Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 12 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 10

 

 

NA MANHÃ SEGUINTE, REGGIE acordou cedo. Sentou-se na cama em seu quarto no terceiro andar de Harrowsfield e sentiu um arrepio. Aquela parte da casa não era aquecida. Ela olhou pela janela. A chuva havia passado e Reggie teve a impressão de ver alguns raios de sol atravessando as nuvens. Lavou o rosto com água da torneira, colocou um agasalho de ginástica e os tênis e saiu da mansão pela porta dos fundos para dar uma corrida. Oito quilômetros mais tarde, suada e respirando com regularidade, ela voltou para a casa. O cheiro de café, ovos e bacon pairava no ar, vindo da cozinha. Ela tomou um banho rápido, suportando o último minuto apenas com água fria enquanto o velho encanamento rangia em protesto contra seu uso. Vestiu uma calça jeans e um suéter preto de gola V com uma camiseta branca por baixo e calçou sapatos rasteiros, descendo até o térreo.

Às vezes, podia haver até vinte pessoas em Harrowsfield, mas, naquele dia, ela sabia que o número estaria mais perto de dez. Alguns deles eram historiadores que estavam trabalhando na biblioteca e em uma série de escritórios tanto no primeiro quanto no segundo andar. O único objetivo de todos eles era identificar o próximo monstro que a equipe iria caçar. Havia linguistas mergulhados em alguns idiomas de terras nas quais o novo mal estava à espreita. Outros pesquisadores se debruçavam sobre antigas mensagens telegráficas, registros diplomáticos surrupiados e relatos manuscritos de atrocidades de países do Terceiro Mundo. A tarefa se tornara mais difícil, ela sabia. Os nazistas conservavam documentos minuciosos. Os sádicos subsequentes, operando em diversos lugares, não tinham o mesmo hábito de deixar rastros de sua maldade onipresente.

Mallory avaliara com muito cuidado todas as pessoas que trabalhavam ali. Obviamente, não havia um recrutamento formal. Não era possível colocar um anúncio no jornal procurando justiceiros que não tivessem problema para matar pessoas que mereciam ter aquele fim.

Mallory entrara em contato com Reggie na universidade onde ele dava aulas como professor visitante. Após uma espécie de cortejo que durou um mês, ele tocou no assunto de punir os nazistas que haviam fugido da Alemanha antes da queda. Quando ela concordou, entusiasmada, com aquele objetivo, ele foi um pouco mais além, comentando sobre a possibilidade de poupar ao mundo um julgamento e de desempenhar os papéis de juiz, jurado e algoz.

Mais alguns meses se passaram enquanto Reggie pensava a respeito. Ela voltou a procurá-lo por conta própria com mais perguntas e o professor as respondeu até certo ponto. Ao sentir um empenho maior da jovem, ele lhe apresentou alguns integrantes do grupo. Whit e Liza, no caso. Mais um mês se passou e, então, Mallory mostrou a Reggie alguns recortes de jornal sobre um velho que fora encontrado esfaqueado em sua luxuosa residência em Hong Kong. Embora aquele fato nunca tivesse se tornado público, o professor revelou que aquele homem havia sido identificado como ex-comandante de um campo de concentração, um dos braços direitos de Heinrich Himmler. Eles conversaram até tarde da noite sobre a ética envolvida em uma ação daquele tipo. Apesar de isto nunca ter sido dito com todas as letras, Reggie suspeitava que o professor e as outras pessoas que ela conhecera por meio dele estivessem por trás do assassinato. Àquela altura, ela estava desesperada para participar.

Foi só então que Mallory levou-a a Harrowsfield. Ela foi submetida a uma bateria de avaliações para determinar se tinha a constituição psicológica necessária para integrar a equipe. Reggie superou aquele obstáculo com facilidade, demonstrando uma frieza que surpreendeu até a ela mesma. Depois, teste de aptidão física. Ela foi pressionada até alcançar níveis de força e resistência que nunca soube que possuía. Com os pulmões quase estourando, ela forçou seu corpo abatido a atravessar terrenos traiçoeiros que ela não imaginava que pudessem existir no bucólico campo inglês. Whit Beckham ficou ao seu lado a cada passo, embora já tivesse passado por aquilo quando se afiliou ao grupo. Em seguida, houve o treino especializado: armas, artes marciais e técnicas de sobrevivência em uma miríade de condições desafiadoras.

