Livrai-nos do mal
Capítulo 6
REGGIE CAMINHOU POR PASSAGENS que cheiravam a mofo até chegar a portas duplas de madeira com pirogravuras de livros em cada um dos lados. Ela entrou na biblioteca. Havia três paredes de livros com escadas que corriam em trilhos de latão manchados. Uma quarta parede estava coberta de velhas fotos e retratos de homens e mulheres mortos fazia muito tempo. Destacava-se no aposento uma lareira de pedra que ia do chão ao teto, uma das poucas que funcionavam bem naquela casa. Mesmo assim, costumava lançar fumaça para dentro do aposento. Reggie parou para se aquecer diante das chamas antes de se virar e olhar os que se encontravam ao redor da grande mesa em estilo espanhol, que ficava no centro do cômodo.
Ela acenou com a cabeça para cada uma das pessoas, todas mais velhas do que ela, exceto Dominic, que parecia relaxado na outra extremidade da mesa. Em seguida, seu olhar se fixou no senhor à cabeceira. Miles Mallory usava calças e paletó de tweed, uma gravata-borboleta torta, uma camisa amassada com uma das pontas do colarinho virada para cima, sapatos confortáveis de bico quadrado e meias que não chegavam a cobrir suas canelas gorduchas e sem pelos. Sua enorme cabeça era circundada por uma linha de cabelos grisalhos desalinhados que havia meses não eram cortados. Sua barba, no entanto, estava bem aparada e apresentava um pequeno pedaço creme perto do queixo. Os olhos eram verdes e inquisidores; os óculos, de armação preta e grossa; as bochechas, caídas; a boca, pequena e petulante; os dentes, manchados de tabaco e um pouco tortos. Em sua mão direita, havia um pequeno cachimbo curvo e ele estava ocupado em enchê-lo com uma mistura fétida de tabaco, que logo empestearia a sala.
– O senhor parece empolgado, professor Mallory – comentou Reggie em tom agradável.
– Já elogiei o jovem Dominic. Permita-me agora ser o primeiro a parabenizá-la por seu excelente trabalho na Argentina.
– Sinto muito, professor, mas me antecipei ao senhor – replicou Whit, entrando no aposento e entregando a Reggie uma xícara de café tão quente que ainda soltava vapor, embora a cozinha ficasse a cerca de um quilômetro da biblioteca.
– Ah, tudo bem – disse Mallory, simpático. – Permita-me, então, ser o segundo.
Reggie tomou um gole de café. Ela nunca se sentia à vontade falando do que fizera mesmo com pessoas que a tinham ajudado. No entanto, matar alguém que exterminara tantas pessoas não suscitava as emoções humanas costumeiras. Para ela, bem como para todos ao redor daquela mesa, seus alvos haviam perdido todo e qualquer direito por causa dos atos odiosos perpetrados. Era como discutir o abate de um cão raivoso. Mas talvez aquela fosse uma comparação injusta, pensou Reggie. Para o cachorro.
– Obrigada. Porém, infelizmente, tenho certeza de que, apesar de tudo, Herr Huber vai descansar em paz.
Mallory retrucou com frieza:
– Duvido muito que o coronel esteja descansando neste momento. As chamas, sem dúvida, queimam muito.
– Se é o que o senhor diz... Teologia nunca foi meu ponto forte. – Ela se sentou em uma cadeira. – Mas Huber agora é passado. Vamos seguir em frente.
– Sim – concordou Mallory com avidez. – Sim. Exatamente. Agora, seguimos em frente.
Whit deu um sorriso mordaz.
– Vamos ver se conseguimos domar o monstro mais uma vez sem nos sujarmos.
Mallory fez um sinal com a cabeça para a mulher magra e de cabelos claros sentada à sua direita.
– Liza, por gentileza.
Ela distribuiu várias pastas de papel pardo cheias de cópias de documentos presas por elásticos vermelho-sangue.
– Sabe, professor – disse Whit –, todos esses dados cabem em um pen drive e podem ser exibidos em nossos laptops. É muito mais conveniente do que transportar tudo isso no meu carro.
