Livrai-nos do mal
Capítulo 29
REGGIE OUVIU A BUZINA do lado de fora. Consultou o relógio: estava atrasada. Olhou para a rua lá embaixo e viu Shaw sentado em sua Vespa perto da porta de entrada. Vestia calças cáqui e uma camisa branca de algodão para fora das calças. Nos pés, mocassins sem meias. Ela bateu na janela e levantou dois dedos.
Terminou de se vestir às pressas e pôs os brincos. Em seguida, ajeitou o cabelo no espelho, embora não fosse fazer muita diferença depois de andar na scooter. Alisou a frente do vestido. Tinha escolhido uma roupa justa por causa do tipo de transporte; não queria uma saia esvoaçando sobre sua cabeça enquanto eles corriam pelas estradas rurais do sul da França.
Depois de passar o batom, ela correu escada abaixo. Trancou a porta e acenou para Shaw.
– Você está linda – elogiou ele.
– O objetivo era esse – rebateu ela. – Você está muito bonito com esse visual descontraído. Nada a ver com um lobista. Estou impressionada.
– Muito bem, pois esse era o meu objetivo.
Ela subiu na garupa, pegou o capacete que Shaw lhe estendeu e o prendeu.
– Bela scooter – disse, acariciando o metal azul-claro.
– É a melhor maneira de se deslocar aqui. Segure-se.
Reggie agarrou a cintura dele e se apoiou em suas costas. Shaw sentiu uma descarga de eletricidade correr espinha abaixo. Até estremeceu um pouco.
– Tudo bem? – perguntou ela.
– Tudo. Só estou meio dolorido de tanto remar.
Partiram a cerca de 20 quilômetros por hora. Quando chegaram à estrada principal, ele acelerou e dobrou a velocidade.
– Tudo bem, para onde? – indagou ele, olhando para trás.
– Bato à esquerda ou à direita nas suas costas – respondeu ela, e ele anuiu para indicar que entendera.
Quinze minutos mais tarde, estavam subindo uma colina íngreme e o motor de 125 cilindradas da Vespa gemia em protesto. Shaw encontrou um lugar para estacionar e eles tiraram os capacetes e os prenderam à moto. Caminharam até o restaurante, que ficava a apenas meio quarteirão, e se sentaram do lado de fora, em um terraço com vista para o vale.
– Boa escolha – comentou Shaw enquanto contemplavam o panorama.
– A comida também é maravilhosa.
Fizeram o pedido e, por hábito, ficaram observando as mesas em volta. Por fim, se encararam.
– Então, você é divorciado e tem dois filhos? Eles estão com a mãe?
– No momento, sim, mas a guarda é compartilhada.
Shaw partiu um pedaço de pão, o embebeu em azeite fresco e, depois, tomou um gole de vinho.
– E você? Só sei que você é rica.
Ela franziu o nariz.
– Isso é quase tudo. Estou envolvida com algumas obras de caridade. Na maior parte do tempo, viajo à procura de alguma coisa, acho. Só não sei bem o quê.
Tomou um gole de vinho e prendeu os cabelos atrás da orelha. Seu olhar não se deteve em Shaw, mas se fixou além dele. Por algum motivo, Reggie estava tendo dificuldade para interpretar seu papel.
– Você parece que está pensando muito – falou ele. – Relaxe, você está de férias.
Ela passou os dedos pela borda da taça de vinho.
– Então, quem você acha que são as pessoas na mansão ao lado da minha?
Shaw encolheu os ombros.
– Eu tenho uma ideia.
Ela chegou um pouco para a frente e lhe lançou um olhar de expectativa.
Ele notou e sorriu.
– Ei, não é nenhuma grande revelação, está bem? Verifiquei com a imobiliária na cidade, mas não são eles que cuidam daquela casa, logo não sabiam nada a respeito.
Shaw não estava disposto a admitir que falara com a corretora responsável nem que sabia que Reggie havia feito o mesmo.
– Tudo bem. E daí? – instigou Reggie.
– Talvez seja um político. Deve ter mandado antes os seguranças. Coisa do gênero. Eu via isso o tempo todo em Washington.
Reggie se recostou, tentando não parecer decepcionada.
– Ou talvez seja alguém muito rico, até mais rico do que eu.
– Certo, certo. Como Bill Gates ou Warren Buffett.
– Ou um mafioso. Você disse que o tal sujeito parecia barra-pesada.
– Bom, Bill Gates não deve contratar seguranças com cara de frouxo. Precisam ser intimidadores. Faz parte do trabalho.
– Acho que você tem razão.
– Vamos ter que esperar e ver quem vai aparecer.
Os pratos chegaram e, durante a refeição, a conversa se voltou para outros assuntos. Retornaram a Gordes duas horas mais tarde, a luz do dia já se esvaindo. Quando entraram na estradinha secundária que levava à mansão de Reggie, um homem de terno preto e camiseta branca parou na frente deles, bloqueando a passagem. Shaw teve que parar tão de repente que Reggie se chocou contra ele e quase caiu da scooter antes de se endireitar.
