Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 73 de 108

Páginas do PDF

Livrai-nos do mal

Capítulo 71

 

 

FEDIR KUCHIN ESTAVA IMPACIENTE, irritadiço, mais uma vez andando de um lado para o outro, formando um perfeito retângulo com seus passos. Um jatinho alugado havia acabado de aterrissar a 40 quilômetros dali. Em sua mente, visualizava Alan Rice em um utilitário, vindo ao seu encontro com informações que Kuchin desejava mais do que tudo.

Mas ele precisava esperar. Quarenta quilômetros por estradas medíocres. Uma hora, talvez mais, se o tempo piorasse, como previsto.

– Está tudo bem, Sr. Waller?

Kuchin parou de andar e viu Pascal na soleira, de jeans, botas, camisa de flanela e jaqueta de couro. Ele sempre usava jaqueta, ocultando uma arma. Pascal puxara à mãe na estatura e nas feições. A Grécia havia sobrepujado a Ucrânia. Naquele momento, o segurança estava desfigurado pelas manchas roxas e amarelas dos hematomas provocados pelo homem alto nas catacumbas de Gordes.

– Só estou pensando, Pascal. Os outros chegarão em aproximadamente uma hora.

– Sim, senhor.

– Como você está se sentindo?

– Nada mal.

O rapaz era forte, Kuchin não podia negar. Mesmo se seu braço estivesse pendurado apenas por um fiapo de pele, ele só pediria uma aspirina ou, o que era ainda mais provável, não pediria nada.

Ele é durão, como o pai.

O caso havia sido breve, mas memorável. Kuchin fora de férias à Grécia como recompensa por seu bom trabalho na Ucrânia. Naquele dia, o sol brilhava como ele nunca vira na União Soviética. Kuchin levou uma mulher para a cama e, juntos, fizeram um filho. Ele não estava no momento do parto, mas escolheu o nome do filho. Pascal era um nome masculino francês que estava associado à Páscoa, ao Pessach. A opção fora uma homenagem à avó francesa, que também era judia, embora tivesse se convertido ao catolicismo ainda pequena. Kuchin nunca falara a ninguém da etnia da mãe nem de suas crenças religiosas. Nas esferas de poder da União Soviética, aquilo não seria bem-visto.

– Você faz um ótimo trabalho, Pascal – disse Kuchin.

Examinando as feições do outro homem, como costumava fazer às vezes, Kuchin imaginou ter visto uma sombra de si mesmo. Ele enviara o filho a vários conflitos mundo afora como mercenário. Pascal fora treinado por algumas das melhores mentes militares. Lutara em lugares como Kosovo, Eslováquia, Bósnia, Honduras, Colômbia e Somália. E sempre voltara para o pai com um sorriso no rosto e mais experiência gravada no seu DNA. Kuchin também ensinara ao filho alguns velhos truques do ofício, com um certo orgulho paterno, mas não tanto. Afinal, ele era um bastardo, ainda que fosse o único descendente. O rapaz não era inteligente o bastante para dirigir os negócios, mas, sim, para proteger quem os geria.

– Obrigado, senhor. Se precisar de alguma coisa, é só me avisar.

Pascal se retirou e Kuchin esfregou as cicatrizes no pulso, causadas por uma linha de pesca de 10 libras que o havia cortado profundamente na infância. Aquela era a maneira de o pai o ensinar a obedecer. Em geral, as lições eram acompanhadas de gritos embriagados e socos possantes. Ele ficava pendurado como um dos peixes capturados pelo pai, com os pés mal tocando o chão gelado. Aquilo durava horas, até que Kuchin achava que seus tendões da perna e do calcanhar fossem se romper.

Suas costas também carregavam marcas de agressão. Um cinto, uma correia, uma vara de pescar cujas guias metálicas penetraram em sua pele pré-pubescente e a feriram como um exército de mil vespas. Aquelas eram as escolhas do pai, as lições de vida para o filho único.

Sua bondosa mãe sempre lutava por ele e até atacava o marido, muito maior, cujo porte foi transmitido ao filho. Por sua lealdade a Kuchin, a mulher era tratada com ainda mais crueldade. Horas depois dos atos violentos, os dois permaneciam deitados no chão, abraçados, tratando as feridas, partilhando lágrimas, falando baixinho em francês para que o homem não ouvisse, senão certamente voltaria a ficar furioso.

