Livrai-nos do mal
Capítulo 50
– SIM, WHIT, ENTENDO A situação com bastante clareza, talvez até melhor que você.
Mallory estava sentado atrás da escrivaninha em seu escritório em Harrowsfield, tentando acender o cachimbo ao mesmo tempo que segurava o telefone contra o ouvido com o braço esquerdo.
– Tomei a providência que julguei mais prudente.
O professor fez uma pausa, ouvindo o palavrório do irlandês aborrecido.
Mallory enfim conseguiu acender o cachimbo e, por um instante, tragou avidamente. Apagou o fósforo e o deixou cair sobre a mesa, onde continuou a fumegar.
– Não consigo entender como isso reduziu o capital humano à sua disposição, mas, se você necessita de reforços, posso mandá-los amanhã. Você tem quatro homens para a parte externa e vocês três podem cuidar da interna. Acha insuficiente? – Ele parou de falar e escutou. – Sim, falei com Regina, e não, ela não está a par. Por quê? Os detalhes finais foram acertados? Entendo. Equipamento de projeção. – Outra pausa para ouvir. – Sim, acho que seria conveniente. Certo. Sim, é só me avisar.
Mallory desligou o telefone e pitou o cachimbo. Ergueu o olhar e viu Liza na porta.
– Problemas? – perguntou ela.
– Nada que não possa ser resolvido. Whit está um pouco exaltado, mas vai passar.
Liza franziu a testa.
– Estamos próximos demais do dia D para que alguém fique exaltado, não?
– Vai dar tudo certo, Liza, não se preocupe.
– E você não está preocupado?
– Fico sempre preocupado até o meu pessoal voltar para cá são e salvo. Mas está tudo sob controle e o plano é sólido. Regina pensou em um adendo que acho que vai funcionar muito bem.
– Seu plano tem uma falha.
– Nenhum plano é perfeito, e tivemos de arquitetar esse às pressas.
– Mas eles não estão cientes da possível falha. Você sabe que não estou de acordo.
– Sem esse elemento, não teríamos chance de pegar Kuchin.
– Sim, mas ele pode determinar se o “seu pessoal” voltará são e salvo.
– Estou ciente dos riscos – retrucou Mallory, um pouco indignado.
– Você está, mas eles, não.
– Em tudo o que fazemos, há um risco inerente.
– Às vezes, eu me pergunto...
– O quê?
– Ficamos aqui sentados na aconchegante casa de campo inglesa, planejamos essas coisas e, depois, os mandamos para executar nossos planos.
– Eles participam da formulação dos planos.
– Boa noite, professor.
Liza deixou Mallory pitando raivosamente até terminar o tabaco. Ele guardou o cachimbo no bolso do paletó e permaneceu imóvel, taciturno, em sua velha cadeira de couro.
Whit ficou sentado olhando para o telefone. Às vezes, não conseguia entender Mallory. Aliás, quase nunca. O professor o havia incumbido de uma tarefa em um momento crítico da missão e o irlandês não gostou nada daquilo. Ficar de babá de Bill Young não fazia parte do serviço. Pôs o celular no bolso e atravessou o corredor pisando duro.
– Dê-me a chave, Niles – ordenou ao homem que estava de guarda.
Ele lhe entregou a chave e bateu à porta, gritando:
– Afaste-se!
Sacou sua arma e a apontou para a porta enquanto Whit introduzia a chave, abrindo-a com um clique, e se postava na entrada do cômodo.
Shaw estava em pé, encostado na parede oposta, encarando-o.
– Está pronto para me soltar?
– Sente-se – ordenou Whit.
Shaw olhou para a arma que o mirava, foi devagar até a cadeira e se sentou. Whit avançou um pouco.
– Sabe, você me parece familiar – observou Shaw.
– Eu pareço com muitos homens.
– Então, como posso ajudá-lo?
– Você pode me dizer o que está fazendo na França?
– Estou de férias. Por que você está aqui?
Whit apoiou-se na parede.
– Lobista de Washington que sabe escalar muros e desarmar pessoas? Acha mesmo que vamos acreditar nisso?
Shaw ficou calado por um bom tempo.
– Sou um lobista aposentado. E eu deveria estar voltando para os Estados Unidos para ficar com o meu filho. Você, obviamente, se opôs.
– Você parece jovem demais para estar aposentado.
– Ganhei dinheiro e quis parar. Isso é crime? É por isso que você me deu um golpe na cabeça e está me mantendo prisioneiro aqui?
– Como já disse, acalme-se e tudo ficará bem.
– Sim, mas e quanto a Janie Collins?
– Quem?
Shaw cruzou os braços e examinou o outro homem.
– O que vocês estão planejando?
– Não sei do que você está falando.
– Mas vocês estão trabalhando juntos.
Whit balançou a cabeça.
– Mais uma vez, não sei do que você está falando.
– Claro que sabe. Eu falei a Janie que era um lobista aposentado. Escalei o muro da casa dela e a desarmei. Ninguém mais sabia disso.
– É fácil descobrir essas coisas.
– Não é, não. E por que você investigaria isso?
– Então, não vai me dizer por que está aqui?
– Você primeiro.
– Tudo bem, você vai apodrecer aqui.
Whit lhe deu as costas para ir embora.
Shaw hesitou, mas falou:
– Cuidado com Waller, ele não é quem vocês pensam.
Whit se virou.
– Que diabos você sabe sobre ele?
– Mais do que vocês, ao que parece. A propósito, acabei de me lembrar onde nos vimos. O passeio de caiaque. Você estava nos seguindo. Vocês estão atrás de Waller, não?
– Não sei o que você anda fumando.
– Ele é um cara perigoso.
– É mesmo?
Shaw sabia que não deveria fazer aquilo, mas sua preocupação com Janie suplantou os instintos profissionais de sigilo.
– Waller comanda um esquema global de prostituição. Ele pega mulheres na Ásia e na África e as vende como escravas sexuais no Ocidente.
Como a revelação não pareceu interessar muito Whit, Shaw acrescentou:
– Ele também tentou vender urânio para alguns fundamentalistas islâmicos antes de matá-los depois de um desentendimento.
– Terroristas? – exclamou Whit.
– Provavelmente o passaram para trás e ele os fez pagar. Esse cara não é flor que se cheire. E está de olho em Janie, embora eu já tenha percebido que esse não é o verdadeiro nome dela. Seja lá o que vocês planejaram, é melhor levarem em conta a possibilidade de Waller acabar descobrindo algo. E é melhor começar a se preocupar para que Janie não desapareça.
– E por que você está me dizendo isso?
– Acho que você sabe por quê. Se ele pegar Janie, está tudo acabado.
Whit bateu a porta atrás de si e a trancou. Shaw ouviu os dois homens conversando do lado de fora, depois, passos se afastando.
Sentou-se na cadeira. Seus instintos iniciais não eram totalmente incorretos. Janie Collins não era quem dizia ser. Mas não queria interferir na missão de Shaw, nem sequer tinha conhecimento dela, ao que parecia. Desconfiaram de Shaw, mas não sabiam por que ele estava ali. Seus objetivos se cruzavam. Mas por que desejavam pegar Waller? E como planejavam levar a cabo seu plano?
Shaw olhou ao redor. Precisava sair dali mais do que nunca. Tinha um mau pressentimento de que o plano deles, fosse lá qual fosse, não era suficientemente bom. E havia uma grande probabilidade de eles serem mortos por Waller.