Livrai-nos do mal
Capítulo 54
– UÉ, EVAN NÃO ESTÁ aqui com você?
Reggie se virou e viu Alan Rice observando-a. Ele atravessou a rua principal de Gordes e se juntou a ela.
– Achei que o objetivo dele fosse monopolizar cada minuto do seu tempo. No entanto, você está aqui, livre e sozinha.
– Acho que ele tinha algo melhor a fazer no momento. Além disso, eu tinha alguns compromissos. Só vim aqui comprar umas coisinhas.
– Você tem tempo para um café? – Ele apontou para uma cafeteria em uma transversal atrás dela, perto do museu Pol Mara, situado na praça do vilarejo. – As nuvens encobriram o sol e está um pouco frio. Um java não cairia mal.
Os dois se sentaram na parte interna do estabelecimento, pediram as bebidas e Rice só quebrou o silêncio quando as xícaras chegaram.
– Evan está encantado com você. Sem dúvida você percebeu.
– Gosto da companhia dele. Ele é um homem agradável.
– Não, na verdade, ele não é um homem agradável, Srta. Collins.
– Como? – indagou Reggie, parecendo surpresa. – Achei que você trabalhasse para ele.
– Eu trabalho e, portanto, o conheço muito bem. Ele é um empresário extremamente bem-sucedido. Mas “agradável” é um adjetivo que não se encaixa.
– E por que você está me dizendo isso?
– Quero ter certeza de que você sabe onde está se metendo.
– Eu não sabia que estava me metendo em algo.
– Posso assegurar que Evan não vê as coisas dessa maneira.
– O que você sugere que eu faça?
– Você poderia ir embora da Provence.
– Na verdade, estou planejando partir no sábado. Se eu for, você acha mesmo que o empresário extremamente bem-sucedido com uma natureza possessiva apenas deixaria pra lá?
Rice tomou um gole de café e ficou brincando com a colher.
– Talvez.
– Esse tipo de coisa já aconteceu antes com Evan?
– Você quer dizer com outras mulheres? Sim, já.
– E o que aconteceu com as outras mulheres?
– Na verdade, não sei.
– Você não está sendo muito convincente.
– Engraçado, pois estou dizendo a verdade.
– Quem você está protegendo, no fim das contas? A mim ou ao seu patrão?
– Achei que eu tivesse sido claro. Estou protegendo Evan. No fundo, não a conheço tão bem assim.
– Aprecio sua franqueza. Então, você o está protegendo dele mesmo?
– Essa é uma maneira de ver as coisas.
– Bem, para mim, essa é a única maneira de ver as coisas.
– Afinal, você vai embora? Agora? Não espere até sábado.
Reggie se levantou e pôs alguns euros sobre a mesa para pagar seu café.
– Acho que não. Fiz planos para ir à feira com ele amanhã e é minha intenção mantê-los.
Rice ficou de pé.
– Ir embora agora seria a coisa mais inteligente que você poderia fazer. Confie em mim.
– Esse é o problema, Alan: estou tendo dificuldade de confiar em qualquer pessoa neste momento.
Alguns minutos mais tarde, Rice estava ao lado de uma esteira ergométrica, onde o patrão fazia sua corrida diária. Waller secou o rosto com uma toalha e bebeu de uma garrafa d’água enquanto aumentava a inclinação do aparelho.
– Você parece perturbado, Alan.
– Acabei de ter uma conversa com nossa amiguinha.
– “Nossa amiguinha”?
– Jane Collins.
Waller desacelerou a máquina e reduziu a inclinação.
– Por que você fez isso?
– Estou preocupado.
– Com o quê? Nós a investigamos, lembra?
– Sim, e você mesmo viu os relatórios.
– Então, qual é o problema?
– Vejo como você olha para ela.
Waller reduziu ainda mais a velocidade, para o ritmo de uma caminhada rápida.
– Você vê como eu olho para ela? – questionou.
– Por favor, não fique aborrecido, Evan. É só que, no passado, você...
No instante seguinte, Rice estava caído no chão, o sangue escorrendo da boca. Waller se encontrava ao seu lado, de pé, com a mão cortada. Ele se abaixou e ergueu o empregado.
– Vá pôr gelo nisso antes que comece a inchar – recomendou calmamente.
– Eu só estava tentando proteger você – balbuciou Rice, segurando o maxilar.
– Se eu estivesse precisando de proteção, seria admirável. Mas não estou. – Ele lhe lançou um olhar feroz. – Você é meu colaborador, Alan. É um subalterno. Nunca se esqueça do seu lugar. Você não está, nem nunca estará, no mesmo nível que eu. Entende?
– Entendo.
Waller pôs um braço sobre seus ombros.
– Muito bem, então não falaremos mais sobre isso.
Rice saiu do cômodo. Waller ficou olhando pela janela, pensativo. Nunca permitiria que alguém questionasse seu julgamento ou sua autoridade. Rice chegara perto disso. Se alguém tivesse ouvido aquela conversa, Waller provavelmente teria ordenado que seu braço direito fosse executado. De qualquer forma, ele demonstrara um grau de independência alarmante.
Porém, será que havia alguma verdade em suas palavras? Ele precisava de proteção contra si mesmo? Sim, estava fascinado por Jane Collins; muitos homens também ficariam assim. A proximidade contribuía muito. No entanto, não se tratava apenas disso. Ela estava resistindo; agora era uma questão de honra ter sucesso. Jane era independente, sincera, teimosa e relutava em ser comandada ou manipulada. Waller queria desesperadamente possuí-la.
E o faria. Disso ele tinha certeza.