– Laptops podem ser perdidos e danificados. Até mesmo violados. “Hackeados”, acho que é o termo preciso – replicou Mallory com uma ponta de indignação, mas também com o ar inseguro de uma pessoa para a qual os computadores permanecem um enigma.
Whit levantou a pasta.
– Papel também pode ser roubado com uma certa facilidade, ainda mais 10 quilos de documentos.
– Bem, vamos ao que interessa – falou Mallory com rispidez, ignorando o comentário.
Ele segurou a foto de um homem na casa dos 60 anos, de nariz comprido, cabeça raspada e uma expressão que suscitava medo.
– Evan Waller – apresentou Mallory. – Acredita-se que tenha nascido no Canadá há 63 anos, mas essa informação é incorreta. Tem a reputação de um empresário honesto. Mas...
– Mas qual é a verdade por trás disso? – cortou Whit, tirando o revólver do coldre e o colocando sobre a mesa.
Se Mallory ficou incomodado porque Whit interrompeu ou mostrou a arma, não o demonstrou. Seus olhos brilharam quando ele prosseguiu:
– Evan Waller, na verdade, é Fedir Kuchin.
Quando ele olhou à sua volta e não percebeu nenhuma reação no grupo, ficou decepcionado.
– Nascido na Ucrânia, ele entrou para o Exército e, depois, para a polícia secreta nacional que se reportava diretamente à KGB.
Essa revelação também não gerou nenhum comentário, então Mallory acrescentou irritado:
– Vocês nunca ouviram falar do Holodomor? – Ele olhou para a extremidade oposta da mesa. – Dominic, sem dúvida na universidade falaram sobre isso – acrescentou, suplicante.
Dominic balançou a cabeça com uma expressão de dor por ter decepcionado o velho.
– Holodomor é uma palavra ucraniana que significa “morrer de fome”. Stalin matou quase dez milhões de ucranianos no início da década de 1930 por inanição em massa. Isso corresponde a quase um terço das crianças da Ucrânia.
– Como ele conseguiu fazer isso? – perguntou Whit, enojado.
– Stalin enviou tropas e agentes da polícia secreta que levaram todos os animais, alimentos, sementes e ferramentas, em especial na região do rio Dnieper, conhecida por ser o celeiro da Europa. Depois, fechou as fronteiras para evitar fugas e reabastecimento, e também para impedir que as notícias chegassem ao resto do mundo. Não havia internet naquela época, óbvio. Cidades inteiras morreram de fome; quase um quarto da população rural do país se extinguiu em menos de dois anos.
– Stalin rivalizava com Hitler em termos de atrocidade – comentou Liza Kent, categórica.
Com quase 50 anos, ela parecia muito antiquada com seus sapatos grosseiros, saia longa e blusa branca com babados. Os cabelos louro-claros, entremeados de mechas grisalhas, eram muito finos e estavam cortados à altura dos ombros, mas ela os prendia em um coque apertado. O rosto não tinha traços notáveis e os penetrantes olhos cor de âmbar ficavam escondidos atrás de lentes grossas engastadas em uma armação muito conservadora. Liza passaria despercebida em quase qualquer lugar. De fato, ela havia trabalhado no serviço secreto britânico por doze anos, realizando operações de contrainteligência de alto nível em três continentes, e tinha uma bala de rifle romena perigosamente alojada perto da espinha dorsal. Aquele ferimento a forçara a se aposentar antes do tempo, com uma pensão modesta do governo. Ela logo se cansou de zanzar pelo seu pequeno jardim e se juntou ao professor.
– Por que ele fez isso? – questionou Dominic.
– Por que Stalin matava, é isso que você quer saber? – perguntou Mallory em tom agressivo. – Por que uma cobra ataca? Ou por que um tubarão-branco devora sua presa com selvageria? Era o que ele fazia, em uma escala maior do que qualquer outra pessoa antes ou depois dele. Um louco.
– Mas Stalin também era um louco com um motivo – interveio Reggie, correndo o olhar pela mesa. – Ele estava tentando eliminar o nacionalismo ucraniano. E também evitar que os fazendeiros resistissem à coletivização da agricultura. Dizem que não há nenhum ucraniano vivo que não tenha perdido um parente por causa do Holodomor.
