Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 22 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 20

 

NO DIA SEGUINTE, SHAW observou com interesse a mulher misteriosa fazendo compras em Gordes. Homens de todas as idades olhavam enquanto ela passava usando um chapéu de sol e uma saia na altura dos joelhos que a brisa sorrateira de vez em quando levantava, deixando à mostra parte das coxas. Fingindo observar as vitrines pelas ruas, Shaw via os homens se aproximarem dela falando francês, italiano, grego e inglês – pelo menos foram as línguas que ouviu. Eles ofereciam ajuda com as compras e com o idioma, ou então sugeriam que ela tirasse a roupa na privacidade de seus quartos. A moça declinou educadamente todas as ofertas. De fato, ela não precisava de ajuda nenhuma. Falava muito bem francês e conhecia o preço das coisas. E sabia barganhar. Shaw a viu pechinchar com sucesso por uma blusa, um prato decorativo azul e amarelo, uma garrafa de vinho e uma dúzia de flores de abobrinha que deviam ser fritas mais tarde.

Naquela noite, ele estava sentado em um café ao ar livre em Gordes, tentando decidir o que jantar, quando foi surpreendido pela aproximação da mulher.

– Parlez-vous français?

– Oui, je parle français. Mais mon anglais est meilleur.

Ela abriu um sorriso.

– Meu inglês também é muito melhor do que o meu francês. Posso me sentar com você? Comi sozinha das últimas vezes e, embora no início tenha sido divertido, é algo que cansa rápido.

Shaw fez sinal para que ela se sentasse.

– Por favor.

Antes de pegar um cardápio, a mulher tirou o chapéu e o colocou na cadeira ao lado.

– O que parece bom? – perguntou ela, levantando os óculos escuros, embora os raios do sol poente a atingissem diretamente no rosto.

– Frango à puttanesca. Ou o velho filé com fritas e salada; esse não falha.

– Vamos pedir vinho?

– Estamos na Provence. Acho que é obrigatório tomar.

Eles fizeram o pedido ao garçom, que logo trouxe a garrafa de vinho tinto selecionada e duas taças, serviu-o e os deixou a sós.

– Devo estar parecendo muito atirada – comentou ela. – Abordá-lo dessa maneira...

– Não sei se o adjetivo “atirado” ainda pode ser usado para homens ou mulheres.

– Vamos começar pelo início: meu nome é Jane Collins. Janie para os amigos.

A moça esticou a mão e ele a apertou com uma expressão divertida.

– Bill.

– Americano?

Ele assentiu.

– E você?

– O que diz no meu passaporte.

– Sou de Washington.

– E o que você faz na capital da nossa nação?

– O mínimo possível. Eu era um lobista, mas vendi minha firma e decidi ver um pouco do mundo além do Capitólio.

– Você tem família?

– Deixe-me interpretar o pai orgulhoso. – Shaw sacou a carteira e lhe entregou a foto de um casal de crianças fornecida por Frank. – Michael e Alli. Eles estão nos Estados Unidos.

Ela devolveu a foto.

– Lindos. Então, sua mulher não está com você?

– Somos divorciados. – Ele pôs a foto no bolso da camisa. – A foto é um pouco antiga. Os dois já são adolescentes agora.

– Você deve ter começado cedo; não parece tão velho assim.

– Continue tomando vinho, gosto de como ele afeta sua visão. E você? Qual é sua história?

– Nada muito empolgante. Meu pai ganhou muito dinheiro. Ele e minha mãe morreram cedo demais e eu era filha única.

– Lamento. Acho que o dinheiro não serve de recompensa.

– Nunca achei que servisse e estava certa. Eu era jovem quando os dois faleceram, mas ainda sinto falta deles.

– Entendo.

– Mas a vida segue em frente. – Ela desviou o olhar por um instante antes de voltar a encará-lo. Deu um sorriso fraco e acrescentou: – Sou rica, gosto de viajar, ver lugares diferentes. Este lugar é lindo. Há quanto tempo você está aqui?

– Há alguns dias.

– E depois?

– Itália e Grécia. Mas estou indo com calma. Minha vida inteira seguiu um plano muito corrido. Estou fazendo as coisas devagar agora.

– Onde você está hospedado?

Shaw se mexeu na cadeira, inquieto.

– Bem, no fim das contas, talvez seja possível usar o adjetivo “atirado”.

Ela corou.

– Certo, essa eu mereci. Costumo fazer perguntas em excesso e falar demais de mim mesma para estranhos.

– Tendo a concordar. É melhor não ficar falando por aí que você é rica. Muitos malandros podem tirar proveito dessa informação.

– Acho que você tem razão.

