

Dominic arqueou uma sobrancelha.

– Whit tem tatuagens?

Reggie suspirou.

– Pare com isso, Dom. Estou cansada.

– Mas, talvez, no caso de Kuchin, Whit possa participar.

– Eu disse a Whit que falaria com Mallory e é o que vou fazer. – Ela olhou para Dominic por cima da xícara. – E você? Que papel quer desempenhar?

Dominic deu de ombros.

– Andei lendo sobre o Holodomor desde a nossa primeira reunião. Estou com muita vontade de pegar esse canalha.

– Só não se deixe levar pelas emoções. Isso faz com que você perca o foco e é aí que os erros acontecem.

– Como você consegue se desligar? Como consegue não sentir nada?

Reggie se aproximou, arregalou seus belos olhos e sorriu, sedutora.

– Vou dizer como: toda vez que Huber punha a mão na minha bunda, eu fingia que era você me apalpando, Dom. Foi assim que eu resisti.

Ela pegou um pedaço de biscoito com a língua. Ele piscou e corou, confuso.

Reggie riu.

– Estou brincando. Decidi seguir o conselho de Whit e relaxar um pouco. Sério, quando ele fazia aquilo, não estava tocando em mim, mas passando a mão em Barbara, sua boneca alemã. Tive de interpretar aquele papel para eliminá-lo. Um passo de cada vez. Foi apenas um papel. Foi assim que cheguei até o fim. Se eu me deixasse levar pelas emoções e perdesse o controle, ele teria se safado. Essa é a melhor motivação para nunca perder o controle. Não permitir que eles vençam.

Dominic tomou o resto da cerveja.

– Qual era a sensação?

Ela olhou inexpressivamente para ele.

– Quando ele enfiava a mão na minha saia?

– Não, eu estava me referindo a quando... Você sabe.

– Para dizer a verdade, não pensei muito a respeito. Apenas agi.

– Até agora, nunca tive que fazer isso. Só estava pensando.

– Deixe para pensar nisso quando chegar a hora, Dom. Cada um faz de uma maneira diferente, mas você vai dar cabo do serviço, tenho certeza.

Ele ficou calado por um instante, então disse em voz baixa:

– Os outros caçadores de nazistas os entregavam à polícia para que fossem julgados. Por que não fazemos a mesma coisa?

Reggie falou quase sussurrando:

– Esses são apenas os casos que você lê nos jornais. Você acha mesmo que não existem grupos que entregaram os alemães diretamente aos israelenses? E acha que os judeus os levaram a julgamento? As pessoas estão perdendo o interesse. Os americanos têm uma divisão do Departamento de Justiça dedicada aos nazistas. Reduziram verba e pessoal porque todos acreditam que a maioria dos partidários de Hitler estão mortos. Como se o maldito Terceiro Reich tivesse o monopólio do mal. Vi genocídios na África, na Ásia e no Leste Europeu que estão além da imaginação. O mal não tem fronteiras geográficas. Quem pensa de outra maneira é um idiota.

Depois de alguns momentos de silêncio, Dominic mudou de assunto:

– Então, como você vê o plano?

Reggie olhou séria para ele.

– Não quero discutir isso em um lugar público.

– Desculpe. Vou para Harrowsfield hoje à noite.

Ela relaxou.

– Eu também. O professor quer começar cedo. E o casal no apartamento em cima do meu está transando feito louco toda hora. Só ouço “Oh, oh, isso, isso!”. Ponho o volume do rádio no máximo, mas, ainda assim, estou enlouquecendo. Quer ir junto comigo no carro?

– Não, vou na minha moto.

– Sua moto de corrida? – perguntou ela com um toque de ironia.

– O quê? Ah, Whit falou para você.

– Está muito chuvoso para viajar sobre duas rodas, não é?

– Tenho equipamento apropriado. – Ele acrescentou, pensativo: – Gosto mais de Harrowsfield do que da minha casa em Richmond.

– Que bom que vou ter uma boa noite de sono.

– A gente se vê lá, então. Preciso abastecer antes. Tchau.

Enquanto eles se levantavam, Reggie pôs uma mão no ombro dele.

– Dom, quando chegar a hora, pense que a justiça enfim será feita. Assim você vai ficar bem. Eu prometo.