Livrai-nos do mal
Capítulo 31
USANDO UM VESTIDO DE verão, sandálias e um lenço azul vivo em volta dos cabelos, Reggie destrancou a porta da mansão, saiu e quase esbarrou em um homem. Quando olhou para ele, constatou que parecia mais intimidador pessoalmente do que nas velhas fotos. Vestia uma camisa branca de manga curta para dentro das calças pretas, mostrando que estava em forma. Embora fosse um sessentão, conservara boa parte da musculatura da juventude: ombros largos, braços e coxas definidas. Mas o que chamou a atenção de Reggie foram os olhos.
Ela havia encarado muitos carniceiros, mas o poder no olhar de Fedir Kuchin estava em outro patamar: parecia capaz de arrancar de sua alma todos os segredos que ela sempre guardara. Em comparação, os velhos nazistas eram crianças assustadas.
Kuchin estendeu a mão.
– Parece que sou seu vizinho. Evan Waller.
O sotaque ucraniano já havia sumido, enterrado sob décadas de inflexão canadense.
Reggie lhe apertou a mão e os longos dedos de Waller cobriram os dela.
– Jane Collins.
Ele estava incomodamente próximo. Era 10 centímetros mais baixo do que Shaw, mas, ainda assim, bem mais alto do que ela.
– Soube que você teve um pequeno desentendimento com um dos meus seguranças ontem à noite. A culpa é toda minha. Fique tranquila, não acontecerá de novo. Eu gostaria de me desculpar. Poderíamos talvez jantar hoje? Na minha mansão ou no charmoso vilarejo no topo da colina?
Seu corpanzil parecia pressioná-la enquanto ela pensava a respeito. Reggie viu dois guarda-costas atrás de Kuchin os observando. Um deles estava com um sorrisinho. Provavelmente, era o que a vira nua perto da piscina, pensou. A luxúria masculina era tão fácil de decifrar... E havia também o homem mais baixo da noite anterior. Por algum motivo, ela suspeitava mais dele do que do sujeito maior.
– Bem, é muita gentileza sua, mas...
Ele sorriu de maneira gentil ao interrompê-la:
– Não, não, antes que você rejeite minha oferta, pense a respeito. Nem permiti que você trancasse sua porta antes de importuná-la. Desculpe. Aguardo sua resposta mais tarde. – Ele olhou para a cesta de palha de Reggie. – Vejo que você está indo fazer compras.
Ela assentiu.
– Duas vezes por semana, acontece uma feira maravilhosa no centro do vilarejo. Tem de tudo, desde roupas até hortaliças.
– Bem, preciso examinar essa feira. Você se importaria se eu a acompanhasse? A manhã está linda e eu gostaria de esticar as pernas.
– Você acabou de chegar?
Kuchin lhe deu o braço e Reggie foi forçada a caminhar ao seu lado. Seu ato foi delicado, parecendo natural, mas ela não viu nenhuma opção viável de resistência que não fosse puxar o braço.
– Um voo longo, sim. Moro no Canadá, minha terra natal. Antes, estive em Hong Kong. Outra viagem ainda mais longa. Você já esteve lá?
Reggie negou com a cabeça.
– Uma cidade com mais energia do que qualquer outra. – Ele sorriu. – E um lugar no qual é possível obter tudo o que se quer. Mas você é americana, certo? Está acostumada a obter o que quer.
– Por que você acha que sou americana? – perguntou ela, fingindo um ar de suspeita.
– Apenas uma dedução baseada em seu sotaque e aparência. Estou errado?
– Não, sou americana mesmo.
– Então, somos vizinhos também nesse sentido, devido a nossas origens. Vejo algo de providencial nisso.
– Quando voltei para casa ontem à noite, descobri que seus seguranças sabiam meu nome.
Kuchin fez um gesto despreocupado com a mão livre.
– Procedimento padrão de segurança. Sou um homem muito rico. Levo uma vida muito chata e, que eu saiba, não tenho inimigos. Mas a empresa que dirijo insiste nessas precauções. – Ele riu. – Afinal de contas, sou canadense: um povo pacífico e trabalhador. – Ele lhe deu um tapinha no braço. – Posso garantir que não haverá mais invasões à sua privacidade.
É mesmo?, pensou Reggie. Quer dizer que não vão mais me espiar enquanto nado? Ela não tinha um equipamento de visão noturna, mas, de esguelha, flagrara Kuchin observando-a de cima do muro na noite passada. E Dominic confirmara esse dado pelo ponto eletrônico. Alertados pela informação de Shaw sobre o guarda bisbilhoteiro, eles armaram um posto de observação a cerca de 500 metros de onde Shaw a vigiava nas colinas. No entanto, Dominic e Shaw não sabiam um da presença do outro.
– Você tem certeza disso? – perguntou Reggie. – Seu segurança pareceu muito persistente.
Kuchin deu um sorriso radiante e lhe acariciou o braço.
– Sim, tenho certeza. Ele trabalha para mim. E posso ver que você é uma jovem muito agradável, com a qual me sinto bastante seguro.
Estou louca para provar que você está enganado, Fedir, pensou Reggie.
– E soube que você estava com um homem na noite passada. Por favor, diga que ele é apenas um conhecido, assim posso ter esperança de vê-la de vez em quando enquanto estiver aqui.
– Eu o conheci recentemente.
– Maravilha. Então, nada de marido nem namorado de longa data?
– Não.
Ela o encarou fingindo perplexidade.
Kuchin interpretou aquele olhar exatamente da maneira que ela desejava.
– Não, não. Sou solteiro, mas eu poderia ter filhos da sua idade, minha querida. Apenas faça a vontade de um velho que deseja a companhia inocente de uma jovem bonita e nada mais.
– Você não parece tão velho – comentou Reggie.
– Você acabou de deixar meu dia bem mais feliz.
– E tem certeza a respeito desse “nada mais”?
– Você está brincando comigo, não é?
– Um pouco, talvez.
– Ótimo. É um bom começo. Você já esteve na Provence antes?
– Uma vez.
– Eu já estive mais vezes. Se me permite, eu gostaria de lhe mostrar alguns dos belos lugares aqui perto. O Palais des Papes, ou Palácio dos Papas, em Avignon, o melhor exemplo de aqueduto romano de toda a França em Pont du Gard, as cavernas de Les Baux, a beleza de Roussillon e os vinhedos ao norte. Na verdade, conheço um café em Gigondas cujos doces valem a viagem.
– Meu Deus, você não perde tempo mesmo, Sr. Waller.
– E para que viver se perdermos tempo? Para mim, a vida é preciosa. Eu corro, corro, corro porque sei que um dia tudo vai se acabar. E, por mais dinheiro, casas bonitas ou quaisquer outras coisas que tenhamos, tudo desaparecerá ao nosso último suspiro. E, por favor, me chame de Evan. Você me deixa sem graça usando meu sobrenome.
– Bem, Evan, vamos começar com a feira e, depois, veremos. O que você acha?
– Perfeitamente lógico. – Ele apertou o braço de Reggie, indicando que seu “nada mais” era mentira. – Então, vamos à feira.
Reggie entendeu o que o professor quis dizer ao falar do charme daquele homem. Se não conhecesse seu passado, poderia achá-lo intrigante, até mesmo fascinante. Mas ela o conhecia e, assim, podia ficar imune a seu carisma. E, daí a pôr fim na vida daquele homem, o caminho era curto.