Shaw levantou o visor do capacete e olhou para o sujeito. Ele era poucos centímetros mais alto do que Janie, mas dava para ver que era musculoso, com cabelos encaracolados, queixo pontudo, olhos atentos, mãos fortes e aparentemente ágeis. Shaw sabia que o homem era destro porque o coldre de ombro estava à esquerda, sob um compartimento do paletó.
– Aonde vocês vão? – perguntou Pascal com amabilidade.
– Estou levando a moça para casa – respondeu Shaw. – E como esta é uma via pública, nem sei por que estamos tendo esta conversa.
Shaw pôde perceber Reggie se encolhendo um pouco atrás dele. Sentiu uma de suas unhas entrando em sua pele.
Pascal se virou e olhou para as duas mansões.
– É a senhora que está alugando aquela mansão? – indagou ele, apontando para a casa à direita.
Reggie não levantou o visor.
– Sim.
O homem a olhou de cima a baixo, desde o capacete até suas longas pernas.
– Então é Jane Collins?
Reggie abriu o capacete.
– Como você sabe disso?
– A corretora de imóveis foi muito útil.
– Isso é invasão de privacidade.
– Não – replicou Pascal, calmo. – Faz apenas parte do meu trabalho.
– E que trabalho seria esse? – quis saber Shaw.
– Digamos que faço gestão de segurança.
– Podemos ir agora? – interveio Reggie.
– Claro, só vou segui-los e me certificar de que vão chegar bem.
– Acho que ela não precisa de ajuda – rebateu Shaw.
– Não, tudo bem – falou rapidamente Reggie.
Shaw seguiu devagar até a mansão; o farol único da scooter ia iluminando o caminho enquanto o homem os acompanhava. Eles puderam ver que, além do furgão Citroën nos fundos, dois grandes utilitários haviam de alguma maneira cruzado as ruelas que saíam da estrada principal para Gordes sem quebrar os retrovisores. A mansão também estava com todas as luzes acesas; Shaw pôde ver vultos passando atrás de uma janela.
Eles desceram da Vespa e Reggie abriu a porta. O bipe do sistema de segurança soou.
Pascal havia parado perto da scooter e balançou a cabeça em sinal de aprovação.
– É uma boa ideia usar o sistema de alarme, senhora. Segurança nunca é demais.
– Você quer que eu entre, Janie? – perguntou Shaw enquanto Pascal ainda os observava.
Ela hesitou e olhou para o outro homem.
– Não, tudo bem. Estou cansada. Obrigada pelo jantar.
Reggie fechou a porta e Shaw retornou à scooter.
– Mulher atraente – comentou Pascal.
Shaw já conhecera agentes mundo afora que eram exatamente como aquele sujeito, capazes de superar atletas altos e musculosos. Naquele tipo de trabalho, o essencial não era força, nem mesmo velocidade, mas resistência. A tartaruga sem dúvida vencia ali. Esses caras podiam brigar com os melhores, acertar um alvo minúsculo a 400 metros de distância, mudar de planos no meio do caminho, ler mapas complicados num minuto, passar despercebidos quando necessário e esmagar os adversários como um rolo compressor no momento certo. No fim, tudo se relacionava a sobrevivência. Era por isso que Shaw nunca foi de levantar muitos pesos, mas costumava gastar o solado do tênis subindo e descendo colinas. Isso, uma boa pontaria e nervos de aço faziam toda a diferença entre voltar para casa a salvo ou ir parar em um caixão para o resto da eternidade.
Ele se livrou desses pensamentos quando Pascal se aproximou e falou:
– Precisa de mais alguma coisa? Caso contrário, gostaria que você fosse saindo para eu tomar conta desta área.
Nenhuma ameaça clara, muito profissional, pensou Shaw. O sujeito era bom. Afinal, um homem como Waller podia se proporcionar o que havia de melhor.
Shaw voltou até seu quarto de hotel e ligou para Frank.
– Certo – disse Frank depois de ser inteirado dos fatos. – O jogo começou. Mantenha-me informado.
Shaw trocou de roupa, esperou três horas e voltou a sair depois de pegar no cofre do hotel o equipamento de visão noturna, que parecia uma câmera comum. Foi se esgueirando pelas ruas escuras de Gordes. Normalmente, Shaw teria ficado satisfeito com a chegada do alvo à cidade, e bem no tempo previsto. Embora a mansão tivesse sido alugada e a excursão particular a Les Baux estivesse acertada, os planos sempre podiam mudar e não havia garantia alguma de que Waller de fato fosse aparecer na Provence. Shaw não estava satisfeito. O alvo estava lá, mas Janie Collins também. Shaw suspeitava que nada de bom podia vir daquilo.