Livrai-nos do mal
Capítulo 24
A PESSOA ESTAVA PERTO DEMAIS, a poucos centímetros de distância, não abrindo espaço suficiente para se esquivar de um contra-ataque repentino. Esse foi o primeiro erro. O segundo foi não ter puxado o gatilho e o matado logo. O polegar de Shaw o travou, impedindo o disparo. Seus outros quatro dedos agarraram o cano, puxando a arma para baixo e apontando-a para o chão. O erro final foi não ter soltado a pistola. Ele a puxou, inclinou o corpo para a frente e o adversário passou voando por cima da sua cabeça, aterrissando com força na grama. Shaw roubou a arma, montou sobre a pessoa e apontou a pistola para a cabeça do adversário.
– Janie?
Ela estava de tênis, roupão e, pelo que Shaw podia ver, não muito mais do que isso. Com os cabelos caídos sobre o rosto, arfava, provavelmente por causa do impacto com o solo.
Uma joelhada no rim esquerdo causou uma dor aguda nas costas de Shaw. Ele caiu de lado e ficou encolhido na grama. Os dois se levantaram devagar. Shaw continuou segurando a arma.
– Que diabos você está fazendo aqui? – perguntou ela, olhando ora para a arma, ora para o rosto do homem.
– Vi luzes acesas na mansão ao lado. Então, pensei ter visto um homem pulando o muro para o seu terreno.
Ela olhou em volta.
– De onde você viu tudo isso?
Shaw apontou para as colinas.
– Eu estava dando um passeio. Lá de cima, dá para ver claramente sua mansão.
– Como você sabia onde eu estava hospedada? – indagou ela com rispidez.
Ele pareceu encabulado.
– Tudo bem, eu confesso: segui você até a sua casa na noite em que jantamos, mas só porque queria ter certeza de que você chegaria bem. Você sabe, uma mulher rica viajando sozinha... Fiquei preocupado. – Ele levantou a arma. – Estou um pouco surpreso por você ter uma destas.
– Como você disse, sou rica e estou viajando sozinha. E tenho porte de arma.
– É mesmo? – Ele devolveu a arma à moça. – Achei que a França fosse muito rígida quanto a isso.
– O dinheiro resolve muitos problemas – afirmou ela friamente.
Shaw esfregou as costas.
– Deixe-me adivinhar: além de um curso de idiomas de imersão, você também tem tempo para praticar artes marciais.
Janie desarmou a pistola e a colocou no bolso do roupão, fechando-o ainda mais apertado.
– Ouvi algo no quintal dos fundos, mas não vi nenhum homem pular o muro. Quer dizer, sem contar você.
– Mas você deve ter visto as luzes se acenderem na casa ao lado. E tem um furgão lá na frente com dois homens.
Ela olhou para o muro que separava as duas mansões.
– Talvez sim... não tenho certeza. – Ela voltou a olhar para ele. – Então, dá para ver minha casa lá das colinas?
– Dá. Os ônibus param lá todos os dias e os turistas tiram fotos das mansões, do vale e das montanhas.
Por algum motivo, Shaw sentia que Janie já sabia de tudo aquilo. Isso e o fato de ela estar com uma arma nas mãos reacenderam suas suspeitas.
– Sua piscina é a única que pode ser vista totalmente. A da casa ao lado fica quase toda escondida por uma garagem e algumas árvores.
Janie olhou para a água escura.
– A piscina? – Ela lhe lançou um olhar acusador. – Então, você me viu nadando? E o que fiz depois?
Shaw não hesitou.
– Só avistei o sujeito. Por isso desci até aqui, para ter certeza de que você estava bem. Eu teria batido na porta da frente, mas vi os caras da casa ao lado e eu não sabia ao certo o que estava acontecendo. E já é mais de uma da madrugada.
– Sim. Estou surpresa por você ainda estar acordado.
– É, também fiquei surpreso em ver você. Acho que ainda estou no fuso dos Estados Unidos. Você tem certeza de que não viu ninguém?
– Tenho, e as portas estão todas trancadas. – Ela fez uma pausa. – Eu não sabia que lobistas eram tão bons com defesa pessoal e armas.
Shaw deu um risinho.
– Foi tudo sorte. Quando senti o cano na minha cabeça, meio que surtei. A última vez que disparei uma arma foi aos 13 anos. Era um rifle calibre 22 e os alvos eram latas em cima das estacas de uma cerca. Mas onde você aprendeu a ser tão sorrateira? Nem ouvi você se aproximar.
Shaw achava impossível que alguém o surpreendesse daquele jeito.
– Fiz balé. Caminho com suavidade.
Como Janie não disse mais nada, ele tocou-a de leve no braço e comentou:
– Fico feliz que você esteja bem. É melhor eu ir agora.
– Talvez seja melhor ver se os homens ainda estão lá fora – falou ela, indo em direção à casa.
Shaw a seguiu calado, notando a mancha de grama na parte de trás do roupão. A casa estava escura e ela não acendeu nenhuma luz enquanto ambos se deslocavam. Ele percebeu que Janie tinha uma ótima visão noturna. Chegaram ao aposento na parte frontal da mansão, cuja porta dupla de carvalho se abria para o exterior. O teto do cômodo era abobadado, com escoras curvas de madeira em um estilo comum nas velhas casas europeias. As paredes internas eram grossas, com um revestimento de estuque, e mantinham o ambiente fresco ou aquecido conforme a necessidade. O mobiliário era eclético, caro e abundante ao ponto de dar uma leve impressão de entulhamento, mas também de aconchego. À esquerda, Shaw notou a escada de pedra em caracol que dava acesso aos outros pisos. Muito espaço para uma só pessoa.