Na sala de aula, ela aprendeu como pesquisar sobre um alvo e estudar os elementos de fundo para obter informações valiosas. Aprendeu a falar e escrever em diversas línguas, a mentir com desembaraço, a interpretar papéis e saber identificar quando outras pessoas faziam o mesmo. Reggie também se tornou capaz de seguir alguém tão sorrateiramente a ponto de só ser descoberta ao se aproximar do alvo. Essa e dezenas de outras habilidades foram-lhe inculcadas tão fundo que ela não precisava mais pensar a respeito.

Findo o treinamento, ela atuou como agente de apoio em três missões, duas lideradas por Whit e uma por Richard Dyson, um experiente exterminador de nazistas que depois se aposentara. A primeira missão de Reggie como líder envolvia um velho austríaco residente na Ásia que havia ajudado Hitler a matar centenas de milhares de pessoas só porque eram judias. Ela penetrou em seu círculo tornando-se a babá do filho de sua jovem esposa. O monstro se casara cinco vezes. Ficara rico por meio do roubo de antiguidades durante a guerra, tendo um patrimônio grande o suficiente para levar uma vida de grande luxo mesmo após vários divórcios. Tinha um filho, um garoto de 5 anos concebido mediante inseminação artificial. Reggie suspeitava que o velho nazista havia escolhido um doador de esperma branco, louro e alto.

Em um mês de trabalho, o homem deu em cima dela algumas vezes. Um dia, quando estava bêbado, ele disse que Reggie poderia se tornar a esposa número seis se jogasse bem suas cartas. Certa noite, ela combinou visitá-lo em seu quarto – de acordo com a sua vontade, ele e a mulher mantinham boudoirs separados. O velho estava alcoolizado de novo e foi manipulado por Reggie com facilidade. Após lhe atar os braços e as pernas e amordaçá-lo, ela pegou as fotos de suas vítimas e lhe mostrou, uma exigência estrita de todas as missões. No fim da vida, os monstros precisavam saber que a justiça enfim fora feita.

No início, o medo que ele demonstrou a divertiu. Mas, na hora de terminar o trabalho, Reggie hesitou. Ela nunca chegou a falar disso com ninguém. Nem com Whit e muito menos com o professor. Suas palavras encorajadoras para Dominic também tinham deixado de fora aquela parte da sua história pessoal. O monstro olhou para ela com uma expressão de súplica. Durante o treinamento, haviam dito que aquele momento chegaria. E também avisaram que nenhum treinamento no mundo poderia prepará-la plenamente para aquela situação.

E eles tinham razão.

Sua determinação parecia abandoná-la a cada lágrima derramada por um homem que, naquele momento, era apenas um velho indefeso. Quando abaixou a faca, ela viu o alívio em seus olhos. Ela poderia dizer que o disfarce havia sido descoberto e que a missão fora um fracasso. Ninguém jamais saberia a verdade.

Duas coisas impediram que isso acontecesse: a expressão de escárnio que aflorou nos olhos do homem ao vê-la titubear e o retrato de Daniel Abramowitz, de 2 anos, com um buraco de bala em sua cabecinha. A foto provinha dos arquivos do próprio monstro, reunido ao longo dos anos em que ele dirigira o campo de concentração.

Reggie mergulhou a faca em seu peito até o cabo bater no esterno do velho. Empurrou a faca para cima, forçou-a para baixo e, por fim, moveu-a para os lados, cortando várias artérias e destruindo as cavidades cardíacas, como lhe tinham ensinado. A expressão de escárnio desaparecera do rosto do velho. Por um tempo, enquanto ainda havia vida nele, Reggie viu em seu semblante ódio, medo, raiva, medo novamente e, por fim, o simples olhar vítreo da morte.

– Que Deus entenda por que fiz isto – sussurrou ela.

Aquelas palavras se tornaram um ritual para ela ao final de cada missão.

Reggie nunca mais hesitou.