Livrai-nos do mal
Capítulo 36
– POR QUE EU ESTARIA perturbada? – indagou Reggie.
Como ela ficou parada, Shaw se aproximou.
– Desculpe, acho que me enganei. Como foi o jantar?
– Foi agradável. Ele entende bastante de vinhos. Tem bom papo.
– Não tenho dúvidas.
– Algum problema?
– Eu disse que um dos homens dele estava espionando você. Depois, eles bloqueiam a rua como se fossem donos...
– Evan se desculpou – atalhou ela.
– Ah, esse é o nome dele?
– Sim. Ele me falou o sobrenome também, Waller. Ao contrário de você.
– Young. Bill Young. – Ele fez uma pausa. – Alguém revistou meu quarto no dia em que fomos andar de caiaque.
Reggie pareceu genuinamente surpresa com aquela notícia e passou a respeitar ainda mais Shaw, assim como a suspeitar mais dele.
– Levaram alguma coisa?
– Não que eu tenha percebido.
– Por que alguém faria isso?
Shaw deu de ombros.
– Gordes está se mostrando mais empolgante do que eu achei que seria.
Eles começaram a caminhar. À frente, perto da praça do vilarejo, alguns adolescentes tocavam guitarras e bateria e um pequeno grupo se aglomerara ao redor para ouvir a música e jogar dinheiro em um cesto.
– Ele me perguntou sobre você – disse Reggie.
– Sobre mim? Por quê?
Ela sorriu.
– Acho que ele queria saber se você era um concorrente.
– E o que você respondeu?
– Que eu mal o conhecia. O que é verdade.
– Você também não o conhece – salientou Shaw.
– Ele parece ser legal. Quer dizer, é velho demais para mim. – Reggie lhe deu um tapinha no braço. – Ele é até mais velho do que você.
– Por algum motivo, acho que a diferença de idade não é importante para um sujeito como ele.
– Bem, acho que essa decisão cabe a mim, e não a ele. Se eu lhe disser para se afastar, tenho certeza de que vai obedecer.
– Ele não parece ser do tipo que aceita um “não” como resposta.
– Mas você nem o conhece. Nem o encontrou.
– Ele falou sobre o trabalho?
– É um empresário.
– Bem, isso pode significar um monte de coisas.
– Tenho certeza de que vai ficar tudo bem. Afinal de contas, estamos na Provence. O que ele vai fazer?
Shaw desviou rapidamente o olhar, sua têmpora latejando.
– Você está bem?
– O jantar não caiu bem.
– Quer voltar para o hotel? Posso retornar sozinha para a mansão.
– Não, eu a acompanho.
Eles pegaram um atalho e chegaram à casa alguns minutos mais tarde.
– Parece que o rapaz saiu esta noite – ironizou Shaw, olhando para as vagas vazias na frente da mansão de Waller.
– Ele saiu às pressas após o jantar – observou Reggie. – Falou que tinha negócios a tratar.
– Sujeito ocupado.
– Ele vai a Les Baux ver a exposição de Goya e me convidou para ir junto.
Shaw sentiu um frio na espinha.
– E o que você respondeu? – perguntou, com rispidez excessiva.
Reggie olhou-o, perplexa.
– Que ia pensar e diria depois.
Sem pensar direito, ele disparou:
– Você não precisa fazer isso.
– Por que não?
– Porque você vai comigo a Les Baux. Amanhã. Quero ver a mostra. Queria ter convidado você antes.
– É mesmo? – indagou ela, cética.
– Podemos passar o dia juntos. Almoçar em Saint-Rémy, por exemplo.
– Por que você está fazendo isso? Também acha que é algum tipo de competição? Não sou um troféu.
– Eu sei que não, Janie. Se você preferir ir com ele, vou entender perfeitamente. É só que...
– O quê?
– Eu só queria passar mais tempo como você. Só isso. Nenhuma explicação mirabolante. Apenas ficar com você.
As feições de Reggie se abrandaram e ela acariciou o braço de Shaw.
– Como posso recusar um convite feito dessa maneira? – Ela sorriu. – Está marcado. Agora, a pergunta crucial: scooter ou carro?
– É meio longe para a scooter, então acho que o seu Renault seria bem melhor. Pode ser às nove? Apareço na sua casa.
– Vou até a cidade e pego você – propôs ela e Shaw a olhou com ar de curiosidade. – Só acho que seria mais fácil assim. Podemos pegar direto a estrada principal.
– E Waller não saberia de nada.
– Isso mesmo.
– Posso tomar conta de mim mesmo.
– Claro que sim, Bill. – Ela fez uma pausa. – Eu também posso.