Livrai-nos do mal
Capítulo 32
SHAW TENTAVA AVANÇAR EM meio à multidão na feira. Havia centenas de vendedores, alguns com simples cestas tiradas de velhos e minúsculos carros e armadas sobre mesas instáveis, outros com fileiras intermináveis de produtos em mostradores organizados. Matando tempo por ali havia uma hora, ele já tomara duas xícaras de café e comera um croissant de amêndoas e estava prestes a ir embora por uma rua comprida e estreita quando os viu se aproximando.
Seu primeiro impulso foi se esconder atrás de uma arara de vestidos de algodão e chapéus femininos, mas resolveu apenas se agachar, como se examinasse um par de botas de couro em uma prateleira. Por trás dos óculos escuros, seus olhos focavam os dois.
À sua esquerda, Janie Collins e Evan Waller caminhavam pela rua de braços dados. Ela carregava uma cesta e Shaw podia ver que já comprara algumas coisas. Dois passos atrás deles, estavam os seguranças. Um era o tampinha da noite anterior, o outro parecia ter quase 2 metros e mais de 120 quilos. Shaw esquadrinhou as outras ruas, portas e até telhados para ver se havia outros guarda-costas por perto. Não viu nenhum. Se houvesse, ele os teria visto.
Que diabos ela está fazendo com ele? Esse cara não perde tempo mesmo.
Shaw começou a segui-los, mas bem de longe, usando a cobertura das pessoas e objetos à venda sempre que eles se viravam. Aquele era um dos poucos momentos em que sua altura era uma desvantagem. Refugiando-se perto de uma barraca de caixinhas de música e camisetas, Shaw examinou Waller. E ficou impressionado, tanto com sua boa forma quanto com seu jeito confiante. Kuchin estava entretendo Janie com anedotas e, por algum motivo, o estômago de Shaw se retorcia toda vez que ele a via rir de uma das observações do canadense.
Por um instante, Shaw achou que Waller tivesse olhado em sua direção enquanto ele estava exposto diante de uma barraca de jaquetas de couro, mas, logo depois, o homem levou Janie para outro lugar. Observou Waller comprar um colar artesanal e, depois, o colocar no pescoço dela, os dedos lhe tocando suavemente a pele. Vinte minutos mais tarde, com a cesta cheia e seguido pelas sentinelas silenciosas, o casal retornou devagar para suas mansões enquanto Shaw os analisava, mas isso de nada serviu.
Voltou correndo ao hotel e ligou para Frank.
– A mulher está brincando com fogo e pode se queimar – comentou Shaw. – Deve haver uma maneira de protegê-la desse cara.
– Calma aí, Shaw. Achei que tivéssemos conversado sobre isso. Não mandamos você para a Provence para proteger uma americana rica. Você está aí para dar cabo de Waller, ponto final.
– Não podemos deixar o cara...
– Fazer o quê? Aproveitar-se dela? – Frank riu. – Sério, você é uma figura.
Shaw se sentou na cama e esfregou o polegar no indicador com tanta força que até fez barulho.
– Ele pode matá-la. Ou sequestrá-la e transformá-la em uma prostituta.
– Claro. Ele mata ou rapta uma jovem americana rica que está hospedada na mansão vizinha só para a polícia aparecer e investigar? Não mesmo. E por que ele faria isso se pode conseguir na Ásia tantas órfãs de 14 anos quanto quiser? O cara está de férias. Ele descobre que, na casa ao lado, tem uma garota bonita que nada nua. Provavelmente, só quer ir para a cama com ela.
– E você não vê problema nenhum nisso?
– Isso não é problema meu. Você discorda?
Shaw hesitou. Ele não tinha certeza do que achava. Aliás, talvez tivesse, mas estava com medo de falar, pelo menos para Frank.
– E se ela estragar a operação?
– Como?
– Não sei... Que tal cancelarmos tudo?
– Você enlouqueceu? – berrou Frank. – Se não o pegarmos desta vez, talvez ele não apareça de novo até Londres ou Nova York explodirem com uma bomba atômica. Concentre-se na operação, Shaw, e pare com essas bobagens.
Shaw desligou e soltou um pequeno gemido. Depois daquela missão, ele nunca mais voltaria à França.