Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 91 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 89

 

KATIE JAMES DESPERTOU AOS poucos. Um barulho aqui, um pensamento ali, um pesadelo que parecia muito real, até palpável. Por fim, ela se levantou, pegou um copo d’água, se acomodou em uma poltrona, acendeu uma lâmpada e pegou um livro policial.

O toque do telefone a assustou. Katie consultou o relógio. Era quase meia-noite. Ficou pensando se deveria atender ou não. Afinal, aquela casa não era sua. Mas talvez fosse Roberta ligando. Olhou para o identificador de chamadas no visor. Nada. Hesitou, mas acabou atendendo.

– Alô.

– A Roberta está?

– Quem está falando?

– Você é Roberta?

Que estranho. Se a pessoa conhecia Roberta, também conhecia sua voz.

– Quem está falando? – insistiu, mas a ligação foi interrompida.

Nervosa, ela rapidamente verificou que as portas da frente e dos fundos estavam trancadas. Pegou um atiçador da lareira, voltou para o quarto e fechou a porta. Podia ligar para Shaw com um simples toque na tecla de rediscagem. Mas ele devia estar a milhares de quilômetros de distância, sem poder protegê-la. E talvez nem quisesse mesmo.

A mão tapou sua boca antes que ela pudesse gritar. O atiçador foi arrancado da sua mão junto com o celular. O cheiro era horrível, fazendo suas narinas se fecharem.

Katie apagou.

 

Sua cabeça latejava com força. Abriu os olhos e logo os fechou ao deparar com as fortes luzes acima. Gemeu, sentindo-se enjoada. Fez mais uma tentativa e dessa vez conseguiu mantê-los abertos. Sentou-se e congelou ao ver um homem a observando.

Ele estendeu a mão.

– Espero que você esteja melhor – disse Kuchin.

Ela não tomou a mão dele. Ficou parada, observando o entorno. Só havia iluminação onde ela estava; o restante se encontrava às escuras. Sentiu um solavanco embaixo do corpo, depois outro. Olhou para baixo. Estava em uma poltrona cujo encosto fora inclinado até formar uma cama. Outro solavanco. Seus ouvidos sintonizaram aquele zunido familiar. Ao longo de quantas milhas ela ouvira aquele barulho?

Ela estava em um avião.

Katie se endireitou e esticou as pernas na direção do corredor. O homem recuou um pouco para permitir o movimento.

– Posso fazer uma pergunta óbvia? – indagou ela.

Ele se sentou em uma poltrona à frente.

– Por favor.

– Quem é você e por que estou aqui?

– Duas boas perguntas. Quem eu sou não é relevante para você. O porquê de você estar aqui pode ser interessante.

Kuchin lhe entregou um pedaço quadrado de papel brilhante.

Katie o pegou e descobriu ser uma foto. Ela e Shaw em Zurique. Sua mão sobre o braço dele. O máximo de intimidade a que eles chegaram.

Shaw. É por isso que estou aqui.

Ela levantou a cabeça e devolveu o retrato.

– Ainda não estou entendendo.

– Sua boca diz isso, seus olhos dizem algo diferente. É tarde demais para essa tática. Você o conhece e vice-versa. E eu também gostaria de conhecê-lo.

Aposto que sim.

– Por quê?

– Ele é um homem interessante.

– Não sei onde ele está.

Kuchin suspirou. No momento seguinte, Katie estava estirada no chão da cabine, com sangue escorrendo do rosto. Seu cérebro ainda tentava processar o que acontecera quando ela foi puxada pelos cabelos e jogada de volta na poltrona. Katie afundou no assento, segurando o rosto e tentando estancar o sangue que fluía do nariz.

Sentiu algo roçando a bochecha.

Kuchin estava lhe dando uma toalha.

– Perdoe-me. Sou impulsivo. Preciso desesperadamente me encontrar com o seu amigo. Ele está me devendo algo.

– O quê? – perguntou devagar, por causa da boca machucada.

– Mais uma vez, não é relevante para você.

– Não sei onde ele está. Estou dizendo a verdade.

– Mas você pode entrar em contato com ele.

– Não, não posso. Eu...

Ela se interrompeu ao ver que Kuchin segurava seu celular.

– É interessante termos encontrado dois celulares. Um deles você estava segurando e outro na sua bolsa. O da bolsa parecia um telefone qualquer; contatos, e-mails e agenda comuns. Mas este aqui não tinha nada disso. Na verdade, de acordo com o registro de chamadas, você só recebeu dois telefonemas neste aparelho. Bem, esse homem que estou procurando, o seu amigo... tenho a impressão de que ele é o tipo de homem que daria um telefone assim para você.

– Não foi ele – replicou Katie, limpando o rosto.

– Então não tem problema se eu ligar de volta para este número? Só para ver quem atende?

Katie baixou a cabeça por um instante, tentando tomar fôlego e controlar os nervos.

Que diabos Shaw fez para irritar um cara como esse?

– Vou interpretar seu silêncio como uma afirmação.

– Ele não vai vir.

– Eu acho que vai.

– Por quê? – perguntou Katie, desolada.

Kuchin olhou para a foto de Shaw e Katie.

– Acho que você sabe por quê.