Livrai-nos do mal
Capítulo 38
O AR ESTAVA FRESCO, MAS estranhamente pesado. Reggie nunca vira uma escuridão tão densa como a daquele lugar. Sua pequena lanterna era o único auxílio para guiá-la. Por duas vezes, esbarrou em objetos duros, esfolando o braço e machucando um dedo do pé. Continuou descendo, fazendo pausas frequentes para apurar os ouvidos. Ao passar por uma porta, ela sentiu algo a agarrando e deu um grito de susto.
– Shhh. Você vai acordar os mortos.
Uma luz lampejou em um rosto ao lado dela, revelando o sorriso de Whit.
– Que diabos você estava pensando para aparecer assim do nada? Se eu tivesse uma arma, teria atirado em você.
Whit desviou a luz do próprio rosto.
– Desculpe, Reg. Acho que este lugar a afeta. Você fica meio boba.
– Está tudo limpo pelo menos? – indagou ela, séria, sua respiração já voltando ao normal.
– Nenhuma alma viva. Veja com seus próprios olhos.
Ele iluminou ao redor e Reggie pôde enxergar o que se escondia ali.
Criptas.
Os dois estavam nas catacumbas da igreja católica de Gordes. Desde que Reggie apresentara sua estratégia ao professor Mallory em Harrowsfield, eles haviam pensado na igreja como ponto central do plano. Whit e Dominic tinham explorado o interior e ficaram extasiados ao descobrir que ali havia tudo de que precisavam para capturar sua presa.
– Quantas você calcula? – perguntou ela.
– Não sei. Não me dei o trabalho de contar. Mas são muitas.
– Bem, mostre a passagem que você encontrou. Essa é a parte crítica.
Whit a conduziu de volta pelo caminho que ela havia trilhado, até que surgisse a interseção de duas galerias: a primeira era a que os dois tinham percorrido e que levava até as catacumbas; a segunda ia para a esquerda. Caminharam pelo comprido corredor mal iluminado por algumas lâmpadas de luz instável, viraram à esquerda e desceram uma longa série de degraus velhos até passarem por uma porta e chegarem ao subterrâneo do outro lado de Gordes, perto das mansões.
– Foi brilhante sua ideia de usar a religião – elogiou ele.
– Só será brilhante se realmente funcionar. Onde está Dom?
– No nosso quarto. Ele está com a mão coçando para pegar o cara.
– Você deve acalmá-lo. Eu já disse a ele que é assim que os erros acontecem. E, com um cara como Kuchin, não podemos nos dar ao luxo de cometer nenhum erro.
Eles voltaram às catacumbas.
– Onde está Bill? – indagou Whit.
– Por que a pergunta?
– Vi vocês conversando mais cedo. Só queria saber.
– Você estava me espionando?
– Não, só dando cobertura. Parceiros fazem isso, sabia?
– Tudo bem, parceiro, vamos a Les Baux amanhã ver a mostra de Goya.
– Você acha prudente?
– Por que não seria?
– Porque você poderia usar esse tempo para se engraçar ainda mais com Kuchin, não é?
Isso era verdade, pensou Reggie. Porém, ela queria ir a Les Baux. Ou talvez apenas quisesse ir com Bill a Les Baux.
Whit parecia ler seus pensamentos.
– Você vive falando de foco, Reg. Então, por que não põe em prática o que tanto prega? – questionou, exaltado.
Ela o olhou com raiva.
– Trate de se preocupar com Dom e consigo mesmo. E foi você que se distanciou da missão da última vez que liderou uma.
– Como? Dando um tiro no saco de um nazista e pintando o símbolo de Hitler na sua testa? Eu já disse, sou um artista.
– Não, você só tornou nosso trabalho mais difícil.
– Ah, então você concorda com a teoria do professor sobre manter a discrição para que os outros filhos da puta não se escondam ainda mais?
– Não a considero apenas uma teoria.
– Bem, então pense no seguinte: você não acha que esses caras que caçamos já se escondem o bastante? Não acha que eles sabem que alguém vai atrás deles? O professor quer discrição? Eu acho que deveríamos gritar aos quatro ventos. Quero que esses canalhas saibam que estamos chegando. Quero que percam o sono pensando na morte pavorosa que vão ter. Quero que se borrem de medo, exatamente como aconteceu com as pessoas que eles trucidaram. Para mim, isso faz parte da diversão.
– O que nós fazemos não é diversão, Whit – retorquiu ela, embora sua expressão indicasse que as palavras do colega a tinham abalado.
– Bem, talvez essa seja a principal diferença entre nós.
Os dois se encararam na penumbra até que Reggie perguntou:
– Você já tem o veneno?
– O suficiente para matar dez Fedir Kuchin. Whit correu os olhos pelo espaço em torno. – Para mim, este é um bom lugar. Amarre-o naquela pedra. Leia a história da vida dele e, depois, use o veneno. Já decidiu como quer mostrar ao babaca seus terríveis feitos? Essa é a última parte, pelo que me consta.
– Quase lá. E em seguida?
– Certo, essa merda de discrição. – Ele iluminou uma cripta na parede. – O topo daquela ali está bem solto. Eu e Dom tivemos de ralar muito, mas conseguimos. Só tem ossos no fundo, com espaço suficiente. Verifiquei no vilarejo e eles não usam mais as catacumbas. Duvido que achem o cara antes de ele também virar um monte de ossos. Gostou da ideia?
– Sim. E tenho certeza de que o professor vai ficar muito satisfeito.
– Não faz parte do meu trabalho satisfazê-lo.
Reggie lhe agarrou o braço.
– Precisamos estar do mesmo lado. Há muita coisa em jogo.
Whit se soltou do aperto dela.
– Posso discordar de algumas coisas, mas, na hora H, faço meu trabalho. Tudo bem?
– Ok.
– Enquanto isso, aproveite Les Baux com o seu bonitão.
Whit a deixou sozinha.
Esperou alguns minutos e, então, percorreu o caminho de volta. Mesmo depois da meia-noite, Gordes era linda e parecia segura. Não havia ninguém nas ruas escuras, mas ela retornou tranquilamente para a mansão. Provavelmente estava sendo observada ao se aproximar da casa de Kuchin. Os seguranças vigiavam o chefe a todo segundo. O que Reggie não sabia era que alguém a vigiava quando ela deixou a igreja.
E dessa vez não era Shaw.