Livrai-nos do mal
Capítulo 52
SHAW SE AFASTOU DA porta, frustrado. Tentar abrir uma fechadura de segurança na escuridão quase total usando apenas um pedaço de metal só podia provocar frustração, pensou ele. Havia mais de 86 mil segundos em um dia. Como contara mais de cem mil segundos – e quase enlouquecera –, concluiu que estava na metade do dia ou da noite. Deu um passo à frente e ficou escutando com o ouvido grudado na porta. Nenhum passo, nenhuma respiração. No entanto, uma porta sólida se achava entre ele e a liberdade. Se tentasse arrombá-la, eles o estariam esperando com armas em punho. Voltou a se jogar na cadeira e tentou pensar em outro modo de fugir.
Sua motivação para se libertar havia mudado, mas só um pouco, na verdade. Se aqueles homens eram colegas de Janie, ela não estava sozinha. Se Waller tentasse fazer algo, pelo menos ela teria apoio. Mas Shaw tinha certeza de que os homens não eram policiais. O sujeito com o qual conversara pareceu surpreso ao saber dos terroristas. Por que iriam matá-lo, então? E, se eles não eram agentes da lei, por que o mantiveram vivo? Um tiro na cabeça e uma cova rasa no meio do nada teriam feito mais sentido.
Confuso, Shaw se sentou na cadeira e ficou mexendo nos dois pedaços de metal inúteis. Se Frank o visse naquela situação... Fitando o vaso, algo lhe ocorreu. Ele olhou para a porta e voltou a analisar a privada. Inspecionando a ferramenta improvisada em suas mãos, pensou que talvez fosse possível.
– E como foi sua natação? – perguntou Waller.
Eles estavam subindo para o vilarejo de Gordes na tarde seguinte.
– Refrescante. Você gostou do que viu?
Ele pareceu surpreso.
– Como?
– Pensei ter visto alguém espiando por cima do muro. Deduzi que fosse você, mas acho que poderia ter sido um dos seus seguranças.
Ela olhou para trás, na direção de Pascal e de outro guarda-costas que os seguiam.
– Não era eu – replicou Waller em um tom seco. – E não foi nenhum dos meus seguranças.
– Então, talvez eu esteja enganada.
– Está, sim.
Reggie não sabia ao certo por que o havia provocado. Não, ela sabia, sim. Era melhor do que arrancar os olhos dele. Traficante de escravas sexuais. Terrorista. Ela inspirou calmamente e conseguiu dar um sorriso.
– A grande feira é amanhã. É bem maior do que a que você viu.
– Estou ansioso para vê-la.
Depois das compras, eles passaram de novo na frente da igreja.
– Você já esteve aí dentro? – indagou Reggie.
– Ainda não, virei à missa no domingo.
– Eu entrei. É linda. Quer vê-la?
Waller hesitou e olhou para os dois seguranças.
– Tudo bem. Só por alguns minutos. Precisamos ir comer. Estou com fome. E, após a feira amanhã, quero levá-la a Pont du Gard para ver o aqueduto e jantar lá por perto em um restaurante delicioso. No dia seguinte, Gigondas.
– Você já planejou tudo!
– Claro.
A resposta brusca foi suavizada por um sorriso.
Desceram a rua estreita e abriram a porta da igreja. Dentro, o ar estava mais frio. Avançaram pela nave e viram a escada que levava ao campanário, o ponto mais alto de Gordes. Os dois guarda-costas ficaram esperando perto da porta, no interior.
Ao se aproximarem do altar, Reggie e Waller se ajoelharam e fizeram o sinal da cruz. Um padre idoso apareceu e foi falar com eles em francês. Reggie respondeu antes que o homem se afastasse.
– Ele só perguntou... – começou a explicar.
– Sim, eu sei, meu francês é tão bom quanto o meu inglês, talvez até melhor – replicou Waller. – A igreja está fechada, mas só vamos ficar aqui alguns minutos.
Reggie olhou ao redor.
– Séculos de devotos passaram por aqui. É notável.
Em voz baixa, Waller comentou:
– É uma glória estar na presença de um poder assim.
– Poder para o bem – acrescentou Reggie enquanto fitava a cruz no altar.
– Em uma igreja, o que mais poderia ser?
– Não vou à missa tanto quanto deveria.
– Viremos juntos no domingo.
– Não vai ser possível, pois vou embora no sábado.
Ele pareceu atordoado.
– Para onde?
– Para casa, para os Estados Unidos.
– Você não pode mudar de planos?
– Por quê?
– Porque eu estou pedindo. Quero passar mais tempo com você aqui.
– Mas o aluguel da minha mansão vai acabar.
– Eu cuido disso. Vou estendê-lo ou você pode ficar na minha mansão.
– Evan, não acho que...
Ele agarrou o braço de Reggie.
– Eu cuido disso.
Ela fez uma expressão de dor por causa da pressão e Waller a soltou.
– Você me enfeitiçou. Perto de você, eu perco a cabeça. Preciso tomar cuidado comigo mesmo.
– Talvez eu deva fazer o mesmo – retrucou ela, tentando dar um sorriso.
– Mas é sério, precisamos passar mais tempo juntos. E, depois, quando eu estiver de volta ao Canadá, será fácil ir até os Estados Unidos. Poderemos nos ver lá.
– Você mal me conhece.
– Julgo rapidamente as pessoas. Na verdade, elas não são nenhum mistério para mim.
Waller riu de uma maneira que fez Reggie estremecer. Porém, ela tinha mais uma coisa a fazer. Fora por isso que o levara até ali.
– Está na hora de voltarmos. Tenho algumas coisas a fazer de carro depois do almoço – falou ela.
Waller se voltou para iniciar o caminho de volta.
– Não. – Reggie assumiu um ar travesso e brincalhão, uma interpretação que ela treinara em frente ao espelho da mansão. – Descobri um atalho.
– O quê?
– Me siga.
Ela se encaminhou para a escada que levava ao nível inferior.
– Aonde você está indo? – perguntou ele.
A moça se virou.
– Um atalho, como eu disse. – Reggie olhou para Pascal, que a observava. – Ele também pode vir – acrescentou com uma risada. – Não estou levando você para uma emboscada, venha.
Ela começou a descer os degraus.
Waller acenou para Pascal com a cabeça e eles a seguiram. Reggie os esperava ao pé da escada e os foi conduzindo pelas entranhas daquele lugar sagrado. Olhando para trás, notou que Pascal mantinha uma das mãos perto da arma. Um minuto mais tarde, ela abriu a porta com um empurrão, saiu para a luz do dia e apontou para a esquerda.
– Viu? Um atalho colina abaixo. Essa passagem foi aberta diretamente na pedra. As mansões estão situadas logo no fim desses degraus.
Waller parecia surpreso e impressionado.
– Já passei por esta porta antes e fiquei me perguntando onde daria.
– Agora, você sabe – disse ela.
Agora, você sabe.