Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 81 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 79

 

DOIS DIAS HAVIAM SE passado. Shaw estivera em cada canto de Harrowsfield, observando o pessoal rastrear o próximo alvo e tendo conversas longas e detalhadas com Mallory, Liza, Reggie, Whit e Dominic. Até se aventurou a ir ao estande de tiro subterrâneo com Reggie. Lá, ele a viu acertar na mosca mais de noventa por cento das vezes, mesmo com um muro de fumaça a separando da silhueta que constituía seu alvo.

– Estou impressionado – comentou Shaw enquanto eles voltavam. – Como você consegue?

– Lembro a posição do alvo.

– Bem, na vida real, os alvos quase nunca ficam parados.

Passaram pelo cemitério no caminho de volta até a casa. Shaw parou diante do túmulo de Laura R. Campion.

– Parente? – perguntou ele. Reggie lhe revelara seu sobrenome.

– Duvido.

– Você vem muito aqui?

– Mais do que deveria – admitiu ela.

Reggie se sentou no velho banco e Shaw ficou em pé ao seu lado.

– Então você vem até aqui, fica olhando para o túmulo de alguém que você nem sabe se é um parente e acha isso saudável?

– Não seja implicante. Todo mundo tem suas esquisitices.

– Tudo bem, mas e a sua família?

– O que tem ela? – perguntou Reggie, na defensiva.

– Eles estão vivos?

– Não. E como estão os seus filhos? Resolveu aquele problema com seu garoto nos Estados Unidos?

– Minhas primeiras lembranças são de uma freira velha e gorda em um orfanato. Nunca me casei. Não tenho filhos.

– Desta vez é a verdade?

– É.

– Mas existe um túmulo nos arredores de Frankfurt. Anna?

Shaw inclinou a cabeça, fitando o chão.

– Mas eu conhecia a mulher que está naquele túmulo.

– Como eu disse, é uma esquisitice minha. Eu gostaria de saber mais sobre ela.

– Sobre quem? A mulher no meu túmulo ou no seu?

– Sobre as duas.

Shaw ficou observando o voo de um pássaro.

– O que aconteceu com a sua família?

– Todos morreram – respondeu ela, ríspida. – Simplesmente, morreram – acrescentou, com mais suavidade. – Acontece. A cada segundo, a cada dia. – Sua expressão se alterou. – Então, o que você aprendeu sobre nós?

– Que vocês têm sorte de estarem vivos.

Reggie franziu a testa.

– Como assim?

– Vocês até podem ser bons em campo, apesar de eu só ter testemunhado o fracasso em Gordes. Mas este lugar não tem um perímetro de segurança, há pouca proteção interna e a maioria das pessoas que conheci nunca passaria em uma verificação básica de segurança. Whit, por exemplo, é um agente em ruínas. E seu destemido líder, o professor Mallory, parece uma reencarnação de C. S. Lewis com tendências homicidas.

– Na verdade, acho que ele prefere Tolkien.

– Isso não muda a situação. Vocês estão caminhando sobre gelo fino.

Reggie se levantou.

– Quer saber de uma coisa? Sempre fomos bem-sucedidos. Até você aparecer.

– Se eu não tivesse aparecido, vocês estariam mortos – lembrou ele.

– Certo. Você quer que eu me ajoelhe e ateste sua superioridade? Não temos grandes orçamentos nem aviões e toda essa parafernália, mas damos conta do trabalho.

– Na maioria das vezes, vocês dão conta do trabalho – corrigiu-a Shaw.

Reggie desviou o olhar e enrubesceu. Quando voltou a encará-lo, ela perguntou:

– Quer lançar mais algum insulto sobre mim, já que você está tão afiado hoje?

– Não são insultos. São críticas. Você perguntou o que eu pensava e eu respondi. Se você não quisesse saber, não deveria ter perguntado.

– Você é inacreditável mesmo – observou ela, irritada.

– Algum problema? Sua atitude está me parecendo um pouco hostil.

– Nenhum problema. Como você disse, é apenas um trabalho. Esse é o único motivo para você estar aqui. Um maldito trabalho. Certo? “Cargo temporário”, acho que foram suas palavras, com ênfase em “temporário”.

– E também disse que não vou para a cama com alguém levianamente.

– É, foi o que você me disse.

– E estava falando sério.

– Tenho certeza disso.

– Estou aqui para ajudar você. Isso não conta?

– Acho que você também está aqui para pegar Kuchin e ter certeza de que não vai precisar ficar em alerta o resto da vida. Não finja que é tudo por altruísmo.

– Francamente, já preciso ficar em alerta de qualquer maneira. E ele não foi o pior canalha que enfrentei.

– E você sempre foi bem-sucedido?

Shaw olhou de relance para o túmulo.

– Nem sempre.

Um minuto de silêncio se passou e a expressão de Reggie enfim se suavizou.

– Escute, acho que exagerei. Também estou confusa e, para ser sincera, um pouco abalada com o que aconteceu. – Ela olhou ao redor. – Harrowsfield e o que fazemos aqui são tudo o que tenho, Shaw. Você deve achar isso patético, mas é assim que as coisas são. E, se eu perder tudo, não sei bem o que iria fazer.

– Então, precisamos nos certificar de que você não vai perder nada.

– Acho que logo vou saber, não?

– Na verdade, nós dois vamos saber.