Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 64 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 62

 

 

O AVIÃO DE KUCHIN JÁ estava no meio do Atlântico. Rice acessara o perfil falso de Janie Collins no Facebook e pesquisara outras informações sobre seu passado. Tudo fora apagado.

Temeroso, ele informou Kuchin.

– Também não imprimimos cópias das páginas – completou Rice com voz trêmula. – Portanto, não temos fotos da moça.

– Eu tenho uma foto dela – declarou Kuchin surpreendentemente. – Tirei uma foto quando vocês dois conversavam no terraço antes do jantar.

– Você estava desconfiado?

– Não, queria uma foto de uma mulher bonita. – E acrescentou, sarcástico: – Mas, agora, tenho suspeitas.

– Não temos nada sobre Bill Young.

Àquela altura, Kuchin havia desenhado esboços de Reggie, Shaw, Whit e Dominic. Sua percepção e memória eram impressionantes. Ele os mostrou a Rice, que fez um sinal de aprovação com a cabeça.

– Perfeitos, Evan. Você é um artista e tanto.

– Quero os três esboços dos homens transferidos para um formato digital ou seja lá qual for o nome que dão a isso. Será que assim é possível fazer uma busca em um banco de dados fotográfico?

– Acho que sim.

– Então, mãos à obra. Junto com a foto da mulher, é claro. Acesse todos os bancos de dados que pudermos pagar para usar.

– Entendido. Mas, se você tem uma foto da mulher, por que também a desenhou?

Kuchin ignorou a pergunta:

– Não gosto de deixar a Europa. Os sotaques dos homens eram inconfundíveis, especialmente o do irlandês.

– Inclusive o do lobista?

– Não, ele é diferente. – Kuchin esfregou a mandíbula. – Já fui golpeado antes, mas nunca com tanta força assim. Estou surpreso por meu maxilar não estar quebrado. Um homem forte. Um homem perigoso.

– E nocauteou Manuel com a maior facilidade. E, depois, atacou Pascal como se ele fosse feito de papelão, e você sabe como Pascal é bom. E me atirou longe como se eu fosse uma criança. O braço dele parecia de aço.

– Na verdade, não foi a força dele que me impressionou – replicou Kuchin. – Existem muitos homens fortes, até mais fortes do que ele. Fiquei impressionado foi com sua rapidez e habilidade. Havia três homens armados... quatro, contando você, Alan. Eram três homens que têm larga experiência com armas. Mesmo assim, ele conseguiu vencê-los.

– Ele também teve sorte, sem dúvida.

– Sempre há um elemento de sorte. Mas foi um acaso ou ele criou essa situação de sorte? É mais provável que tenha sido a segunda opção. Ele surgiu com os cotovelos levantados horizontalmente, uma técnica de combate clássica em lugares fechados, que permitiu que ele atacasse rápido e com força máxima, pois podia usar seu peso e o ímpeto do torso e dos quadris. E é melhor golpear com o cotovelo dobrado do que com o punho. Há muitos ossinhos na mão que podem se partir e inutilizá-la. Já o cotovelo é formado por apenas três ossos relativamente grandes e articulados. O cotovelo sofre maior risco de ruptura quando está estendido. Se você cair com a palma da mão para baixo e o braço esticado, o cotovelo é que vai sofrer o impacto da queda. Mas, se você dobrar o braço – Kuchin mostrou como –, esses pontos de estresse desaparecem e a resistência e a força de ataque são formidáveis.

– Você parece saber muito.

– Sei o suficiente. E ele ficou se deslocando o tempo todo, tornando muito difícil mirar.

– Se ele é tão bom assim, talvez seja melhor deixar isso de lado.

Kuchin o encarou, decepcionado.

– Eles me amarraram a uma cripta. Iam me colocar em um túmulo com ossos velhos. Violaram território sagrado em uma igreja católica. Meu ataque precisa ser mais forte do que o deles. Portanto, daqui em diante, essa é a única coisa em que vou me concentrar.