Eles se aproximaram da porta e Shaw a observou afastar uma cortina da estreita janela ao lado da porta. Olhou por cima do ombro da moça. Ficou aliviado ao ver que o Citroën ainda estava lá, com dois vultos nos bancos da frente.
Janie fechou a cortina e recuou um passo, virando-se para ele.
– Obrigada pela preocupação, Bill.
– De nada. Você tem alguma ideia de quem são esses sujeitos?
Ela balançou a cabeça.
– Talvez seja melhor avisar a polícia.
– Talvez – concordou Shaw.
Ele não tinha nenhuma intenção de fazer isso e algo o fez suspeitar de que ela também não.
– Bem, é melhor eu ir embora. Você se importa se eu sair pelo mesmo caminho que usei para entrar? Esses sujeitos parecem barras-pesadas demais para o meu gosto.
Janie assentiu sem prestar muita atenção, olhando para o rosto dele.
– Tenho certeza de que você poderia dar conta dessa situação perfeitamente.
Ela o seguiu até os fundos e Shaw usou a jaqueta como proteção para subir no muro. Quando ele chegou lá em cima, Janie comentou:
– Quem sabe a gente não se encontra em breve?
– É. Sinto que, depois desta noite, criamos um laço.
Ela pareceu forçar um sorriso.
– Concordo.
– Estou planejando tomar café com croissants na pequena padaria da aldeia por volta das nove amanhã de manhã. Por que não nos encontramos lá?
Assim que ele sumiu atrás do muro, Reggie tirou o roupão, deixando à mostra shorts escuros e uma camiseta azul-marinho. Esperou por um tempo antes de entrar na mansão e sair por uma porta no nível inferior que dava na via pública. Encontrando o mesmo ponto cego que Shaw havia descoberto, ela passou pelos homens do furgão e começou a segui-lo. Ele pegou o atalho para o vilarejo e foi percorrendo devagar as ruas sinuosas de volta para o hotel. Se sabia da presença de Reggie, não deu nenhuma indicação.
Ela interrompeu a perseguição quando Shaw adentrou o hotel. Pelo menos agora sabia onde ele estava hospedado. Retornou à mansão pelo mesmo caminho. Encontrou o roupão no mesmo lugar onde o havia deixado, em cima de uma mesa, e pegou a arma com cuidado, colocando-a em um saco plástico. As digitais de Bill estavam no cano.
Revistou o lugar de cima a baixo depois de trancar todas as portas. Satisfeita, vestiu uma camiseta comprida, subiu na cama e fez uma ligação.
Whit respondeu no segundo toque. Sua voz não parecia sonolenta. Ele e Dominic estavam em um chalé isolado a cerca de 15 quilômetros. Ela o informou sobre os eventos da noite.
– Não gosto desse cara – opinou Whit.
– Havia de fato dois homens na frente da casa.
– Sim, mas você ainda não sabe de que lado ele está. Acho que podemos deduzir que ele não é nenhum lobista americano. Toda a missão pode estar a perigo agora.
– Não acho que ele trabalhe para Waller, se é isso que você quer dizer. Ele não teria me indicado os seguranças e, depois, me avisado sobre o homem espiando.
– Se ele não está com Waller, com quem está afinal?
– Não sei. Tenho as digitais dele na minha arma e vou mandá-las para você. Vamos ver se conseguimos alguma informação.
– Tudo bem, posso pegá-la amanhã. Mas, Reg, já é muito difícil enfrentar Kuchin. Não queremos outra encrenca.
Ela desligou o telefone e se cobriu com o lençol. Mas não conseguiu dormir. Levantou, foi até a janela, abriu-a e olhou para fora. No último andar da mansão, tinha uma vista excelente de Gordes. Lá em cima, estava um homem alto com o qual acabara de lutar. Ele podia tê-la matado, mas não o fez. Reggie nunca vira ninguém tão rápido. Nem Dominic nem Whit. Nem ela mesma.
Quem é ele?
– Droga – murmurou antes de fechar a janela e se jogar na cama com um longo gemido.
Aquela complicação era a última coisa de que precisava naquele momento, se, de alguma maneira, fosse atrapalhar a captura de Kuchin. Reggie demorou mais uma hora para pegar no sono.
Em seu quarto, Shaw havia acabado de falar com Frank, relatando o que acontecera. Em seguida, tirou a roupa até ficar só de cuecas, mas não conseguiu dormir. Deitado, ele às vezes sentia dificuldade em respirar por causa de um ataque violento ao seu pescoço desferido por um homem chamado Caesar. Os músculos de Shaw eram longos e fibrosos e, na verdade, ele era mais forte do que parecia. Só que o gigante Caesar era ainda mais poderoso. No entanto, em seu confronto, Shaw fora auxiliado por fontes inesperadas. Amor. Ódio. Raiva. Mas sobretudo ódio e raiva. O resultado era que ele estava lá e Caesar, não.
Levantou-se e abriu a janela para deixar que um pouco de ar fresco entrasse. Não era possível ver as mansões lá embaixo, mas podia visualizá-las em sua mente.
Então, quem era aquela mulher e por que ela estava ali? Talvez fosse apenas quem dizia ser. Uma viajante rica e solitária poderia mesmo carregar uma arma – não era algo absurdo. E a pesquisa sobre ela no banco de dados não dera nenhum resultado. De súbito, uma imagem se insinuou em sua mente e ele tentou afastá-la: o maiô sendo tirado, revelando o torso longo e bronzeado e as nádegas lisas e bem delineadas. Ele foi tomado pela culpa. Voltou para a cama e, enfim, pegou no sono.