Livrai-nos do mal
Capítulo 90
SHAW ESTAVA DEITADO NO sofá quando tudo aconteceu. Fitou o identificador de chamadas. Reconheceu o número. Era o telefone que Frank dera a Katie. Afundou de novo no sofá. Não ia atender. Para quê? Estava tomado pela culpa por ter dormido com Reggie. Frank o acusara de desrespeitar a memória de Anna, e talvez tivesse razão. Shaw não sabia ao certo como aquilo havia acontecido. Só sabia que desejara tudo. Desejara aquela mulher como nenhuma outra. Talvez nem mesmo Anna. Ele não conseguia explicar; nem tinha energia para tentar.
O celular parou de tocar. Ele se sentou e coçou a cabeça, sentindo-se ainda mais culpado por não ter atendido. O telefone voltou a tocar. Tudo bem, ele tinha uma chance de se redimir.
– Alô.
– Bill Young?
A voz das catacumbas. Muito próxima; parecia estar diante do seu rosto. Shaw quase nunca sentia medo. Não porque fosse imprudente ou se considerasse invulnerável. O medo paralisante fora erradicado da sua psique por meio de um processo acelerado de evolução. Ele passava boa parte do tempo em situações perigosas. Se ficasse paralisado todas as vezes, já estaria morto. Aqueles que não se deixavam dominar pelo medo costumavam viver para encarar mais um dia. Ele era um desses homens.
Naquele momento, Shaw sentiu medo, como não acontecia havia muito tempo. Mas não por si mesmo.
– Como você conseguiu este número?
Ele já sabia a resposta, mas esperava, irracionalmente, estar enganado.
A voz que ouviu em seguida destruiu essa possibilidade.
– Shaw, fique longe. Não faça o que este sujeito disser. Fique longe.
Katie parecia estar aterrorizada, mas também determinada. Com aquelas poucas palavras, Shaw se lembrou de como ela era corajosa. Mesmo ao lado de um dos maiores psicopatas de todos os tempos, ela lhe dizia para a deixar morrer. Frank tinha razão: ele não a merecia.
– Sr. Shaw? – falou Kuchin.
– Como você chegou até ela?
– Não importa. Ela está comigo. Agora, quero você e aquela mulher.
– Só posso responder por mim mesmo.
– Você e aquela mulher – repetiu Kuchin.
– E você vai soltar Katie? Certo, claro. Eu vou. Só eu.
– Se for só você, nem se dê o trabalho. Sua amiga aqui não estará viva para cumprimentá-lo.
– Não sei onde ela está.
– Então, sugiro que você tente encontrá-la de qualquer maneira.
– E se eu não conseguir?
– Tenho uma maleta, Sr. Shaw. É da época em que eu vivia no meu país natal. Nela, estão algumas ferramentas muito persuasivas que utilizo de vez em quando. Usei-as há pouco com um conhecido. Ele não pareceu ter gostado muito. Não costumo utilizar essa maleta com muita frequência, mas abrirei uma exceção para a sua amiga se você não fizer o que estou mandando. Filmarei meu trabalho e mandarei para você.
– E se eu conseguir encontrá-la? O que vai acontecer?
– Voltarei a ligar para esse número daqui a duas horas.
– É pouco tempo.
– Daqui a duas horas – repetiu Kuchin. – Direi exatamente como e quando tudo vai acontecer. E aconselho que você não deixe esta conversa ir além de você e “Janie”. Essa tática seria inútil e causaria a morte da sua amiga da maneira mais dolorosa possível. Você viu as belas imagens nas catacumbas. Sabe do que sou capaz.
– Ouça...
Kuchin desligou. Shaw encarou o telefone como se fosse uma granada sobre a qual ele precisava se jogar para salvar todas as outras pessoas. Mas, aparentemente, ele não podia salvar ninguém. E Reggie? Ele não conseguiria pedir aquilo a ela. Ele não pediria.
Quando Kuchin ligasse de novo, Shaw diria que havia encontrado Reggie. Eles marcariam um encontro. Ele iria sozinho, daria uma desculpa e faria todo o possível para que Katie saísse dali viva. Isso era tudo o que conseguia pensar.
Shaw ouviu uma batida na porta.
– Sim? – Foi a única palavra que conseguiu dizer.
– É Reggie. Podemos conversar?
Merda.
– Eu estava me preparando para dormir.
– Por favor.
Ele hesitou, mas, por fim, abriu a porta e fez sinal para que Reggie entrasse. Ela o olhou com ar de curiosidade.
– Você está bem? Parece prestes a vomitar.
– Estou bem.
Ela se sentou em uma cadeira e ele, no sofá.
– O que foi?
Reggie começou a falar, mas ele não a escutava. Shaw sabia que Kuchin era esperto demais e não cairia no seu plano. Ele ia querer uma prova de que Reggie também iria. Pediria para falar com ela. Shaw nunca conseguiria salvar Katie, a menos que...
– Shaw? Shaw?
Ele levantou a cabeça e viu Reggie em pé ao lado, cutucando seu ombro.
– Sim? – perguntou, meio atordoado.
– Você não ouviu uma palavra sequer.
– Sinto muito. Este não é um bom momento.
Reggie percebeu que ele segurava firme o celular e lançou um olhar desconfiado para Shaw.