Mallory sorriu, satisfeito.
– Você é uma ótima estudiosa de história, Reggie.
Ela lançou um olhar duro para Mallory.
– Isso não é história, professor, é horror.
Whit parecia confuso.
– Não estou entendendo. Tudo isso aconteceu na década de 1930, certo? Se ele só tem 63 anos, o tal Waller, ou Fedir Kuchin, nem havia nascido naquela época.
Mallory uniu as pontas dos dedos.
– Beckham, você acha que o genocídio parou só porque Stalin morreu? O regime comunista persistiu durante várias décadas após o último suspiro do monstro.
– É aí que Fedir Kuchin entra em cena? – indagou Reggie em voz baixa.
Mallory se recostou na cadeira e assentiu.
– Ele se alistou no Exército ainda jovem e teve uma ascensão relativamente rápida. Por causa de sua inteligência excepcional e crueldade inabalável, ele logo foi recrutado para fazer trabalhos de espionagem e acabou na polícia secreta, na qual galgou posições até se tornar um déspota. Isso aconteceu mais ou menos na época em que o Exército Vermelho encontrou um adversário à altura e começou sua derrocada no Afeganistão. Além disso, outros países-satélites da União Soviética, como a Polônia, começaram a fazer pressão para se libertarem e persistiram até a queda do comunismo. Kuchin recebia ordens do Kremlin para fazer todo o possível para esmagar qualquer tipo de oposição. Embora seus superiores tenham recebido grande parte do crédito, ele se tornou o homem em campo que manteria Kiev alinhada a Moscou. E chegou muito perto de atingir seu objetivo.
– Como? – perguntou Whit.
Em resposta, Mallory abriu o dossiê e sinalizou para que os outros fizessem o mesmo.
– Leiam o primeiro relatório e, em seguida, vejam a série de imagens que o acompanha. Se isso não responder à pergunta, acho que nada será suficiente.
Por alguns minutos, a sala ficou em silêncio, exceto por uns poucos arquejos toda vez que alguém se sobressaltava com as fotos. Reggie fechou o dossiê com as mãos trêmulas. Ela encarara muitos monstros, mas o nível de maldade ainda conseguia surpreendê-la e abalá-la. Tinha medo de que um dia isso não acontecesse mais e ela perdesse sua humanidade. Às vezes, receava já tê-la perdido.
– A versão dele do Holodomor – comentou Whit em uma voz sumida. – Só que ele espalhou toxinas pelo ar e por reservatórios de água, e milhares de pessoas foram forçadas a entrar em poços para serem queimadas vivas. Filho da puta!
– E Kuchin esterilizou milhares de garotas – acrescentou Reggie baixinho, as rugas em volta dos seus olhos se intensificando. – Para que elas nunca pudessem gerar homens para lutar contra os soviéticos.
Mallory bateu com o dedo no dossiê.
– Além de centenas de outras atrocidades desse tipo. Como em geral acontece com homens perspicazes, Kuchin viu a derrocada se aproximando antes de seus superiores. Forjou a própria morte e fugiu para a Ásia e, de lá, para a Austrália. Seguiu para o Canadá, onde construiu uma nova vida com documentos falsos e um carisma que conseguiu ocultar sua natureza sádica. O mundo acha que ele é um empresário honesto e altamente bem-sucedido, e não o carniceiro e criminoso de guerra que de fato é. Foram necessários três anos para reunir este dossiê.
– E onde ele está agora? – perguntou Reggie, encarando uma foto do dossiê que mostrava os restos de uma vala comum repleta de esqueletos de crianças.
Mallory deu um trago no cachimbo e uma nuvem de fumaça se levantou sobre sua cabeça.
– Neste verão, ele vai passar as férias na Provence. No vilarejo de Gordes, para ser mais exato.
– Fico imaginando qual deve ser a sensação... – disse Reggie, olhando para o nada.
– Que sensação, Reg? – indagou Whit, curioso.
Ela fitou mais uma vez a foto dos pequenos esqueletos.
– A sensação de morrer em um lugar tão bonito quanto a Provence, é claro.