Livrai-nos do mal
Capítulo 39
ERA UMA HORA MAIS cedo na Inglaterra. Em Harrowsfield, o professor Mallory estava sentado à frente de uma escrivaninha no escritório adjacente ao seu quarto, pronto para trabalhar a noite toda em um novo projeto a ser executado após o encerramento bem-sucedido do caso Fedir Kuchin. Pitou o cachimbo e soltou nuvens de fumaça em direção ao teto manchado. Um chuvisco começou a cair e o professor parou de fazer anotações em seu caderno, recostando-se na cadeira, perdido em pensamentos.
Ouviu alguém bater à porta.
– Sim?
– Sou eu, professor – anunciou Liza.
Mallory se levantou da cadeira enquanto a porta se abria. Ela estava de chinelos e usava uma camisola longa com um roupão de lã bege por cima. Seus longos cabelos caíam até os ombros.
– Está tudo bem? – perguntou ele.
Liza se sentou em um pequeno sofá gasto de couro em frente ao professor e ele voltou a sua cadeira.
– Acabei de falar com Whit. Ele e Reggie confirmaram o local e os detalhes da fase final foram acertados.
– Excelente. – Mallory a observou. – Mas você parece preocupada.
– Foi algo na voz de Whit. Ele parecia aborrecido. Então, liguei para Reggie. Ela também parecia irritada, mas, quando a pressionei, se recusou a falar sobre o motivo. Tentei contatar Whit de novo, mas ele não atendeu.
– Você acha que eles se desentenderam?
– É o que parece. E não podia ter acontecido em um momento pior.
Mallory pôs o cachimbo de lado, caminhou até a janela e olhou através do vidro molhado de chuva.
– Telefonou para Dominic também?
– Não, ele e Whit estão no mesmo quarto, então achei que ele não poderia abrir o jogo. E não quero criar ainda mais tensão.
Mallory entrelaçou as mãos atrás das costas e lançou um olhar taciturno para a escuridão.
– Eu deveria ter previsto isso. Devia ter mandado Caldwell ou talvez David Hamish no lugar dele. Whit está ressentido, muito mais do que eu imaginava, pelo visto.
– Você acha que isso vai interferir no desempenho de suas funções?
– Se eu soubesse, não estaria preocupado, não é?
Ela olhou para a escrivaninha.
– Fazendo serão novamente?
– Parece que penso melhor depois que escurece.
– Alguma novidade sobre o financiamento?
Surpreso, Mallory se virou.
– Por quê? O que você ouviu?
– As pessoas sabem que é preciso muita verba para manter este lugar funcionando. Não fazemos isto por dinheiro, mas as pessoas recebem salário. E tem a manutenção disto aqui. E também as despesas das missões. O aluguel da mansão onde Reggie está hospedada é inacreditável. É um acúmulo de fatores.
Mallory permaneceu em silêncio por um tempo. Suspirou e voltou a se sentar.
– As coisas estão apertando, não vou negar. Mas o aluguel da mansão não é um problema. Um cavalheiro de origem ucraniana com recursos consideráveis assumiu o custo. E tenho mais um ou dois possíveis investidores. Tudo tem que ser feito com discrição, obviamente.
– Claro. – Liza acrescentou: – Qual foi a última vez que você tirou férias, Miles?
– Férias? – Ele soltou um risinho. – Eu poderia ser incrivelmente piegas e dizer que o que faço aqui são férias, mas vou evitar esse discurso.
– Sério, Miles, qual foi a última vez?
Seu olhar ficou distante.
– Acho que Margaret ainda estava viva. Fui a Roma. E Florença. Ela sempre adorou a estátua de Davi. Ficava sentada olhando para a escultura por horas a fio. Minha querida esposa era uma grande admiradora de Michelangelo. Foi uma visita agradável. Ela adoeceu depois da nossa volta. Morreu seis meses mais tarde.
– Se bem me lembro, isso foi há oito anos.
– Sim, acho que sim. O tempo passa rápido.
– Todos aqui vivem sob pressão, alguns mais do que outros. Você é nosso líder. Não podemos nos dar ao luxo de perdê-lo.
– Estou bem. Tão em forma quanto possível para um velho professor sedentário e acima do peso. – Ele olhou à sua volta. – Adoro este lugar, esta espelunca. Regina também. Eu a ouço caminhar à noite.
– Ela costuma visitar o cemitério. Você sabia?
Mallory anuiu.
– Especialmente o túmulo de Laura R. Campion. Não há nenhuma ligação com ela, pelo que pude descobrir. Porém, Regina parece atraída por essa mulher.
Liza lançou um olhar penetrante para o professor.
– Houve algum motivo especial para você ter recrutado Reggie?
Ele a encarou com seriedade.
– Não. Ela superou todos os obstáculos, mas tudo começa com um simples palpite da minha parte. Nesse aspecto, Regina Campion não tinha nada de excepcional.
Liza o observou por alguns segundos antes de desviar o olhar.
– E o tal americano... – começou Mallory.
– Bill Young.
– Sim, isso não é bom. Uma distração. Talvez mais. Não temos muitas informações sobre o homem. Qualquer um pode se passar por um ex-lobista.
Liza correu a mão pelo cinto do roupão.
– É verdade. A propósito, Whit também relatou que Reggie irá amanhã a Les Baux com o americano.
Mallory pareceu surpreso.
– Les Baux? Para quê?
– Whit não sabia o motivo. Ele acha que Reggie deveria estar se aproximando mais de Kuchin.
– Concordo. Acho que vou ligar para ela agora.
– Não faça isso, Miles.
– Mas...
– Ela está sob forte pressão, mas Reggie é nossa agente de campo com o instinto mais apurado. Acho que podemos confiar nela. Ela merece, não?
Mallory hesitou, tenso, mas por fim relaxou.
– Muito bem. Concordo com essa avaliação – falou secamente.
Liza se levantou e fitou a escrivaninha.
– Suponho que você esteja trabalhando na próxima missão.
– Nunca é bom ficar parado.
– Bem, vamos rezar para que Reggie e os outros voltem vivos para poder começar tudo outra vez.
Ela saiu do escritório em silêncio.
Mallory ficou olhando na direção da porta por alguns instantes e, então, voltou à mesa, remexeu na gaveta e pegou a foto que havia recebido de Whit. Sentou-se e começou a examinar o retrato de Bill Young.
Um pressentimento perturbador surgiu em sua mente. E o motivo era aquele homem. Mallory confiava em Reggie, mas tudo tem um limite. E nada podia interferir na captura de Kuchin. Era uma missão importante demais. Pensou um pouco antes de se decidir. Tirou o celular do bolso e digitou uma mensagem de texto. Ele não era tão inepto com aparelhos eletrônicos quanto aparentava. Guardou o telefone e se recostou na cadeira, esperando ter feito a coisa certa.
Às vezes, naquele tipo de trabalho, só era possível contar com os próprios instintos. Quando você tinha razão, tudo dava certo. E quando você estava enganado? Bem, às vezes pessoas inocentes morriam.