– O que está acontecendo? – perguntou Reggie.
– Nada.
Ela se ajoelhou na frente dele e pôs as mãos sobre seus joelhos.
– Algo está acontecendo e você vai me dizer o que é.
Shaw mal conseguia formar as palavras. As imagens de Katie e Kuchin estavam marcadas de forma indelével em sua mente.
– Não é nada. Vou dar um jeito.
– Dar um jeito no quê? – insistiu ela.
– Por favor, você poderia me deixar sozinho?
– É ele, não é?
– Quem?
Reggie agarrou seus ombros fortes e os sacudiu.
– Pelo amor de Deus, fale comigo!
Shaw se levantou abruptamente, fazendo com que ela caísse sentada, e saiu andando.
– Eu disse que vou dar um jeito.
Ela se ergueu e o seguiu.
– Como?
– Vou pensar em algo.
– Ele está com alguém, não está? Alguém importante para você.
Shaw se virou; suspeitas terríveis atravessavam sua mente, mas nenhuma delas fazia sentido.
– Como você...
– Eu adivinhei. Você nunca sentiria medo por si mesmo. Então, só podia ser por outra pessoa. Como ele conseguiu chegar até ela?
Shaw sentou na beirada da cama.
– Não sei.
– Quem é?
– Katie James.
– Já ouvi falar dela.
– Jornalista.
– Isso mesmo. Ele está com ela? Você tem certeza?
– Absoluta.
– E o que ele quer?
– Ele me quer. – Ele hesitou, passando a língua pelos lábios. – E quer você.
– Um pacote?
– Eu disse que não sabia onde você estava.
– Mas não foi suficiente, não é?
– O que você acha?
– Então, onde e quando?
– Reggie, nem pense nisso.
– Eu já estou dentro, Shaw.
– Não vou deixar que você faça isso.
– Você está brincando? Essa é a melhor coisa que podia ter acontecido.
– O quê? – exclamou ele, chocado.
– Não estou falando da sua amiga. Sinto muito por ela – respondeu Reggie rapidamente. – Mas nós nunca acharíamos Kuchin. Agora, estamos sendo convidados para ir até ele. Essa é a nossa oportunidade. A nossa chance.
– Não se trata de um convite, Reggie. Ele vai nos matar.
– Não, ele vai tentar nos matar – corrigiu ela. – E nós faremos o mesmo.
– Bem, dadas as circunstâncias, ele tem mais chance.
– Mesmo assim, é a nossa única oportunidade.
– Se você for comigo, será assassinada de uma maneira sádica e dolorosa. Tem plena consciência disso? – Shaw apontou para a porta. – Saia.
Porém, Reggie se sentou do lado dele.
– Eu poderia dizer algo bonitinho ou ousado para mostrar que não estou com medo, embora esteja, mas acho que vou tentar dizer a verdade.
Shaw teve sua atenção atraída.
– Uma parte de mim nunca mais quer ver Kuchin. Nunca mais, Shaw. Eu o vejo o tempo todo. Acordo com ele na minha mente. Acho que ele está bem atrás de mim. Naquela noite, não morri por um triz. Vi o olhar dele. Não havia nada ali dentro. Kuchin não estava nem aí. Uma pessoa normal não faz algo do gênero.
– E mesmo assim você quer ir?
– Não posso viver enquanto esse cara estiver respirando. Essa é a questão. O que mais quero na vida é pegá-lo. Vou matá-lo com as minhas próprias mãos, se for necessário. Ele vai ter que me matar, senão nunca vou largar do pé dele.
– O cara é monstruoso.
– Ele é um monstro. Não é o primeiro e não será o último. E precisa ser enfrentado.
– Por que diabos você faz isso?
– Avise-me quando for a hora. Estarei pronta.
As duas horas se passaram e o telefone tocou pontualmente. Shaw tinha razão: Kuchin pediu para falar com Reggie.
– Olá, pequena Janie – cumprimentou ele após ela confirmar que estava na linha. – Nosso último encontro foi interrompido. Estou ansioso para encontrá-la de novo.
Reggie não falou nada; apenas devolveu o celular para Shaw.
Todos os preparativos foram feitos. Eles partiriam no dia seguinte. Não diriam nada a ninguém.
– Se você me desobedecer, ela morrerá muito antes que possa vê-la – alertou Kuchin.
– Mas e se você estiver planejando matá-la de qualquer maneira? – rebateu Shaw.
– Dou minha palavra de que, se vocês seguirem minhas instruções ao pé da letra, eu a libertarei ilesa.
– Sua palavra? – perguntou Shaw, incrédulo.
– Como ex-oficial da KGB.
– Isso não quer dizer nada para mim.
– Juro pela memória da minha mãe, então. Não tenho nada contra a sua amiga. Meu problema é com você e essa outra mulher.
– Onde e quando?
– Isso depende de onde vocês estão no momento.
– No seu quintal: Montreal.
Shaw achou ter ouvido Kuchin ofegar e sentiu prazer por surpreendê-lo.
– Isso simplifica as coisas – falou o magnata e explicou os detalhes.
Shaw desligou e encarou Reggie.
– Você ainda está dentro?
– Agora, mais ainda. A arrogância dele me irrita. Ele acredita que somos ovelhas indo mansamente para o abate.
E não somos?, pensou Shaw.