Livrai-nos do mal
Capítulo 65
COM AS MÃOS NA barriga, meio encurvada, Reggie pisou no cais, ajoelhou-se e beijou as tábuas ensebadas enquanto a balsa se afastava em meio a vagalhões. O piloto era um holandês que Shaw conhecia havia anos, mas ele não quis revelar a Reggie como isso se dera. O local de chegada era um ponto de desembarque da Segunda Guerra Mundial esquecido no meio do nada. Shaw e Reggie demoraram quase três dias para voltar à Inglaterra, passando boa parte do tempo dentro da embarcação, que avançava lentamente pelas águas turbulentas.
– Obrigada, Jesus – murmurou Reggie.
– A viagem de barco foi mesmo um pouco desconfortável – observou Shaw, ajudando-a a se levantar.
– Um pouco desconfortável?!
Reggie sentiu o enjoo se intensificar e achou que fosse vomitar de novo, mas conseguiu se aprumar e soltou um longo suspiro, apoiando-se no ombro de Shaw.
– Pensei que fôssemos parar no fundo do mar.
– A última viagem de barco que fiz foi uma travessia do mar da Irlanda, que também estava bem agitado. A mulher que estava comigo não parava de vomitar, como você. Deve ser uma coisa feminina.
– Quem era? – perguntou Reggie, caminhando determinada, mas com passos incertos, ao lado de Shaw.
– Faz muito tempo.
– Como você sabia deste lugar?
– Já me foi útil algumas vezes no passado.
– Uma bela lacuna na segurança das nossas fronteiras.
– Todo país tem pelo menos uma.
Quando eles chegaram à área gramada perto do píer, Reggie verificou o celular. A bateria estava quase no fim e não havia nenhum sinal. Ela não tinha conseguido informar ninguém sobre seu paradeiro.
– Droga! Que maravilha.
– Minha bateria está carregada e tenho sinal. Passe o número que eu ligo.
– Nada disso. Depois você vai ficar com o número gravado no seu telefone.
– Este telefone não é meu. É de um dos seus colegas, o que eu nocauteei com uma privada.
– Você abriu a agenda de contatos?
– Não.
– Você está mentindo.
– Talvez eu esteja.
– Posso ficar com ele? Preciso de um telefone.
– Mais tarde, talvez.
Como Shaw era quase 30 centímetros mais alto e pesava uns 50 quilos a mais do que ela, Reggie não insistiu, mas apenas olhou para a escuridão ao redor.
– Onde estamos?
– A algumas horas de Londres. Providenciei um veículo. Para onde você quer ir agora?
– Acho que devemos nos separar.
– Não é uma boa ideia. Kuchin pode...
– Ele pode fazer muitas coisas, mas nos pegar não é uma delas. Whit tinha razão: iremos atrás dele outra vez.
Shaw a segurou pelo braço.
– Ele quase matou vocês sem nem saber que estavam atrás dele. Agora que ele está em alerta, vocês não têm chance alguma de pegá-lo.
– Já quase o pegamos uma vez.
– Você já parou para pensar por que não deu certo?
– O quê?
– Como aqueles caras conseguiram emboscar vocês?
Reggie se afastou dele.
– Como eu vou saber?
– Você precisa saber. Eles obtiveram informações sigilosas. Estavam esperando vocês. Deve haver um agente duplo.
– Impossível.
– Então me dê outra explicação plausível.
– Cometemos algum erro em campo e eles nos pegaram. Fui à igreja antes para me encontrar com Whit e repassar o plano. Alguém pode ter me seguido.
– Por que suspeitariam de você?
– Você mesmo vive falando das qualidades de Kuchin. Ele deve suspeitar de todo mundo.
– Quando estava amarrado à cripta, Kuchin disse que iria matar todos, mas, por seu tom de voz, dava para perceber que ele já esperava a morte. Além disso, se ele estava desconfiado, por que entrou na igreja com você?
– Usamos a informação sobre os muçulmanos que você nos passou para dar a ele um motivo para entrar lá.
– Simples assim?
– É, simples assim – insistiu ela, na defensiva. – E funcionou.
– Se alguém havia seguido você até a igreja e sabia do plano, por que deixou que ele fosse posto em prática? Assim, Kuchin nunca estaria em perigo.
Reggie fitou o mar escuro e tranquilo por um instante.
– Não tenho como responder a isso. Não sei o porquê.
– Mas a resposta, seja lá qual for, não é algo positivo. Se existe um traidor em seu grupo, Kuchin irá atrás de vocês com facilidade.
Reggie fechou os olhos por um momento e esfregou as têmporas, demonstrando cansaço.
– Ouça, você disse que arrumou um veículo. Pode me levar a Londres? É madrugada e estou cansada, suja e ainda enjoada demais para pensar com clareza.
Shaw a observou antes de dar de ombros.
– Claro, o veículo está logo ali.
“Logo ali”, na verdade, era uma caminhada de quase um quilômetro por um terreno acidentado em meio ao breu até uma estrada. Perto de uma fileira de árvores, estava uma moto com as chaves embaixo do assento. Ele jogou para Reggie um capacete extra.
– Não é uma Vespa, mas serve.
Ela se agarrou a Shaw no caminho de volta à cidade. Ao chegarem em Londres, o céu começava a ficar róseo e trabalhadores matutinos já percorriam as ruas ainda vazias. Alguns poucos táxis e um ônibus articulado também passaram.
Reggie bateu no ombro de Shaw e apontou para uma esquina. Ele desacelerou e parou perto da entrada do metrô. Ela saltou e devolveu o capacete.
– Tem certeza de que não quer ficar comigo?
– Na primeira parada para pôr gasolina, eu fugiria pela janela do banheiro. Por que não poupar tempo e fazer logo o que deve ser feito?
Ele sacou o celular do bolso da jaqueta e o atirou para ela.
– Bonne chance.
– Então é isso? Não vai mais tentar me convencer? Só vai me desejar boa sorte?
Shaw percebeu que uma parte dela queria ficar. Mas ele não estava muito a fim de se envolver em uma discussão.
– Apenas mais uma missão.
Ele deu a partida na moto.
– Obrigada por salvar nossa pele, Shaw – agradeceu ela com uma ponta de culpa.
– Como eu disse, apenas mais uma missão. Reg.
Shaw passou a marcha com o calcanhar, soltou a embreagem e se afastou enquanto Reggie descia devagar a escada para o metrô.