Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 74 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 72

 

– VOCÊ NÃO USOU O jatinho da empresa, certo? – perguntou Kuchin.

– Não. Como você me orientou, aluguei um avião particular em nome de uma das empresas de fachada que temos. Impossível chegarem a mim ou a você.

– E ficou fora da cidade, em um lugar seguro?

– Sim, como você instruiu. Conduzi os negócios através de linhas de telefones e de dados seguras. – Ele fez uma pausa. – Acha que tem alguém atrás de mim?

– Não, eles estão atrás de mim, mas podem usar você para ajudar na busca. Eu podia tê-lo matado ou escondido. Escolhi a segunda opção.

Rice começou a se sentir mal. Kuchin lhe agarrou o braço.

– Agora, o relatório.

– Foi fascinante como conseguimos descobrir isto. A tecnologia é mesmo notável. Começamos usando...

Kuchin ergueu a mão em sinal de advertência.

– Alan, vá direto ao ponto.

– Não descobrimos nada nos bancos de dados em que podíamos entrar. Sem dúvida, se tivéssemos acesso a alguns arquivos dos Estados Unidos ou da Interpol, os resultados seriam diferentes. Fomos obrigados a fazer buscas alternativas, só que os fluxos de dados eram imensos e os protocolos de acesso ao servidor, complexos, mas...

– Direto ao ponto – atalhou Kuchin.

Rice se apressou.

– Utilizamos imagens de segurança pós-expediente.

– Imagens de segurança pós-expediente? Explique.

– Hoje em dia, há câmeras de observação por toda parte. Não estou falando de pessoas andando por aí com celulares, tirando fotos quando uma celebridade faz alguma besteira e postando-as na internet. Estou falando de câmeras em caixas eletrônicos, ruas, prédios comerciais, tribunais, aeroportos, estações de trem e milhões de outros lugares. Londres é uma câmera gigante, em especial por causa do pedágio para se entrar de carro no centro da cidade. Existem trilhões de bytes de imagens por aí que vão acabar em servidores enormes. O trabalho da polícia ficou mais fácil. Praticamente qualquer crime, pelo menos em uma área pública, pode ser filmado.

– Mas como isso nos ajuda? Havia câmeras desse tipo em Gordes? – perguntou Kuchin, cético.

Rice abriu seu laptop e o pôs sobre uma mesinha de centro.

– Não, usamos outra abordagem. Você precisa entender que boa parte desses dados não é armazenada localmente. Não existe capacidade para isso, ainda mais no caso de pequenas empresas e municípios de médio porte, e o gasto é enorme mesmo para grandes empresas e grandes cidades. Então, o que as pessoas fazem diante de uma necessidade para a qual não estão equipadas ou que é cara demais?

– Terceirizam o serviço para firmas que se especializam naquele ramo.

– Exato. Portanto, uma grande parte da armazenagem desses dados é centralizada em gigantescos complexos de servidores em todo o mundo. Pense em arquivos organizados por país, estado, cidade, bairro ou divididos taticamente por prédios do governo, bancos, escritórios comerciais, instalações militares e dezenas de outras subcategorias. O normal é que as imagens fiquem guardadas durante anos, ou até para sempre. Não é como ter bilhões de fotos empilhadas em algum lugar, pois é tudo digital. O espaço de armazenamento não é tão grande.

– E não dá para saber quando algum daqueles dados poderá ter valor.

– Exato. Digamos que exista uma imagem de um funcionário se encontrando do lado de fora de um prédio com a mesma pessoa durante semanas. Talvez não queira dizer nada naquele momento, porém, dois anos mais tarde, quando segredos da empresa são roubados, talvez essas gravações possam ajudar a montar uma acusação de espionagem industrial contra o funcionário.

– Entendo. Prossiga.

– Anos atrás, alguns empresários viram oportunidades nesse ramo nascente e aproveitaram para criar grandes empresas globais, pois perceberam que havíamos nos tornado a sociedade do Grande Irmão. Agora, essa é a chave para o nosso propósito: certas pessoas em algumas dessas empresas logo perceberam que as imagens armazenadas tinham valor para muitos outros usuários além dos clientes originais. Isso porque uma câmera capta muitas coisas que vão além do motivo original pelo qual ela foi instalada. Por exemplo, se você sabe que alguém esteve em um determinado local em um dado momento e quer uma filmagem comprometedora daquela pessoa, é bem provável que houvesse ali um olho eletrônico e que essa imagem esteja em algum servidor.

– Então, os funcionários dessas empresas estão vendendo as imagens.

– Exato. Eles divulgam discretamente que, por um bom preço, podem realizar verificações e disponibilizar a imagem. Às vezes, é a própria empresa que negocia com terceiros. Ao que parece, a lei é vaga em alguns países, ou pelo menos inconsistente no que se refere aos usos que podem ser feitos das informações armazenadas, permitindo que as companhias façam isso. E os clientes originais ou não se importam ou, o mais provável, desconhecem os usos suplementares dos dados.

Rice parou um instante e prosseguiu:

– E foi aí que entramos em cena. Enviamos a foto da mulher e as imagens digitalizadas dos desenhos a uma conhecida plataforma de servidores que cobre vários países na Europa. Eles rastrearam todos os arquivos de que dispunham. Da primeira vez, não obtivemos nenhum resultado. Mas, da segunda vez, sim.

– E qual foi o resultado?

Rice digitou algumas teclas e virou a tela para Kuchin.

– Obtivemos um único resultado positivo, mas foi melhor do que nada. Zurique. Do lado de fora de um hotel, sete meses atrás – explicou Rice.

Kuchin se inclinou para a frente e examinou a imagem. Sem dúvida, era o homem alto.

– Mas quem é ele?

– Ainda não sabemos.

Kuchin deu um tapa na mesa.

– Então, isso não serve de nada para mim!

– Espere, Evan, por favor. Tem mais. Olhe para a mulher ao lado.

Kuchin obedeceu. Era uma loura alta e esbelta. Notou que o braço da mulher estava junto à mão de Shaw. Ele encarou Rice.

– Eles estão juntos?

– É o que parece. Verificamos com o hotel. Não queriam dar informação alguma sobre nenhum deles, logo passamos a imagem dela pelos bancos de dados.

– E obtiveram um resultado positivo?

– Mais do que isso. – Rice lhe entregou uma pasta, mas Kuchin não a abriu. – Sei que você prefere papel a digital.

– O nome dela?

– Katie James.