Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 25 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 23

 

SHAW SE DEITOU NO topo da rocha achatada na extremidade de Gordes e consultou o relógio. Era uma da manhã. Ônibus de turistas chegavam durante o dia inteiro, despejando seus passageiros, que ficavam tirando fotos daquele panorama de tirar o fôlego. Shaw também estava ali por causa da vista, só que das mansões de Waller e Janie Collins. Seu binóculo de visão noturna transformava massas sólidas, como pessoas, carros e vasos de plantas, em esquemas tridimensionais, e o resto se tornava uma espécie de verde líquido. Só havia uma luz acesa na casa da mulher, enquanto a de Waller estava totalmente às escuras. Não era de surpreender, já que ele ainda não chegara.

Shaw não via Janie Collins havia dois dias, mas seu interesse por ela só tinha aumentado. Deslocou-se um pouco para aliviar a pressão da rocha pontiaguda contra o ombro. Um movimento lá embaixo o deixou de novo em alerta. Ele focou o binóculo e observou enquanto ela surgia na luz e se dirigia para a escuridão, penetrada com clareza invejável por seu dispositivo óptico. Janie estava descalça e usava um roupão. Quando ela o tirou, Shaw viu que, por baixo, havia um maiô. Janie pôs óculos de natação, prendeu os cabelos e mergulhou com destreza.

Ela se deslocava com braçadas precisas. Ao chegar à outra extremidade, deu uma virada olímpica e retornou. Depois de cinco voltas, Shaw percebeu que Janie contava as braçadas. A luz ambiente era fraca, não havia luar e a iluminação da casa não alcançava a beira da piscina, portanto, ela não tinha como ver as bordas para saber quando virar. Trinta voltas mais tarde, Janie ainda não havia reduzido a velocidade. De vez em quando, Shaw precisava esfregar os olhos porque seus movimentos metódicos eram hipnóticos, como o vaivém de um metrônomo.

A luz que se acendeu fez com que Shaw desviasse a atenção da mulher para a mansão ao lado. Quando o homem entrou no campo de visão, Shaw percebeu que não se tratava de Waller. Não dava para ver as feições com tanta clareza assim, mas era alguém maior e muito mais corpulento do que o canadense. Shaw deduziu que ele fazia parte de uma equipe de segurança. Como previsto por Frank, os guarda-costas de Waller revistariam o lugar e, depois, o blindariam, talvez ficando de sentinela até que o chefe chegasse. Era o mesmo protocolo usado pelo serviço secreto dos Estados Unidos.

Shaw viu o homenzarrão todo vestido de preto sondar o espaço externo, apontando a pistola para os cantos escuros, e depois se encolher e olhar para trás. Em alguns segundos, ele passou pela piscina na parte dos fundos do terreno de Waller e escalou o muro entre as propriedades para espiar do outro lado.

Shaw logo voltou a fitar Janie. Ela acabara de nadar e estava subindo a escada da piscina. Tirou o maiô molhado, deixou-o cair no deque, pegou a toalha e se secou antes de enrolá-la no corpo. Shaw desviou o olhar para o homem no muro. Mesmo com o dispositivo eletrônico, não conseguia ver com clareza suficiente as feições do homem, mas imaginou que ele estivesse satisfeito com aquela mostra de nudez feminina. Sem dúvida o segurança relataria a Waller aquela informação apetitosa. Sem perceber, “Janie” talvez tivesse cometido um erro muito grave.

Uma hora mais tarde, a mansão de Waller ficou às escuras e Shaw ficou observando a casa de Janie. Ele se retesou. No canto mais escuro, perto de uma alcova, pensou ter visto algum movimento. Será que era Janie? Ou será que um dos homens de Waller havia entrado no quintal dos fundos enquanto Shaw estava concentrado na mansão adjacente?

A mente de Shaw fervilhava. Será que a mulher havia trancado a porta corrediça de vidro? Shaw achou que não. Ela confiava demais nos outros, revelava informações pessoais em excesso. Naquele momento, ele esqueceu as vagas suspeitas levantadas a respeito da moça, que devia ser uma herdeira jovem e ingênua descansando ao lado de um psicopata que traficava garotas.

Shaw se levantou às pressas e saiu correndo. Estava usando uma Vespa para seus deslocamentos, mas o barulho do pequeno motor seria problemático àquela hora da noite. Atravessou as ruas desertas de Gordes, passou pela praça da cidade, tomou um atalho ao lado da igreja, cruzou um beco e desceu outra escadaria envelhecida que reduzia ainda mais o tempo do percurso. Ao passar por um anfiteatro no qual aconteciam concertos durante os meses mais quentes, ele pulou os últimos degraus de pedra que o deixariam a 10 metros das duas mansões. Olhou além de uma ponta de pedra que formava a única saliência daquela parede de rocha lisa. A mansão de Janie ficava à direita. A de Waller, à esquerda.

Havia um compacto Renault vermelho de duas portas vazio na frente da casa de Janie. Diante da entrada de Waller, estava um furgão Citroën prateado com dois homens dentro. Um deles devia ser o sujeito que Shaw vira fazendo o reconhecimento pouco antes, mas não dava para ter certeza. Calculou que a linha de visão deles tinha um ponto cego. Andou devagar, testando a validade da suposição. As duas sentinelas não se mexeram. Dobrou uma esquina e atingiu um ponto no qual podia ter acesso aos fundos da casa de Janie.

O muro tinha 1,80 metro, mas, ao contrário da parede entre as duas mansões, havia longas pedras cimentadas verticalmente na parte superior que acrescentavam 50 centímetros à altura, provavelmente devido à proximidade de uma via pública. Assim, era impossível olhar por cima dele. E difícil escalá-lo, como Shaw constatou quando tentou transpor aquela barreira. Desistiu, voltou para a rua, tirou a jaqueta, com a qual cobriu suas mãos escoriadas, e voltou a subir. Passou para o outro lado em uma questão de segundos, caindo na grama macia sem fazer barulho. Agachou-se e se localizou. Estava no quintal lateral margeado por roseiras e buganvílias. A área da piscina ficava um pouco mais acima e podia ser acessada por um pequeno lance de degraus de pedra à esquerda. Ele tornou a vestir a jaqueta, o binóculo guardado no bolso.

Shaw tentou não pensar no que Frank diria se pudesse vê-lo naquele instante. Estava pondo em risco toda a missão. E tinha plena consciência disso. Porém, também sabia que não podia deixar um capanga de Waller atacar aquela moça. Então, atravessou o pequeno gramado e subiu os degraus às pressas.

Sentiu o cano da arma na cabeça um pouco antes de ela ser destravada.