Livrai-nos do mal
Capítulo 76
KUCHIN HAVIA PASSADO O dia inteiro estudando o dossiê sobre Katie James. Ao terminar, chamou Rice.
– Um monte de informação, mas muito pouco que possa nos indicar onde ela está neste momento.
– Ela tinha um apartamento em Nova York, mas perdeu o emprego, não conseguiu mais pagar o aluguel e foi despejada. Não deixou o novo endereço. Pelo que eu soube, ela costuma usar as casas de ex-colegas mundo afora para se hospedar durante alguns dias ou semanas.
– Lembro-me, é claro, do seu último artigo.
– Katie James foi uma peça-chave para desmascarar aquela conspiração. Até hoje a verdade ainda não foi totalmente revelada.
– Foi acobertada – afirmou Kuchin com autoridade. – Porque a verdade constrangeria pessoas importantes. É sempre assim.
Rice indicou a montanha de papéis.
– Bem, para mim, por melhor que ela seja como jornalista, não investigou todo o episódio sozinha.
– Bill Young a teria ajudado? Por isso eles estavam juntos em Zurique?
– É uma hipótese.
– Talvez haja outras mais plausíveis. Mas elas não me importam. Precisamos encontrá-la.
– Posso pôr algumas pessoas para trabalhar nisso. Verificar listas de passageiros em voos e transações com cartões de crédito.
– Não, eu cuido disso.
– Mas...
Kuchin se levantou, segurando o dossiê com a mão direita.
– Alan, eu disse que você devia se concentrar nos negócios. Eu me preocuparei com isto até que a questão esteja resolvida. Nenhuma atividade incomum nos escritórios, certo?
– Atividade incomum?
– Alguém mostrando um interesse extraordinário pelo meu paradeiro?
– Não que eu tenha visto ou ouvido. O movimento de sempre.
– Então, é possível que eu volte com o jatinho.
Kuchin parecia estar falando mais consigo mesmo do que com Rice.
– Tudo bem, Evan. Afinal, você está pagando pelo avião.
– Eu sei disso. Estarei pronto para partir daqui a uma hora. Avise aos pilotos.
Kuchin arrumou uma mala pequena. Um dos privilégios de voar em um avião particular é poder levar qualquer coisa a bordo. Armas, explosivos, vítimas. Ele já havia transportado tudo isso.
Ao terminar, Kuchin digitou uma tecla no telefone.
– Pascal?
– Sim, Sr. Waller.
– Vou a Montreal. Quero você comigo.
– Sim, senhor. Estou pronto para partir.
– Como você sabia?
– É meu trabalho, senhor.
O fiel servidor.
– Cinco minutos.
– Sim, senhor.
Rice esperava ao lado da porta quando Kuchin saiu com sua sacola e sua pasta.
– O avião está pronto. O voo até Montreal não é muito mais longo do que a viagem de carro da pista de aterrissagem até aqui.
– Excelente. Ligo para você no momento da aterrissagem.
– Você vai me ligar? – perguntou Rice, espantado.
– Sim, você vai ficar aqui.
– Mas eu achei que... Os negócios.
– Acesso por computador; há uma torre de telefonia celular aqui perto, portanto, o serviço é muito bom. Você pode trabalhar daqui, não?
– Sim, mas...
– Ficarei em contato. – Kuchin avançou, seguido por Pascal.
A aeronave decolou pouco mais de uma hora depois. Enquanto o Gulfstream atravessava o céu, Kuchin se acomodou diante de uma mesa e espalhou sobre ela o dossiê de Katie James. Em sua carreira na KGB, ele fora encarregado de encontrar muitas pessoas, que nunca queriam ser encontradas, pois seriam torturadas, mortas ou, mais provavelmente, as duas coisas. Por isso, aprendera muitas das artimanhas dos “desaparecidos”. Mas isso havia acontecido décadas antes. As coisas tinham mudado. Existiam novas maneiras de encobrir os próprios rastros. Porém, Kuchin pensava ter pelo menos uma vantagem. Katie James talvez não soubesse que alguém estava em seu encalço. Nesse caso, talvez nem estivesse se escondendo.
Sete meses antes em Zurique. Último endereço conhecido em Nova York. Se ela foi de Nova York para a Suíça, viajou de avião. Depois disso, Kuchin não sabia para onde nem de que maneira ela podia ter viajado. Mas os meios de transporte eram limitados. Avião. Trem. Carro. E o método de pagamento também, é claro. Transações de cartão de crédito, atividade via e-mail. Nesses casos, haveria registros.
Eles aterrissaram e, no caminho até a cidade, Kuchin fez uma ligação. Ele não ia para a cobertura, que podia estar sendo vigiada. O ucraniano tinha outro esconderijo na cidade.
– Vou precisar da sua ajuda, Pascal – falou ao término do telefonema.
– Tudo o que for necessário, Sr. Waller. Pode deixar que eu me encarrego.
– Também cuida do homem alto?
– Sim, senhor. Peço desculpas por ele ter me surpreendido. Eu devia ter previsto, mas não tivemos muito tempo para organizar tudo aquilo.
– Justamente, gostaria de saber como tudo foi organizado.
– Algumas horas antes de o senhor sair para ir à feira com a moça, o Sr. Rice chamou a mim e ao Manuel. Disse que talvez houvesse um problema e que queria se certificar de que estava tudo bem.
– Ele falou por que achava que havia um problema?
– Ele suspeitava daquela mulher. Eu comentei que, nesse caso, deveríamos falar com o senhor.
– E o que ele respondeu?
– Que queria ter certeza. Ele sabia que o senhor gostava da moça e não queria estragar tudo caso estivesse errado. Não queria que o senhor ficasse com raiva dele. Disse que o senhor já havia demonstrado insatisfação.
– Muito bem, entendo. Prossiga.
– Fomos à igreja. Verificamos o altar e coisas assim. Depois, o Sr. Rice falou que precisávamos ir ao porão.
– As catacumbas?
– Acho que sim. Fomos até lá e, de início, não encontramos nada, mas o Sr. Rice percebeu que uma das criptas estava destampada. Vimos alguns equipamentos montados lá embaixo. Um gerador, luzes e mais algumas coisas. O Sr. Rice disse que ficaríamos ali para ver se algo aconteceria.
– E aconteceu.
– Porém, não vi o grandalhão. Ele apareceu do nada. – Pascal esfregou a cabeça. – Bela pancada. Estou ansioso para retribuir.
– Mas, primeiro, precisamos encontrá-lo. – Kuchin mostrou uma foto de Katie James. – Esta mulher é o único elo que temos com ele. Trata-se de uma jornalista. Muito famosa, mas ninguém a viu recentemente. Se conseguirmos descobrir seu paradeiro, talvez possamos achá-lo.
– O senhor quer que eu comece a procurar?
– Primeiro, vou fazer algumas investigações. Concentrar as buscas. Depois, você entra em cena.
– Sim, senhor.
Kuchin fitou a imagem. Katie era uma mulher muito bonita. Velha e branca demais para ser uma de suas mercadorias, mas, ainda assim, atraente. Ficou se perguntando qual era a relação dela com aquele homem. Esperava que fosse bastante próxima. O suficiente para atraí-lo até ela.