Kuchin havia mentido a Alan Rice e, mais tarde, a Janie Collins ou quem quer que ela fosse. Seu pai não morrera por causa de uma queda no chalé em Roussillon. Aliás, ele nunca estivera em Roussillon nem na França. Uma família pobre da Ucrânia rural naquela época nunca teria dinheiro nem permissão para viajar ao exterior. Não conseguiriam chegar à fronteira. Faltariam os documentos adequados e um motivo válido para deixar o império soviético. Teriam sido executados ali mesmo, seus corpos abandonados como lixo jogado de um caminhão, uma mensagem para os que estivessem pensando em desobedecer. E, Kuchin admitia, aquela mensagem podia ser muito eficaz. Mais tarde, ele mesmo se utilizou dela.

Foi só depois de ascender ao cargo na KGB que Kuchin pôde viajar para fora do país, privilégio permitido apenas aos agentes mais leais como ele. Recebeu uma autorização especial para levar a mãe à sua cidade natal. Àquela altura, ela já estava muito envelhecida, restando-lhe poucos anos de vida. O chalé se achava vazio e Kuchin, embora não tivesse muito dinheiro na época, encontrou uma maneira de comprá-lo. A mãe passou cinco anos felizes ali até morrer. O filho a visitava quando podia. Ela o chamava por um nome francês que, em seu estado mental degradado, acreditava ser o verdadeiro. Soviético até os ossos, Kuchin teria matado qualquer homem que o chamasse daquela maneira, mas, por ser sua mãe, velha e decadente, apenas assentia, derramava algumas lágrimas e lhe segurava a mão murcha, respondendo às perguntas como um francesinho bondoso tentando tranquilizar a amada maman.

Kuchin olhou pela janela do chalé em direção à costa, não muito distante. Seus ouvidos captaram o ruído de borracha esmagando cascalho do outro lado da casa. Ele consultou o relógio. Alan Rice deveria chegar em no máximo vinte minutos. Voltou a contemplar as águas próximas e lhe veio outra lembrança, dessa vez uma feliz.

O mar de Azov era raso demais para o seu plano. Por isso, muitas décadas antes, em uma noite sem lua de outubro, Kuchin, já crescido e muito forte, um estimado membro do temido Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti, ou KGB, arrastou o pai para fora do seu barraco, colocou-o em um barco e partiu para águas profundas. Pelo estreito de Kerch, eles adentraram o mar Negro, de área dez vezes maior que a do Azov. Seu ponto mais profundo tinha mais de 2 mil metros.

Kuchin ancorou o barco e, com três camaradas que foram ajudá-lo, usou a linha de pesca mais forte que conseguiu encontrar para amarrar o velho. Os olhos do Sr. Kuchin se arregalaram de terror ao perceber o que iria acontecer. Presos à linha e aos pesados cabos de metal enrolados em volta de sua cabeça e seus ombros estavam dois tambores de 190 litros cheios de areia. Aquela era uma das técnicas de desova favoritas das forças de segurança soviéticas.

Kuchin encarou o pai pela última vez. Os papéis haviam se invertido. Naquele momento, o grande se tornara pequeno e a criança se tornara um homem forte, mais do que capaz de derrotar o monstro que o punira implacavelmente por tanto tempo. Falou com o pai em dois idiomas. Primeiro, disse as palavras em francês, que sabia que o velho, com grande rancor, podia compreender; depois, em ucraniano, para que o filho da mãe entendesse com total clareza.

Em seguida, os tambores foram atirados por cima da amurada e, segundos mais tarde, os cabos se retesaram e o velho, gritando aterrorizado, foi puxado para o mar. Logo, estava tudo terminado. Kuchin assumiu o timão e os levou de volta ao lugar de onde haviam partido. Só uma vez ele olhou para trás, para o lugar no qual o homem que o atormentara passaria os últimos segundos de sua vida. Depois, virou-se para a frente e não pensou mais nele.

O utilitário surgiu no seu campo de visão. Alan Rice chegava com a informação prometida.

Para Fedir Kuchin, era hora de localizar e pegar outro adversário que ousara prejudicá-lo.