– Por que você está sozinha? Não tem amigos que gostariam de viajar com você? Tenho certeza de que você viaja de primeira classe.

– Os amigos têm empregos. Essa é a desvantagem de não precisar trabalhar para ganhar a vida.

– Acho que a maioria das pessoas conseguiria aguentar esse fardo – comentou ele com delicadeza.

– Bem, nós poderíamos sair juntos.

– Você nem me conhece.

– Claro que conheço. Você é o...

– Bill – completou ele.

Ela bateu de brincadeira no braço de Shaw.

– De Washington. Um ex-lobista divorciado com dois lindos filhos adolescentes. Viu, minha memória não é tão ruim assim.

– Certo, Jane...

– Janie para os amigos.

– Tudo bem, Janie, mas vá devagar com as pessoas.

– Tenho quase 30 anos – replicou ela, acanhada. – Era de se esperar que eu já tivesse aprendido a lição.

– Algumas pessoas nunca aprendem.

– Então, onde você aprendeu a falar francês?

– Como você sabe que eu sei falar? Com as poucas palavras que eu disse, não daria para conseguir um emprego na ONU. Seu francês parece de um nativo. Onde você aprendeu?

– Fiz um curso de imersão por seis meses antes de vir para cá. É incrível o que dá para fazer quando não se trabalha.

Shaw levantou a taça de vinho e a encostou na dela, brindando.

– Estou ansioso para descobrir.

A comida chegou e eles continuaram a conversar durante o jantar. Dividiram a conta e pagaram em dinheiro. Depois, passearam pela rua. A maioria das lojas estava fechada àquela hora, mas a brisa morna era agradável e havia muitas pessoas batendo perna. Era possível escutar a música de um bar fora do centro da cidade.

– Quanto você mede? – perguntou ela, examinando-o.

– Quase 2 metros.

– Você devia ser o lobista mais alto de Washington.

– Não, tem uns ex-jogadores da NBA tentando conseguir alguns dólares por lá. Um deles mede 2,13 metros. O coitado precisa se abaixar ao passar por cada porta para ir a reuniões e ganhar o pão de cada dia.

– Bem, eu sigo por aqui – disse ela.

Shaw apontou para trás.

– E eu, por ali.

– Talvez a gente se esbarre por aí de novo.

– Cidade pequena, grandes chances.

Ela sorriu.

– Vou ser bem mais reticente da próxima vez.

Shaw retribuiu o sorriso.

– E eu vou ser bem menos crítico.

Reggie Campion voltou no mesmo instante para a mansão, onde deu um telefonema. Falou sobre o encontro com Bill ao professor Mallory e forneceu uma descrição detalhada dele.

– Descubra o que puder. Alguma coisa há nesse cara.

– Certo, Regina. Mas talvez não seja nada.

– Ou talvez seja tudo. Confio no meu instinto. Alguma notícia sobre Waller?

– Tudo como previsto.

– Então, meu trabalho já está bem-encaminhado, exceto se essa novidade se transformar numa complicação. Tem certeza de que está tudo certo com o meu disfarce?

– Já está há algum tempo. Um dos nossos benfeitores é o dono de uma empresa de tecnologia com programas de alto nível e acesso a inúmeros bancos de dados. Ele nos permitiu entrar pela porta dos fundos para fazer tudo de que precisávamos. Todas as informações que você memorizou estão registradas em todos os lugares em que se pode pesquisar. Registro civil nos EUA, um número de Seguridade Social americano, contas bancárias, histórico educacional, diplomas, histórico dos pais. Ah, gostou da sua página no Facebook?

– Incrível. Tenho amigos legais. E devo dizer, professor, que o senhor sabe mais sobre computadores do que deixa transparecer.

– Não passo de um velho trapaceiro. Apenas regurgito o que me dizem.

– Se é o que o senhor diz...

– Não se exceda.

– É a única maneira de eu me manter viva.

 

A não mais do que 800 metros dali, Shaw estava sentado em sua cama tirando uma série de digitais do revestimento especial que recobria a foto falsa dos filhos que ele havia entregado a “Janie”. Usando um equipamento portátil, escaneou-as, enviou por e-mail para Frank e, em seguida, telefonou.

– Parece uma gata – comentou Frank depois que Shaw passou as informações.

– Não gosto que “gatas” apareçam quando tenho uma missão a cumprir, especialmente se estão hospedadas na mansão ao lado do meu alvo. E ela também já andou fazendo perguntas sobre a casa de Waller.

– Mas, pelo que você disse, ela é meio desmiolada.

– Não podemos saber ao certo. Ela pode estar fingindo.

– Já disse que nosso levantamento preliminar não acusou nada. Está ficando paranoico?

– Não, Frank. Sou paranoico há muito tempo.