Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 99 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 97

 

ALAN RICE GRITOU E agarrou a própria perna. Uma bala de alto calibre havia penetrado em sua carne e estilhaçado o fêmur. Ele caiu, saiu rolando e parou escorado por uma pequena rocha. Shaw jogou Katie de bruços atrás de uma elevação do solo. Whit e Reggie também se protegeram. Shaw tentou avistar algo.

– Alguém viu a centelha do cano? – perguntou ele.

Ninguém vira.

– Rice, vá para trás dessa pedra!

– Minha perna está fraturada!

– Você vai ter mais fraturas se não for para trás da pedra.

Arrastando-se, Rice já estava quase abrigado quando outro projétil lhe atingiu o ombro.

– Merda! – exclamou Shaw.

Ele deu um salto e correu em zigue-zague até Rice, puxando-o para trás da rocha.

Os dois ferimentos sangravam muito e a consciência de Rice oscilava por causa da dor. O osso estava exposto na coxa, com fratura múltipla. Aparentemente, não rasgara a artéria femoral, senão Rice já teria morrido. Usando sua faca, Shaw rasgou uma tira de tecido do próprio agasalho e fez um torniquete improvisado, amarrando-o um pouco acima da coxa. O fluxo de sangue diminuiu só um pouco.

– Vou morrer? – perguntou Rice, arquejando.

– Vou tentar tirar você daqui. Você consegue ficar em pé?

– Ele vai atirar em nós! Vai matar nós dois!

Shaw olhou para Rice. Ele estava entrando em choque e não havia nada a ser feito. Ao ouvir o som dos cães, Shaw congelou. Daquela vez, não eram latidos, mas rosnados, que o deixaram arrepiado. Ele espiou por cima da rocha.

– Shaw! – berraram Katie e Reggie ao mesmo tempo.

Dois dos maiores e mais ferozes cães que Shaw já vira corriam em sua direção, avançando como se o terreno acidentado fosse um carpete liso.

– Shaw, corra! – gritou Reggie.

Ele agarrou a faca, processando suas possíveis ações. Ficou agachado, sem se levantar totalmente, porque não sabia se os cães eram uma armadilha para que ele ficasse ao alcance de um tiro. Um dos animais pulou para cima dele e Shaw o atacou com a faca, abrindo um talho no enorme peito do cachorro de 90 quilos, porém foi apenas um ferimento superficial. Com o braço livre, empurrou o bicho, que fez um arco no ar e caiu com força no chão, mas não ficou estirado.

Com velocidade e agilidade que nenhum ser humano podia equiparar, o cão rolou, se equilibrou no terreno rochoso, virou-se em uma fração de segundo, acelerou e pulou, colidindo frontalmente com Shaw e rasgando-lhe o braço. Shaw se levantou depressa porque, se ficasse no chão, não teria chance. Seu punho acertou o focinho do animal duas vezes, atordoando-o. Os impactos causaram aguilhoadas no braço e no ombro. Usou a faca de novo, fazendo o animal soltar ganidos. Por fim, saltou sobre a rocha e saiu correndo, seus pés escorregando no gelo frágil.

Shaw ficou tenso, imaginando ser atingido por uma bala nas costas ou atacado por trás pelo cão. Em sua mente, ele se via sendo puxado e sentia a mandíbula e o hálito malcheiroso do animal mordendo seu pescoço, seguindo uma tática instintiva para rasgar os grandes vasos sanguíneos e matar a presa. Um verdadeiro pesadelo.

Mas nada disso aconteceu e Shaw logo entendeu por quê.

Rice soltou um grito de gelar os ossos. Shaw se arrependeu de olhar para trás. Ele já vira muita violência em sua vida, mais do que a maioria das pessoas. Mas nada como aquilo.

Um dos cachorros estava com o braço de Rice na boca. O outro havia dilacerado o seu peito, espirrando sangue por toda parte. Shaw visualizou rapidamente o quadro de Goya em que um monstro comia um homem. Mas pinturas a óleo, mesmo criadas pela imaginação de um gênio, não podiam se equiparar ao horror do espetáculo real. Foi só então, com a maior parte do seu corpo destroçado, que Rice enfim morreu.

Shaw alcançou os outros e todos correram o mais rápido possível. Ele praticamente carregava Katie enquanto os quatro escorregavam por aquele perigoso terreno que deveria ser percorrido em um ritmo comedido, cauteloso.

Três quilômetros mais tarde, eles desabaram exaustos, arquejando muito.

– Como? – questionou Whit, se sentando ainda ofegante.

– Não sei – respondeu Shaw. – As manobras dele foram mais rápidas do que as nossas.

Reggie se sentou lentamente.

– Precisamos seguir em frente. Se for necessário pular no estreito e nadar até um barco, é o que vamos fazer. Se ficarmos aqui, vamos morrer.

Whit enfiou a faca na terra.

– Caia na real: estamos mortos. Da próxima vez, nós é que seremos atacados pelos cães. Não temos chance alguma, Reggie.

Shaw se levantou, ajudando Katie a ficar de pé.

– Reggie tem razão. Precisamos seguir em frente.

– Você acha mesmo que isso vai fazer alguma diferença? – perguntou Whit.

– Não, mas vou dar um pouco mais de trabalho para aquele filho da puta. E você?

Revigorado, Whit guardou a faca no bolso e se ergueu com um pulo. Eles correram a toda velocidade rumo à água.