Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 96 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 94

 

RICE PASSOU CORRENDO POR eles, mas logo ficou para trás, massageando um ponto dolorido na altura das costelas. Ele não estava em boa forma. Seria um atraso para os outros, facilitando a vida de Kuchin. Inicialmente, Shaw pensou em abandoná-lo, mas, depois, outra ideia lhe ocorreu e ele desacelerou, pondo a mão embaixo do braço de Rice para ajudá-lo a avançar.

– Mantenha um ritmo. Nem depressa nem devagar demais.

– Tudo bem, tudo bem – disse Rice, ofegante, e começou a se mover de maneira mais sincopada.

Percebendo a intenção de Shaw, Reggie ficou um pouco para trás para se unir aos dois. Whit corria à frente com a cabeça abaixada, sem dúvida ainda pensando em Dominic.

– O que você pode nos dizer sobre este lugar? – indagou Reggie. – Qualquer coisa que nos ajude.

– Tipo o quê? – quis saber Rice.

– Imagino que estamos em Terra Nova ou Labrador – falou Shaw.

– Em Labrador, bem perto do litoral.

– Como você sabia? – perguntou Reggie a Shaw.

– Contei os segundos e calculei a distância.

– Não há nada aí fora – interveio Rice. – Estamos ferrados. Estamos mortos.

Passaram por um pequeno lago. Antes que Shaw pudesse reagir, Reggie empurrou Rice para as águas lodosas. Ele afundou e emergiu arfando. Ela voltou a mergulhá-lo e o segurou lá por um bom tempo.

Quando retornou à superfície, Rice gritou:

– Que diabos você está fazendo?

– Podem ter colocado um rastreador em você. Água e aparelhos eletrônicos não se dão muito bem.

– Boa ideia – elogiou Shaw. – Eu deveria ter pensado nisso.

– Achei que Kuchin seria capaz de pôr um espião entre nós com a desculpa de punir um de seus funcionários.

– Vamos seguir em frente – falou Shaw. – O que mais você pode nos dizer? – acrescentou, continuando a correr.

– Ele também tem cães de caça que seguem qualquer rastro.

– Outro motivo para terem pegado nossas roupas. Por causa dos cães.

– Ele já fez isto antes? Caçar pessoas?

– Bem, sei que ele não caça animais. Uma vez me disse que detestava.

Reggie fez uma careta.

– Aí está a sua resposta: ele tem cães de caça, mas não caça animais.

– Pelo menos não quadrúpedes – completou Shaw.

– Ele é cruel e imprevisível.

– A crueldade já deu para perceber. É a imprevisibilidade que me preocupa. – Shaw olhou à sua volta. – O caminho dos carros é nessa direção em que estamos indo?

– É difícil dizer no escuro, mas acho que sim.

– O que há por perto?

– Nada. Bem, existe um campo de pouso a cerca de 40 quilômetros, mas, da última vez que verifiquei, não tínhamos um avião. Goose Bay talvez seja a cidade mais próxima, mas fica bem longe. Horas de carro, dias a pé.

– Ele tem armas aqui?

– Ele tem um cofre cheio de armas na casa.

– Você sabe a combinação?

– Ah, claro. Está bem aqui no meu bolso.

Shaw deu um tranco no braço de Rice, quase jogando-o no chão.

– Podemos deixar você para trás, para que Kuchin acabe com a sua raça primeiro. É o que você quer? Ou você vai parar com as tiradas sarcásticas e nos ajudar?

– Não sei de nada útil. Já estive aqui várias vezes, mas cheguei e parti de avião. Quase nunca saí da casa. Waller, Kuchin, seja lá qual for seu nome, conhece esta região melhor do que qualquer outra pessoa.

– Muito tranquilizador – observou Reggie com ar soturno.

– Se ele tem cães – disse Shaw –, precisamos dar um jeito nisso.

Eles recomeçaram a correr.

– Como? – questionou Reggie.

– Mudar nosso cheiro.

– Como se faz isso? – perguntou Rice, arfando. – Achei que cães não pudessem ser enganados.

– Qualquer um pode ser enganado, até mesmo cães farejadores. E nós temos uma vantagem.

– Qual?

– Sinta o cheiro.

– Qual?

– Respire fundo.

Ela e Rice obedeceram. O homem quase engasgou e Reggie franziu o nariz.

– Ovos podres – falou ela.

– Dióxido de enxofre – corrigiu Shaw. – Deve haver muitas rochas metamórficas por aqui. Isso significa muito enxofre. Provavelmente, alguns lagos sulfurosos também.

– E daí? – indagou Reggie.

– Vamos nos envolver com esse cheiro. Assim, teremos o mesmo cheiro de todas as coisas por aqui. Não é um plano perfeito, mas talvez consigamos confundir os cães. Não temos muitas opções. Precisamos virar nossos agasalhos do avesso. A cor do forro chama menos atenção do que este amarelo fosforescente.

Shaw correu para falar com Whit. Vinte minutos mais tarde, seguindo um odor mais forte, encontraram um lago raso.

– Precisamos entrar aí? – perguntou Rice.

– Se quiser viver um pouco mais, sim – rebateu Shaw. – Só não beba essa água.

Encharcados, com frio e fedendo, eles continuaram rumo a oeste por mais um pouco até que Shaw os fez parar, frustrado.

– Está tudo errado.

– De que diabos você está falando? – questionou Whit, com os cabelos molhados caindo nos olhos. – Estamos tentando nos manter na dianteira. Ele está vindo, portanto temos que ir para lá. – Ele apontou à frente.

– Isso é exatamente o que Kuchin quer. Ele nos disse para seguir nesta direção. Por que será?

– Uma emboscada? – sugeriu Reggie. – Para nos levar a um lugar sem saída?

– É nisso que estou pensando. Não acredito que ele lute sozinho contra nós.

– E o que nós vamos fazer? – questionou Whit.

– Sempre achei que fosse uma boa tática ir para a esquerda quando o seu adversário espera que você vá para a direita.

– O que isso significa?

– Vamos margear o terreno que acabamos de percorrer e voltar para a casa.

– E se ele já previu isso e resolveu armar uma emboscada lá?

– Então, ele merece vencer.

– Ele vai vencer – choramingou Rice.

De repente, Reggie estendeu a mão e apertou o pescoço de Rice.

– Me diga uma coisa, seu merda: você estava passando a perna em Kuchin?

Rice ficou em silêncio. Ela apertou mais forte.

– Estava?

– Estava.

– E você tentou atirar nele?

Com uma expressão de infelicidade, Rice assentiu.

– Seu merda, por que você não acertou o filho da puta? Vamos embora.