– Mas e os negócios?

– É para isso que tenho você.

Ele pôs um braço em volta dos ombros estreitos do outro homem e deu um aperto. Rice soltou um leve gemido, pois todo o seu corpo estava dolorido devido ao encontro com Shaw.

– Você vai fazer um bom trabalho. E, se eu vir algum sinal de que você está extrapolando sua autoridade ou tentando me substituir no comando, lembre-se de que os cachorros que usei com Abdul-Majeed ainda estão à minha disposição.

– Evan, e quanto àquele nome, Fedir Kuchin? – indagou Rice, nervoso.

– Se eu fosse você, nunca mais pensaria nisso.

 

O avião não aterrissou em Montreal. Kuchin havia ordenado uma mudança no plano de voo. Eles desceram em uma longa faixa de asfalto que Kuchin construíra bem mais ao leste, na província canadense de Terra Nova e Labrador.

Rice olhou pela janela enquanto o avião taxiava.

– Evan, o que está acontecendo? Por que estamos aterrissando aqui?

– Eu não vou seguir para Montreal. O avião, sim.

Ele se levantou e vestiu um sobretudo.

– Mas por que aqui?

– E você não vai embora neste avião.

Rice empalideceu.

– Não estou entendendo.

– Infelizmente, não há outra saída. Meu jato pode ser seguido com facilidade.

– Vou ter que dirigir até Montreal? É muita estrada.

– São mais de mil quilômetros. Mas você terá um motorista e não vai precisar percorrer todo esse caminho. Em Goose Bay, vou contratar outro avião para levá-lo até Montreal. Você vai chegar lá em tempo para um jantar tardio. Mas não irá para casa nem para o escritório. Vai ficar em um esconderijo fora da cidade. Conduzirá os negócios de lá. E dois dos meus seguranças ficarão com você o tempo todo. Entendido?

– Claro. Você acha que essas precauções são mesmo necessárias?

– Levando em consideração que quase fui jogado em uma cripta nas catacumbas de uma igreja em Gordes, acho que são. – Ele pôs uma das mãos sobre o ombro do assistente. – Estarei monitorando de perto seu progresso. Você pode ficar no avião. Mandarei o veículo até você.

A porta do jatinho se abriu, Kuchin desceu a escada, entrando em um Escalade à sua espera, e, em seguida, o carro se afastou.

Ele manteve o olhar decididamente voltado para a frente. Se aquelas pessoas sabiam que ele era Fedir Kuchin, qual seria o próximo passo delas? Como estavam dispostas a matá-lo, não acreditava que tivessem ligação com uma organização oficial como a Interpol ou o FBI. Nem mesmo com o sucessor da KGB, o Serviço Federal de Segurança da Rússia. Esse órgão já perseguira antigos alvos soviéticos, que foram mandados para a prisão ou executados depois de um julgamento público. Apesar disso, pensou Kuchin com desprezo, um ex-oficial da KGB estava no comando do país. A democracia podia ser nojenta.

Porém, e se estivesse enganado e elas fossem de algum órgão oficial? Poderiam pegá-lo e desmantelar tudo. Talvez esperassem que o jatinho pousasse em Montreal. Bem, ele estaria vazio e ele confiava que os pilotos não revelariam sua localização, pois os dois trabalhavam para sua organização havia muitos anos e Kuchin sabia onde suas famílias moravam.

Ele construíra um complexo em um lugar remoto a quase 40 quilômetros dali. Ao longo dos anos, Kuchin tinha acumulado milhares de hectares, erigindo sua casa no meio da tundra mais gélida e escarpada fora da Sibéria. Era um terreno inóspito, mas, ainda assim, lhe transmitia conforto e acolhimento. Junto com Rice, já havia desenvolvido muitos modelos de negócios de sucesso naquele lugar ao longo dos últimos quatro anos. Ali, ele podia refletir. E planejar o contra-ataque.