Livrai-nos do mal
Capítulo 3
SHAW ESPERAVA QUE O homem tentasse matá-lo e foi o que aconteceu. Quando vislumbravam no futuro a prisão e a pena de morte, algumas pessoas costumavam ficar um tanto irritadas. Pouco depois, o sujeito estava estirado no chão, inconsciente, com as marcas do soco de Shaw em seu rosto. O encarregado de dar cobertura a Shaw logo apareceu para prender o homem. Shaw riscou mentalmente da sua lista de afazeres matar um fanático sem coração que usava crianças – sem que elas soubessem – para explodir pessoas que não acreditavam no mesmo deus.
Dez minutos mais tarde, estava em um carro a caminho do aeroporto de Viena ao lado de seu chefe, Frank Wells. Ele não só parecia um canalha cruel como realmente era. Além do porte enorme, falava como se estivesse rosnando. Usava ternos baratos, que se amassavam com facilidade, e um chapéu de aba fina fora de moda. Shaw achava que Frank nascera na época errada. Ele teria se dado bem nas décadas de 1920 e 1930, perseguindo criminosos como Al Capone e John Dillinger com uma submetralhadora Thompson e sem um mandado de prisão por perto nem uma cópia dos direitos da pessoa detida. Ele tinha mais de 50 anos, só que parecia mais velho, com a barba por fazer, a grande papada e cerca de 80 anos de azedume e raiva acumulados. Ele e Shaw tinham uma relação de amor e ódio que, levando-se em conta a expressão negativa no rosto de Wells, estava agora na fase do ódio.
Shaw até conseguia entender esse sentimento. Frank continuava a usar chapéu dentro de carros e ambientes fechados não só para esconder sua careca, mas também para ocultar a marca de um projétil de pistola disparado por Shaw. Não fora a melhor maneira de começar uma amizade saudável. Porém, aquele confronto quase letal era o único motivo para eles estarem juntos naquele momento.
– Você demorou um pouco para perceber os movimentos de Benny – criticou Frank enquanto mastigava um charuto apagado.
– Considerando que Benny bin Alamen é o terceiro terrorista mais procurado do mundo, acho que posso me parabenizar.
– Só estou comentando, Shaw. Pode ser útil na próxima vez.
Shaw não respondeu, em grande parte porque estava cansado, e olhou pela janela para as belas avenidas de Viena. Ele estivera várias vezes na capital austríaca, berço de alguns dos maiores talentos musicais da história. Infelizmente, suas viagens eram sempre a trabalho e sua lembrança mais vívida da cidade não era a de um concerto emocionante, mas a de quase ter morrido por causa de uma bala de alto calibre que passara bem perto da sua cabeça.
Ele deslizou a mão pelos cabelos, que enfim tinham voltado a crescer depois que ele os raspara para uma missão recente. Shaw tinha pouco mais de 40 anos e quase 2 metros de altura e estava totalmente em forma, mas já surgiam alguns fios brancos. Até mesmo para ele, os últimos seis meses haviam sido... difíceis.
Como se lesse sua mente, Frank perguntou:
– Então, o que aconteceu com você e Katie James?
– Ela voltou a ser jornalista e eu voltei a fazer o que faço.
Frank baixou a janela, acendeu o charuto e deixou que a fumaça saísse pela abertura.
– Só isso?
– Por que haveria algo além disso?
– Vocês passaram por algumas coisas complicadas juntos. Isso tende a unir as pessoas.
– Bem, não uniu.
– Ela me ligou, sabia?
– Quando?
– Um tempo atrás. Disse que você foi embora sem se despedir.
– Eu não sabia que existia uma lei exigindo despedidas. E por que ela não ligou para mim?
– Ela disse que tentou, mas que você havia mudado o número.
– Tudo bem, talvez eu tenha mudado mesmo.
– Por quê?
– Porque eu estava a fim. Mais alguma pergunta pessoal?
– Vocês estavam dormindo juntos?
Aquele comentário fez com que Shaw se retesasse. Frank, talvez percebendo que fora longe demais, olhou para a pasta em seu colo e disse rapidamente:
– Tudo bem, vamos decolar daqui a trinta minutos. Podemos analisar o próximo trabalho no avião.
– Ótimo – comentou Shaw em tom monótono.
Ele abriu a janela do seu lado e respirou o ar da manhã. Como costumava agir durante a noite, muitos dos seus “trabalhos” terminavam nas primeiras horas da manhã.
Trabalho para um lugar que não existe oficialmente, que é classificado como uma agência, fazendo coisas pelo mundo que ninguém jamais saberá que eu fiz.
A política da “agência” permitia que seus membros chegassem até a fronteira da legalidade – muitas vezes, cruzando-a; algumas vezes, eliminando-a. Os países que apoiavam a agência de Shaw, cedendo dinheiro e cuidando da logística, faziam parte da antiga cúpula do G8 e, portanto, eram consideradas as sociedades mais “civilizadas” do mundo. No meio oficial, eles nunca poderiam utilizar táticas brutais, muito menos letais, logo contornavam o problema criando e alimentando em segredo uma fera híbrida que devia alcançar os objetivos estipulados a qualquer custo. Em geral, nem direitos pessoais nem o benefício do auxílio jurídico importavam.
Frank examinou Shaw por um momento.
– Mandei flores para o túmulo de Anna.
Surpreso, Shaw virou-se para ele.
– Por quê?
– Ela era uma boa mulher. E, por algum motivo, estava louca por você. Esse foi o único defeito que consegui encontrar naquela mulher: sua falta de discernimento em relação aos homens.
Shaw voltou a olhar pela janela.
– Você nunca mais vai encontrar uma pessoa tão boa.
– É por isso que nem estou me dando o trabalho de procurar, Frank.
– Eu já fui casado.
Shaw fechou a janela e se recostou.
– O que aconteceu?
– Ela não está mais viva. Era mais ou menos como Anna. Casei-me com alguém de um nível muito superior. Isso nunca acontece duas vezes.
– Você pelo menos conseguiu se casar. Eu nunca tive essa chance.
Frank deu a impressão de que ia dizer algo mais, porém ficou em silêncio. Os dois permaneceram calados até chegarem ao aeroporto.