Livrai-nos do mal
Capítulo 77
SHAW SE ACOMODOU EM uma cadeira na biblioteca. Não havia fogo na lareira. O dia estava quente; o céu prenunciava uma tempestade. Reggie e Whit ficaram ao lado da porta. Mallory, ainda empunhando a pistola, se sentou à frente de Shaw. Liza, em pé, se apoiava com uma das mãos sobre a longa mesa. Dominic, com o braço ferido, estava encostado a uma parede do outro lado. Todos olhavam para Shaw.
– Se o senhor puder manter essa arma apontada para baixo até ter a intenção de usá-la, eu agradeceria – disse Shaw. – Ela tem uma trava de segurança no cabo e é conhecida por ter um gatilho sensível.
Mallory abaixou um pouco a arma.
– Que diabos ele quis dizer com botulina? – perguntou Whit, encarando o professor.
Antes que Mallory pudesse responder, Reggie deu um passo à frente, tirou a seringa da bolsa e a pôs em cima da mesa.
– Por muito tempo considerado o veneno mais tóxico do mundo – explicou ele em tom pedante. – Embora tenha infinitos usos médicos, inclusive cosméticos, sob o nome de Botox.
– A morte é rápida, mas terrivelmente dolorosa – completou Shaw sem desviar o olhar do rosto do professor.
– Não seria assim no seu caso. Note que a seringa tem duas soluções em compartimentos separados, mas com uma barreira semipermeável. O elemento adicional é um potente anestésico. Você teria ficado inconsciente. Não teria sentido nada.
– Enquanto morria.
– Bem, sim – admitiu Mallory. – Afinal de contas, esse era o objetivo.
– Miles! – exclamou Liza. – Onde você estava com a cabeça? Não fazemos isso com inocentes.
– Bem, eu não sabia até que ponto o Sr. Shaw era, ou para ser sincero, é inocente. Ele havia tomado conhecimento da nossa operação e dos nossos planos em relação a Fedir Kuchin. Permitir que fosse solto depois disso me pareceu algo no mínimo problemático.
– Mas ordenar a morte dele? – questionou Reggie em tom glacial. – Não somos assassinos...
Ela se interrompeu e ficou pálida. Whit, Dominic e Liza não conseguiram se entreolhar. Eles pareciam estar tendo o mesmo pensamento.
Na verdade, somos assassinos.
– Foi um julgamento que fiz no afã da batalha – retorquiu Mallory. – Não foi fácil e houve alguns erros de cálculo.
– Bem, isso faz com que eu me sinta melhor – ironizou Shaw. – Mas aqui estou eu, são e salvo.
– Sim, os planos às vezes dão errado.
– Mas deixe-me dizer o que faria com que eu me sentisse ainda melhor.
– O quê?
– Gostaria que o senhor abaixasse mesmo essa arma. Antes que eu seja obrigado a fazer algo.
Os dois se encararam, medindo forças só pelo olhar. Por fim, Mallory pôs a arma sobre a mesa, com o cano virado para uma parede.
– Kuchin – disse Shaw. – Ele está vivo e à caça.
– Nosso disfarce era muito bom – observou Mallory.
– Muito bom não é suficiente. Li o relatório sobre ele. Uma mente como aquela possui um caráter obsessivo que vai muito além da razão ou da previsibilidade. Precisamos partir do princípio de que ele está atrás de todos nós e irá nos encontrar em algum momento. Quando isso acontecer, o que vocês irão fazer?
– Matá-lo – respondeu Whit. – O que deveríamos ter feito logo de cara. Eu poderia ter enfiado uma bala na cabeça dele se você não tivesse me impedido.
– Para falar a verdade, também estaríamos mortos se Shaw não estivesse lá – lembrou Reggie.
Whit lhe lançou um olhar sombrio.
– Isso faz parte do risco. Eu estava disposto a aceitá-lo. Achei que você também estivesse.
– Falar sobre o passado não ajuda a enfrentar o futuro – interveio Shaw, que continuava a fitar Mallory. – Vocês estão preparados para enfrentar o futuro?
O professor se recostou na cadeira.
– O que você sugere?
– Preciso de todas as informações que vocês têm sobre Kuchin. Se conseguirmos chegar até ele primeiro, eu me encarrego do resto.
– E o que isso quer dizer exatamente? – questionou Whit.
– Deduzo que vocês tenham provas de que ele é Fedir Kuchin e de que cometeu todos aqueles crimes.
– Temos.
– Então ele será julgado e condenado.
– Não é assim que trabalhamos aqui, Sr. Shaw – retrucou Mallory.
– Bem, eu trabalho de uma maneira um pouco diferente. Mas imagino que exista um tribunal na Ucrânia que se interessaria muito em cuidar desse caso. Duvido que Kuchin fosse sair vivo do país.
– Talvez isso seja verdade, mas, para ser sincero, não sei se nossas provas subsistiriam em um tribunal de justiça. Moralmente, sim, mas a lei parece não se importar mais com esse tipo de coisa. Bem, vamos ao que interessa: se ele fosse julgado e condenado, nosso envolvimento teria que ser revelado?
– Não vejo motivo para isso.
– A questão é se podemos confiar ou não em você.
– Ah, pelo amor de Deus, Miles – impacientou-se Liza. – Se ele quisesse acabar conosco, não faltaram oportunidades.
– Ela tem razão – concordou Reggie. – Shaw não precisava ter vindo até aqui comigo. Ele já havia encontrado este lugar.
Mallory pareceu interessado por esse novo dado.
– Por que você quer nos ajudar?
– É muito simples: Kuchin merece. Se eu puder ajudar vocês a pegá-lo, ficarei muito feliz.
– E as pessoas para quem você trabalha não se incomodam?
– Não pedi a permissão delas.
– E isso não é um problema?
– Não, a menos que vocês o tornem um. – Shaw se levantou. – Agora, já gastamos tempo demais com esta conversa. Temos um acordo? Pegamos Kuchin e ele é julgado por um tribunal?
Mallory olhou para os outros.
– A menos que alguém tenha uma objeção, podemos lhe dar as boas-vindas à equipe.
Shaw tirou o cartucho de Whit do bolso e o jogou para ele. Depois, voltou-se para Reggie.
– Na verdade, prefiro pensar que se trata de um cargo temporário.